Capítulo 2

Joana não largava a minha mão.

Ela me puxou para o meio da sala como se estivesse apresentando um novo brinquedo muito especial. O sofá enorme parecia uma ilha no mar de tapete felpudo, e Pudim, o cachorro, já ocupava o centro, deitado de barriga pra cima em protesto silencioso por atenção.

— Senta aqui — Joana ordenou, apontando para o chão, bem ao lado dela. — Não no sofá. O sofá é território de adultos chatos.

Ri, aliviada por, por alguns minutos, não precisar lidar com o olhar clínico de Matteo nem com as anotações de Ana.

— Tudo bem. Gosto do chão. — E era verdade. Depois de anos em república, eu já tinha estudado, comido e quase dormido no chão mais vezes do que admitiria.

Sentei de pernas cruzadas, e Joana se posicionou de costas para mim, jogando os cachos sobre o ombro com a naturalidade de quem já está acostumada a ser arrumada.

— Faz uma trança embutida. — A voz dela vinha cheia de expectativa. — A Flora só sabia fazer rabo de cavalo. E ainda puxava meu cabelo.

Meus dedos tocaram, com delicadeza, a raiz dos fios. Eram macios, cheirosos a shampoo caro, bem diferentes do meu cabelo, geralmente preso por um elástico velho e esquecido em algum bolso.

Me concentrei no gesto conhecido de separar mechas, passar por baixo, incorporar mais um pouco. As mãos se moviam sozinhas; o cérebro, livre, passeava por pensamentos que eu não queria muito encarar.

Uma parte de mim ainda estava na sala de entrevistas, ouvindo a palavra “dívida” ecoar na voz calma demais de Matteo. Outra parte ainda estava no ônibus lotado, apertando a mochila contra o peito. E uma outra, bem pequenininha, se dava ao luxo de imaginar como seria ter um quarto ali, naquela cobertura, uma cama de verdade, um armário só meu.

— Tá pensando em quê? — Joana perguntou, de repente, inclinando um pouco a cabeça, sem atrapalhar o trabalho.

— Hm… — Sorri. Crianças têm uma pontaria estranhamente perfeita. — Tô pensando que seu cabelo é muito bonito. Dá vontade de fazer mil tranças diferentes.

— As babás sempre mentem pra mim — ela respondeu, com uma naturalidade que doeu. — Elas falam que gostam de tudo, mas eu sei quando alguém não tá gostando de mim.

A frase me fez apertar um pouco mais a trança, sem querer.

— Ai! — Joana reclamou, mas sem raiva. — Viu? Adulto pensando demais sempre machuca sem querer.

Respirei fundo, afrouxando os dedos.

— Desculpa. Não quis puxar. — Parei por um segundo. — Olha, não vou mentir, tá? Criança cansa às vezes. Adulto cansa às vezes. Mas eu não acho que você seja difícil de gostar.

Joana ficou em silêncio, e eu senti que tinha acertado algum lugar que as outras pessoas não costumavam tocar.

— O papai cansa — ela disse, baixinho. — Mas eu gosto dele mesmo assim.

Meus dedos pararam no meio do caminho. Engoli a vontade imediata de dizer “adultos também cansam porque têm medo”, porque não era minha função psicologizar a criança nos primeiros dez minutos.

— Eu acho que o seu pai tá bem cansado — respondi, com cuidado. — Mas não é você que deixa ele assim.

Ela deu de ombros.

— Ele sempre tá no telefone. Ou no computador. Ou gritando com alguém que eu não vejo. Aí vem aqui e acha que eu não sei ler cara de adulto brabo.

Ajeitei a última mecha da trança e prendi com um elástico colorido que Joana tirou de um bolso secreto do vestido.

— Pronto. — Girei a menina gentilmente. — Quer ver no espelho?

Joana levantou num pulo, correu até uma porta lateral – que eu deduzi ser o banheiro – e voltou num segundo, os olhos brilhando.

— Fiquei muito princesa! — declarou. — Você passou na primeira parte da prova.

— Tem mais partes? — Levantei uma sobrancelha, divertida.

— Claro — ela respondeu, como se fosse óbvio. — Agora você tem que ler a história. Sem pular página. — Ergueu o livro que carregava desde que entrou: capa gasta, cantos dobrados, claramente muito amado. — Esse é o do meu dragão.

Peguei o livro, sentando-me novamente no tapete. A capa mostrava um dragão verde com cara de assustado, não de assustador.

— “O Dragão que Tinha Medo de Altura.” — Li em voz alta. — Bom título.

— O dragão é bobo — Joana informou, deitando de bruços com o queixo apoiado nas mãos. — Ele pode voar, mas não quer. Fica com medo.

Abri na primeira página, e o cheiro de papel antigo me levou de volta à biblioteca da escola pública onde eu passava as tardes depois das aulas, antes de o internato virar única opção.

— Às vezes a gente tem asas e tem medo de usar — comentei, mais pra mim do que pra ela.

— Você tem asas? — Joana perguntou imediatamente.

Sorri.

— Ainda tô descobrindo. Vamos ver se eu consigo, pelo menos, ler sem cortar o caminho do dragão.

Comecei a leitura, fazendo vozes diferentes para cada personagem. O dragão falava fino, o amigo dele, grosso, a senhora da vila tinha sotaque, e cada criatura que aparecia ganhava um jeito de falar. Joana ria, interrompia, comentava, apontava detalhes nas ilustrações. Pudim deitou com a cabeça sobre a minha perna, como se já me considerasse parte do cenário seguro.

Em algum momento entre a segunda e a terceira página, percebi que não estava mais pensando em liquidação de dívida, prazos de banco ou matrículas atrasadas. Eu estava… ali. Com uma criança, um cachorro e um dragão medroso.

Foi só na metade da história que senti um olhar queimando a minha nuca.

Ergui os olhos devagar. Matteo estava parado na porta da sala, encostado discretamente no batente, braços cruzados. A expressão não era fácil de decifrar.

“Pronto”, pensei. “Agora começa a parte em que ele avalia se eu sou investimento de alto risco.”

Mas, por um instante, Matteo não parecia o bilionário onipresente das manchetes. Parecia… um homem observando a filha rir com alguém.

— Você tá pulando página? — Joana perguntou, desconfiada, puxando o livro de volta um pouco.

— Não estou — respondi, rindo. — Você pode conferir.

Joana, meticulosa, passou o dedo nas linhas, como se lesse cada palavra. Percebi que ela ainda não lia de verdade, mas reconhecia a ordem das páginas, as figuras, o ritmo da história.

— Tá certo. — Ela devolveu o livro. — Continua. O papai sempre morre de medo dessa parte.

— Eu não… — Matteo começou, mas parou quando percebeu que tinha se denunciado.

Mordi o riso. Abri a página seguinte.

— “E então, o dragão olhou para baixo, viu o mundo pequenininho aos seus pés, e sentiu o coração bater tão rápido que achou que ia cair, mesmo com as asas bem abertas…” — Fiz a voz tremer de propósito, e Joana se agarrou a um travesseiro, encantada.

Matteo deu mais alguns passos para dentro da sala, parando atrás do sofá. Eu sentia a presença dele ali, como se a temperatura do ambiente tivesse subido alguns graus.

Terminei o livro com um pequeno drama, fazendo suspense no momento em que o dragão finalmente decide voar. Joana aplaudiu, genuinamente emocionada.

— Viu, papai? Ele voa! Todo mundo voa, se tiver alguém legal pra segurar a mão. — A frase saiu com aquela naturalidade devastadora das crianças que falam verdades sem saber.

Engoli em seco.

Matteo não respondeu. O olhar dele, agora, estava fixo em mim, não na filha.

— Joana — disse, com uma suavidade que eu ainda não tinha visto nele —, a Ana precisa falar com você sobre a aula de natação. Vai lá alguns minutinhos.

— Mais natação? — Joana fez uma careta. — Eu já sei boiar.

— Saber boiar não é o mesmo que saber nadar — ele retrucou, paciente. — Vai ser rápido.

Ela levantou, pegou Pudim pela coleira e, antes de sair, se inclinou perto de mim.

— Eu quero que você fique, tá? — sussurrou, como se contasse um segredo importante. — Mesmo se meu pai fizer cara de que não quer.

Senti um misto de vontade de rir e chorar.

— Vou fazer o melhor que eu puder — respondi, com sinceridade.

Quando Joana saiu, a sala pareceu ficar grande demais de repente. O silêncio entre nós dois se instalou como um terceiro personagem.

Levantei devagar, ajeitando a blusa, tentando não parecer tão deslocada quanto eu me sentia.

— Você improvisou nas falas do livro — Matteo disse, por fim. — Não é exatamente o que está escrito.

Pisiquei, surpresa. Então ele estava prestando atenção.

— Algumas partes, sim — admiti. — Mas mantive a história. Só… ajustei o jeito de contar.

— Por quê?

Dei de ombros.

— Crianças não lembram texto exato. Lembram da sensação. — Encarei o olhar dele, firme. — E, às vezes, quem tá ouvindo precisa de outra ênfase. O dragão com medo de altura é engraçado, mas também é triste. Só tem graça ver ele voar, no final, se a gente sentir que ele teve muito medo antes.

Os olhos de Matteo escureceram um pouco mais, como se alguma coisa ali tivesse ressoado num lugar que ele não abria com facilidade.

— Você acha que Joana precisa sentir medo?

— Acho que ela já sente — respondi, sem rodeios. — Só não tem nome pra isso ainda.

Outro silêncio. Não hostil, mas pesado.

— A maioria das pessoas tenta proteger a criança limpando o caminho demais — Matteo comentou, apoiando as mãos nos bolsos da calça. — Você parece… confortável em falar de medo.

Pensei nos corredores frios do internato depois que recebi a notícia do acidente, no primeiro boleto do financiamento estudantil, nas noites em claro fazendo contas que nunca fechavam.

— Eu passo boa parte do tempo com medo — disse, sem floreios. — Então aprendi a não tratar o medo como um monstro que precisa ficar trancado no armário.

Um canto da boca dele ameaçou se curvar num quase sorriso, mas desistiu no meio do caminho.

— Medo… e dívidas — ele concluiu.

Respirei fundo. Ali estava ele de novo: o homem dos números, o olhar que transformava pessoas em planilhas de risco.

— As dívidas são objetivas — respondi. — O medo é mais criativo.

Por um segundo, Matteo pareceu realmente surpreso. Depois, voltou ao modo prático.

— Joana gostou de você — disse, como quem apresenta um fato. — E eu não a vi tão envolvida com… ninguém de fora da casa há um bom tempo.

Senti o coração acelerar, tentando não erguer as expectativas cedo demais.

— Significa que eu tenho alguma chance na vaga? — arrisquei.

Ele me estudou por mais alguns instantes, em silêncio.

— Significa que você passou para a próxima fase — respondeu, enfim. — Vamos conversar sobre jornada, horário, limites… e o que exatamente “morar aqui” implica.

Assenti, sentindo o peso da frase. Morar aqui.

Aqui, onde o chão era de mármore, os tetos altos ecoavam risadas infantis e discussões de negócios, e o dono da casa sabia exatamente quanto eu devia ao banco antes mesmo de saber qual era minha comida preferida.

— Só uma coisa antes — Matteo acrescentou, voltando à mesa e pegando meu currículo. — Você mencionou que não tem família. Se aceitar essa vaga, seu mundo vai ficar muito… concentrado neste apartamento. — Ele ergueu os olhos. — Você tem certeza de que está pronta pra isso?

Pensei nas ligações do banco, no ultimato da faculdade, na república que podia não ser mais minha no fim do mês. Pensei, também, na mão pequena de Joana segurando a minha como se já tivesse decidido.

Pronta, não. Mas, às vezes, não é a prontidão que decide. É o desespero misturado com um certo tipo de coragem.

— Tenho certeza de que estou mais pronta pra isso do que pra ser despejada — respondi, com uma honestidade breve e afiada. — E… eu gostei da sua filha.

A confissão saiu mais baixa do que eu planejava.

Matteo prendeu o olhar em mim por um momento longo demais para ser casual.

— Muito bem, Emmy — disse, por fim. — Então vamos ver se você consegue viver num mundo onde o dragão tem medo de altura… e, mesmo assim, a gente obriga ele a voar.

Eu não sabia, ainda, se ele falava sobre Joana, sobre mim ou sobre si mesmo.

Mas tinha a nítida sensação de que, a partir daquele instante, ninguém naquela cobertura sairia ileso da queda – ou do voo.

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