Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois de perder os pais no início da faculdade e ver a bolsa de estudos escorrer pelo ralo junto com qualquer estabilidade financeira, Emília “Emmy” Rocha só tem duas certezas: deve mais do que consegue contar e não tem ninguém no mundo além de si mesma. Quando surge a vaga de babá residente na cobertura de um dos homens mais ricos e temidos da cidade, ela sabe que não pode recusar. Moradia incluída, salário “acima da média”, possibilidade de continuar estudando à noite. Em troca, só precisa cuidar de Joana, uma garotinha de cinco anos, intensa, brilhante e muito mais solitária do que deveria. O problema não é a criança. O problema é o pai.
Ler maisTem dias que a gente não sabe muito bem nem como começar, mas eu já fazia meses que precisava respirar fundo e contar até dez antes de levantar da cama. A busca por um emprego era incessante e só dividia espaço com as preocupações com as contas atrasadas.
A página aberta tremia um pouco, mas não era culpa do meu notebook velho, era das minhas mãos.
“Prezado senhor Matteo Santoro…”
Apaguei o “prezado”. Parecia formal demais para alguém que devia até o café parcelado do mês anterior.
“Senhor Matteo, meu nome é Emília, mas todo mundo me chama de Emmy…”
Apaguei de novo. Respirei fundo, sentada na borda da cama estreita do quarto da república. As paredes descascadas, o ventilador fazendo um barulho incômodo, e o aviso do banco ecoando na minha cabeça como ruído de fundo: trinta dias para regularizar o atraso, ou o processo de cobrança judicial da dívida estudantil seria iniciado.
Fechei o notebook com mais força do que pretendia.
Currículo. Era isso que eles precisavam. Nada de carta. Eu já tinha currículo, já tinha CPF, já tinha contas atrasadas. Faltar não faltava nada, exceto os pais, o dinheiro e o tempo.
O grupo de vagas no aplicativo apitou de novo. Peguei o celular.
“PROCURA-SE BABÁ RESIDENTE. Experiência com crianças, disponibilidade para viagens, discrição absoluta. Salário: acima da média. Enviar currículo para…”
Acima da média. As duas palavras arranharam o meu cérebro. Cliquei no anúncio, rolei para cima e para baixo, procurando a pegadinha. Não havia empresa, não havia logo, só um e-mail discreto, um endereço de bairro caro na cidade e o sobrenome: Santoro.
Eu já tinha ouvido esse nome. A empresa de investimentos, as manchetes sobre fusões, as entrevistas com o bilionário jovem demais para tanta fortuna. Matteo Santoro. O tipo de homem que existia num planeta paralelo: jatinhos, helicópteros, capas de revista, frases sobre meritocracia em debates econômicos.
Olhei de novo para o valor aproximado do salário, calculei mentalmente três parcelas atrasadas da faculdade, mais os juros, mais o aluguel da república dividida com outras três meninas. Aquela vaga podia comprar tempo. E tempo, para quem tem uma dívida estudantil e nenhum parente vivo, é mais precioso que joias.
Abri meu currículo. Adicionei uma linha:
“Experiência como monitora em projetos de extensão infantil na universidade.”
Não era mentira. Eu só não precisava detalhar que o projeto tinha sido num galpão improvisado com tapete de EVA meio rasgado.
Anexei o arquivo, digitei o assunto do e-mail: “Vaga babá residente – Emília Rocha” e cliquei em enviar antes de pensar melhor. Pensar demais costumava sair caro.
A resposta veio mais rápido do que eu esperava: quase uma hora depois, enquanto eu contava moedas para decidir se dava pra comprar um salgado na esquina.
“Prezada Emília,
Seu perfil foi selecionado para entrevista presencial.
Data: amanhã, 9h.
Local: Condomínio Alto das Araucárias, Bloco A, cobertura.Favor trazer documentos e referências.Atenciosamente,
Equipe Santoro.”Equipe. Eu não sabia exatamente o que imaginava, mas a palavra “equipe” fazia parecer menos assustador do que “o próprio bilionário lendo seu currículo num iPad de última geração e revirando os olhos”.
Na manhã seguinte, acordei uma hora antes do despertador. Não porque estivesse animada; porque o medo pesa, e peso não deixa ninguém dormir direito.
Escolhi a blusa menos puída que eu tinha — um botão faltando na ponta da manga, mas disfarçável se eu dobrasse. Calça jeans escura, tênis limpo o suficiente, cabelo preso num coque improvisado, deixando a franja cair um pouco sobre a testa.
O espelho do banheiro comunitário refletiu minhas olheiras fundas e olhos teimosamente brilhantes. Peguei o corretivo quase no fim, dei leves batidinhas. Eu não tinha maquiagem suficiente pra virar outra pessoa, mas talvez desse pra parecer alguém que ainda não tinha sido completamente moída pela vida.
No ônibus, o trânsito demorou tanto que eu consegui repassar mentalmente todas as respostas possíveis para perguntas imaginárias.
“Por que você quer esse emprego?”
“Porque, se eu não arrumar uma renda estável nos próximos trinta dias, vou perder o direito de estudar e ganhar a chance de um processo de cobrança que pode me acompanhar até a velhice.”Suspirei. Melhor resumir para algo como: “Porque eu gosto de crianças e preciso de estabilidade.”
Quando desci, o bairro parecia outra cidade. Ruas largas, árvores bem cuidadas, fachadas de vidro espelhado, prédios com nomes em letras prateadas elegantes demais para serem verdade.
“Alto das Araucárias” brilhava no letreiro como se fosse um hotel de luxo. Um segurança na portaria olhou para o crachá provisório que o porteiro colou no meu peito com fita adesiva.
— Entrevista — eu disse, erguendo o queixo com um esforço de dignidade.
O segurança checou a lista, assentiu e liberou a catraca. Caminhei até o elevador de serviço, onde uma funcionária de uniforme me orientou:
— Cobertura, Bloco A. É o último andar. Aperta “PH”.
Penthouse. Isso eu tinha aprendido em filmes, não em livros.
Quando as portas se abriram, o mundo mudou de novo. O hall da cobertura parecia a recepção de um museu particular. Piso de mármore claro, quadros abstratos nas paredes, um arranjo de flores brancas impecáveis sobre uma mesa de vidro. Eu tive vontade de checar se o chão realmente existia ou se era uma instalação artística sobre a fragilidade da classe trabalhadora.
Uma mulher com um tablet na mão apareceu, usando um terninho impecável.
— Emília Rocha? — perguntou.
— Sim. — Minha voz saiu um pouco mais aguda do que eu planejava.
— Prazer, sou Ana, assistente do senhor Santoro. Vamos ser práticas, ok? — O sorriso era profissional, sem ser hostil. — A vaga é residente, exige disponibilidade total. Você está ciente?
Disponibilidade total. Em outras palavras, abdicar da minha própria vida para girar em torno da rotina de outra pessoa. Engoli em seco.
— Estou.
— Você estuda?
— Sim. Curso… estudava — corrigi, quase rindo do próprio deslize — Administração, mas perdi a bolsa quando meus pais morreram. Estou tentando negociar a dívida, preciso trabalhar pra continuar.
Ana fez uma anotação discreta no tablet. Eu tentei não imaginar o que ela estava escrevendo.
— Experiência com crianças?
— Fui monitora em projetos de extensão na faculdade, trabalhei como reforço escolar para algumas crianças do bairro… — Respirei fundo. — E cuidei da minha irmã mais nova por três anos antes de ela… — A palavra “morrer” ainda arranhava demais. — Antes do acidente.
Silêncio de alguns segundos. Ana levantou os olhos, um pouco mais suaves.
— Entendo. A idade da criança aqui é cinco anos. Joana. Ela é… intensa.
Intensa. Eu quase sorri. Criança de cinco anos rica era intensa, pobre era levada. O vocabulário do mundo dizia muito.
— Você vai passar por uma entrevista rápida comigo e depois, se eu achar que faz sentido, com o senhor Santoro. Tudo bem?
Não. Não estava nem um pouco “tudo bem”. Mas eu assenti.
Ela fez perguntas sobre rotina, formas de lidar com a birra, horários, limites, referências. Respondi como podia: com honestidade. Eu não tinha como inventar experiências que não tinha, mas sabia falar de empatia, de paciência, de como acalmar uma criança com medo de trovão porque eu mesma já tive muito medo do barulho de portas batendo em casa.
No meio da conversa, um som de passos rápidos ecoou pelo corredor. Corredor de mármore ecoa mais do que piso de cerâmica, pensei, porque meu cérebro sempre se agarrava a detalhes inúteis quando eu estava nervosa.
Uma menininha entrou na sala sem bater. Cabelo castanho em cachos desalinhados, vestido azul marinho com um unicórnio bordado, meia-luzinha grudada em uma mão, a outra segurando um livro com as páginas tortas.
— Tia Ana, ele desligou meu desenho — a menina anunciou, indignada, sem perceber que havia uma estranha ali.
Os olhos de Joana, grandes e escuros, pousaram em mim por um segundo. Curiosidade imediata, sem filtro.
— Quem é você? — perguntou, se aproximando sem cerimônia.
— Eu sou a Emmy — respondi, automaticamente usando o apelido, porque “Emília” sempre me pareceu formal demais para crianças. — E você deve ser a Joana.
— Sou. — Joana assentiu, séria. — Você veio consertar a internet?
Soltei um riso surpreso.
— Não, acho que na internet eu só sei desligar por acidente. Vim… conversar sobre um trabalho.
— Já tem trabalho aqui — ela informou, pragmática. — É cuidar de mim. Mas ninguém faz direito.
Ana pigarreou, um pouco constrangida.
— Joana…
— É verdade — ela insistiu, agora virando-se pra mim de novo. — A última babá chorava escondido no closet. Eu ouvi.
Algo apertou meu peito. Me ajoelhei um pouco, ficando na mesma altura da menina.
— Às vezes adultos choram escondido quando estão cansados, não é culpa da criança — eu disse, com gentileza. — Você não é tão fácil assim, eu aposto, mas também não é um monstro.
Joana me observou com atenção. Havia um tipo de avaliação ali que não estava no script de nenhuma entrevista formal. Depois de um instante, ela deu de ombros.
— Eu não sou monstro. Só tenho muitas ideias. — Virou-se para Ana. — Posso ficar aqui. Quero ver se ela passa na prova.
Ana suspirou, mas não discutiu. A lógica da casa parecia ter hierarquias próprias.
Foi nesse exato momento que outra voz cortou o ambiente. Uma voz masculina, firme, com aquele tipo de calma que quase assusta.
— Ana, por que a TV está desligada e por que minha filha está interrompendo uma reunião?
Eu não precisei virar para saber que ele havia entrado. O ar mudou. Ainda ajoelhada ao lado de Joana, me levantei rápido demais, quase tropeçando no meu próprio tênis.
Matteo Santoro estava encostado no batente da porta, mangas da camisa social dobradas até os antebraços, gravata afrouxada e o celular ainda numa das mãos. Não era o tipo de beleza limpa de propaganda de banco; havia algo um pouco cansado nos olhos, uma sombra que não aparecia nas fotos de revista.
Ele me observou de cima a baixo em um segundo que pareceu muito mais longo.
— Senhor Santoro — disse Ana, formal —, esta é a Emília Rocha. Candidata à vaga de babá residente.
Ele guardou o celular no bolso, deu dois passos pra dentro da sala. Senti a espinha ficar rígida, não por medo exatamente, mas pela consciência súbita da distância entre os dois mundos que ali se encontravam.
— Emília — ele repetiu o nome, como se testasse o som. — Ouvi dizer que prefere Emmy.
Pisquei, surpresa. Olhei para Ana, que não tinha mencionado isso.
— Eu… costumo usar Emmy, sim.
Um canto da boca dele se ergueu, mas não era exatamente um sorriso.
— Ótimo. Gosto de saber como as pessoas preferem ser chamadas.
Os olhos dele navegaram rapidamente pelos documentos sobre a mesa, pelo meu currículo impresso com uma impressora que falhava em alguns pontos, pelo crachá colado no meu peito.
— Você perdeu os pais no primeiro ano de faculdade, é isso? — perguntou, a voz agora neutra, quase clínica.
Engoli em seco. Eu não tinha imaginado que ele iria direto ao ponto mais frágil do papel.
— Sim, senhor.
— E está com uma dívida considerável. — Não era exatamente uma pergunta.
Senti os dedos formigarem. A vergonha veio quente, mas havia algo mais duro por baixo dela. Orgulho, talvez. Teimosia.
— Sim. Estou.
— Mas ainda assim quer estudar.
— Quero — respondi, sem hesitar. — Não sei se vou conseguir pagar tudo a tempo, mas quero terminar. É a única coisa que… — Parei antes de dizer “me faz sentir que eu ainda posso ser alguém”. — É importante pra mim.
Por um segundo, algo nos olhos dele pareceu reconhecer aquela fome. Depois, a expressão voltou a ser de puro controle.
Matteo se virou para a filha.
— Joana, dê licença para eu conversar com a Emmy.
— Já vi o suficiente — Joana declarou. — Gosto dela.
Arregalei os olhos; Matteo também. A menina cruzou os braços, convicta.
— Ela não fala comigo como se eu fosse um desenho animado. E disse que eu não sou monstro.
Um silêncio diferente caiu na sala. Ana disfarçou um sorriso.
Matteo respirou fundo e olhou novamente pra mim. Dessa vez, o olhar durou um pouco mais.
— Muito bem, Joana. — Ele se aproximou da mesa, apoiando uma das mãos no encosto da cadeira. — Sente-se, Emmy. Vamos conversar sobre o que “acima da média” significa, quando estamos falando de salário… e de expectativas.
Sentei. O estômago revirando, o cérebro correndo, e a estranha sensação de que, em algum lugar entre a minha dívida estudantil e aquela cobertura de mármore, a minha vida acabava de mudar de direção.
Na segunda‑feira à noite, eu estava no quarto, tentando organizar leituras da faculdade no notebook, quando alguém bateu na porta.— Entra — falei, sem tirar os olhos da tela.Matteo apareceu.Eu já tinha me acostumado a vê‑lo de dois jeitos: em modo “casa” (mangas dobradas, botão aberto, gravata ausente) e em modo “mundo” (terno impecável, postura ainda mais rígida).Naquele momento, ele estava 100% “mundo”: terno escuro alinhado, camisa impecável, relógio brilhando discretamente, cabelo perfeitamente preso pra trás.— Você vai conquistar um país? — perguntei. — Ou é só reunião com gente rica?— Evento beneficente — respondeu. — Fundo pra projetos de educação.— Então é reunião com gente rica fingindo humildade — corrigi, sem filtro.Ele quase sorriu.— Eu tenho dois ingressos adicionais — disse, indo direto ao ponto. — Pensei em levar a Joana, mas é muita exposição. E… — olhou pra mim — faria sentido que você fosse.Pisquei.— Eu? — apontei pra mim, como se houvesse outra pessoa no
Domingo começou com Joana entrando no meu quarto sem bater.— Acorda, Emmy — ela sussurrou alto demais. — Hoje é dia de aventura.Levantei na hora, mais pelo susto do que por disposição.— Aventura… tipo qual? — perguntei, esfregando os olhos.— Tipo rua — ela respondeu. — Tipo parque. Tipo sol sem ser pela janela.Meu cérebro levou alguns segundos pra processar que, até então, eu só tinha visto o mundo dela entre a escola, os mesmos caminhos, o prédio e a cobertura.— E seu pai sabe disso? — questionei.— Ele falou ontem que, se você quisesse, podia levar a gente pra algum lugar diferente — respondeu, como se fosse óbvio. — Ele vai, claro. Mas precisava de você pra convencer.Eu ri.— Que honra — murmurei. — Fui promovida a “responsável por convencer o bilionário a sair de casa”.Uma hora depois, estávamos os três no carro: Matteo dirigindo (sem motorista, o que já era um evento por si só), Joana na cadeirinha, eu no banco de trás.— Então — ele começou, mãos firmes no volante —, qua
Depois da visita do avô, Joana passou o resto do sábado com um humor oscilando entre azedo e carente.Ela não queria ler, não queria assistir desenho, não queria montar quebra‑cabeça. Queria “não fazer nada”, o que, para uma criança de cinco anos, dura cerca de sete minutos.Eu me sentei no chão do quarto dela, encostando as costas na cama.— Sabe que “não fazer nada” com companhia é mais legal do que sozinha, né? — comentei.Ela pensou, fechando a cara.— Você não vai falar que meu avô é legal, né? — disparou.— Não — respondi. — Não vou. Também não vou dizer que você tem que gostar dele.Os ombros dela relaxaram um pouco.— Todo mundo sempre fala “mas ele é família” — imitou, com uma voz afetada. — E eu tenho que gostar.— Família pode ser muita coisa — falei. — Inclusive gente que a gente só tolera de vez em quando.— Você gosta de todo mundo da sua família? — ela insistiu.Pensei na minha avó que me chamava de “ingrata” porque eu queria estudar; em um tio que só aparecia pra pedir
Sábado chegou com uma falsa cama. Nada de escola, nada de aula de música, nada de natação. Em teoria, seria um dia mais leve. Mas só em teoria.— Hoje seu avô vem — Matteo avisou no café da manhã.Quase cuspi o pão com o susto que levei com a reação de Joana.— Meu… quê? — gritou Joana, fazendo uma careta imediata. — O chatão?— Joana — ele repreendeu, mas sem tanta convicção. — Ele é seu avô.— Ele é chato — ela insistiu. — E não gosta de mim.Meu alerta interno acendeu. Crianças exageram, é claro. Mas nem sempre sem motivo.— Ele vem pra almoçar e conversar sobre algumas coisas da família — continuou Matteo, agora olhando pra mim. — Preferia que você estivesse com a Joana o tempo todo.Traduzindo: “preferia que você servisse de amortecedor entre minha filha e o velho escroto”.— Claro — respondi. — Já tenho experiência com tios inconvenientes em festa de fim de ano.Joana encostou a cabeça no meu ombro.— Se ele falar que eu tenho que me comportar, você me defende? — sussurrou.— Se
Depois do “não” à proposta de pagar minha dívida, eu achei que o clima ia ficar estranho.Não ficou. Pelo menos, não do jeito que eu esperava.Matteo não mudou o tom comigo, não ficou frio de repente, não começou a me evitar pelos corredores. Pelo contrário: parecia observar tudo com ainda mais atenção. O que, vindo dele, era dizer bastante.Nos dias seguintes, minha rotina com Joana se encaixou de um jeito quase natural. Eu começava a perceber manias, pequenos rituais.Ela gostava de alinhar os lápis de cor antes de desenhar. Tinha um copo preferido para o leite (o de estrelinhas azuis, os outros eram “incompetentes”). Fazia perguntas filosóficas aleatórias às 7h, como:— Emmy, você acha que a gente volta pra algum lugar quando morre?Ou:— Se eu esquecer de uma coisa muito importante, quer dizer que ela nunca foi importante?Entre uma pergunta e outra, eu me via tendo que ser cuidadora, amiga, filósofa barata e, às vezes, só alguém que admitia não saber.— Não sei o que acontece dep
Três dias depois da crise do tambor, a vida na cobertura 2801 já tinha um esboço de rotina.Eu acordava antes de Joana, tomava café rápido, ajudava a arrumar a mochila dela, levava pra escola, voltava, tentava encaixar leituras da faculdade, buscava, lanche, brincadeira, alguma atividade, banho, jantar, história, cama.Entre esses blocos, Matteo aparecia como um satélite de alta gravidade: às vezes perto demais, às vezes distante, mas sempre influenciando tudo.Foi numa dessas manhãs, depois de deixar Joana na escola, que Ana apareceu no meu quarto com um tablet na mão.— Emmy, tem um assunto… paralelo — ela começou, se encostando na escrivaninha. — Não é exatamente sobre a Joana. É sobre você.Isso nunca soa leve.— Sobre mim? — repeti, alerta. — Fiz alguma coisa errada?— Pelo contrário — ela sorriu. — O Matteo pediu pra eu te apresentar uma… oportunidade.Eu deveria ter corrido nesse momento. Não corri.— Oportunidade como?— Ele viu seu histórico acadêmico, suas notas antes de tud





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