Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe alguém me dissesse, uma semana antes, que eu estaria escolhendo roupa “adequada para jantar com meu chefe bilionário e a filha dele”, eu provavelmente pediria pra pessoa beber água e deitar um pouco.
Mas ali estava eu, parada no meio do meu novo quarto, encarando a mala mental de opções que eu não tinha. Minhas roupas se dividiam, basicamente, em três categorias:
“Vou pra faculdade e espero que ninguém repare no furo”
“Trabalho em qualquer coisa e sujo sem dó”
“Talvez dê pra ir numa entrevista se tiver iluminação fraca”.
Nenhuma delas gritava “sim, claro, pertenço a essa cobertura de mármore”.
Peguei uma calça jeans escura menos surrada, uma blusa preta simples, de tecido que pelo menos não amassava tão fácil, e deixei o cabelo solto, tentando domar com os dedos o frizz de quem tinha encarado ônibus, elevador e novas responsabilidades no mesmo dia.
Olhei meu reflexo no espelho.
— Você vai jantar — falei pra mim mesma — não ser sacrificada em ritual corporativo. Respira.
Respirei. Não ajudou muito, mas ao menos ocupou alguns segundos.
Quando saí do quarto, o corredor estava silencioso. Segui o som de vozes baixas até chegar à sala de jantar.
A mesa era grande demais para três pessoas. Tinha velas baixas, arranjo discreto, pratos alinhados como se estivessem em desfile. Lúcia movimentava travessas com a segurança de quem já podia arrumar aquilo com os olhos fechados.
Joana estava em uma cadeira mais alta, mexendo num guardanapo dobrado como se fosse uma peça de origami que ela se recusasse a respeitar. Matteo ocupava a cabeceira, mangas da camisa ainda dobradas, agora com um relógio diferente no pulso. Aparentemente, até os relógios obedeciam a horários específicos naquela casa.
Quando ele me viu, apenas levantou o olhar. Não houve aquele scan de cima a baixo constrangedor, o que, ironicamente, me deixou mais nervosa.
— Emmy — ele chamou. — Senta aqui.
A cadeira que ele indicou ficava do lado oposto a Joana, à esquerda dele. Lugar estratégico demais pra ser aleatório: de onde eu estava, via os dois.
— Oi — cumprimentei, sentando devagar. — Mesa chique.
Joana riu.
— O jeito que você fala parece desenho — disse. — Mesa chique, quarto chique, banho oficial…
— Se eu não der nome pras coisas, fico confusa — respondi. — E confusa eu já tô de graça.
Matteo pousou o guardanapo no colo, observando a troca.
— A comida aqui não morde — comentou, neutro. — Não precisa ficar tensa.
“Você, talvez?” mordeu a ponta da minha língua. Não soltei.
Lúcia começou a servir: arroz soltinho, legumes coloridos, um peixe grelhado que cheirava tão bem que meu estômago denunciou a fome com um ronco discreto. Ótimo. Justo agora.
— Eu ouvi isso — Joana avisou, apontando pra minha barriga. — Você também tá com fome, não mente.
— A barriga é sincera — concordei. — Ela ainda não aprendeu a fazer média com chefe.
Um canto da boca de Matteo ameaçou se erguer.
— Há quanto tempo você não faz uma refeição decente? — ele perguntou, simples assim, como se estivesse perguntando a hora.
Pisquei.
— Depende do que o senhor chama de “refeição decente”.
— Comida que não vem congelada ou em embalagem de isopor — ele esclareceu.
Pensei nas quentinhas divididas, no macarrão com qualquer coisa, na padaria salvadora da madrugada.
— Alguns dias — respondi, dando de ombros. — Mas eu tava indo bem no campeonato da marmita criativa.
— Ela tem cara de quem ia ganhar — Joana opinou, já com a boca suja de molho. — Eu comeria a marmita da Emmy.
— Ótimo — Matteo concluiu. — Menos uma coisa com a qual eu precise me preocupar.
Engoli um pedaço de peixe e quase a resposta atravessada junto. Tinha algo irritantemente eficiente na forma como ele falava: sempre parecia que estava concluindo uma reunião, não vivendo a própria vida.
Por alguns minutos, comemos em silêncio. Ou melhor, eu tentava comer silenciosamente, Joana dava pequenos comentários sobre os legumes (batata: ok; brócolis: “árvore com gosto bom”; cenoura: “poderia ser melhor se tivesse formato de estrela”) e Matteo observava mais do que participava.
Até que ele resolveu, aparentemente, me incluir na pauta.
— Como você se vê daqui a cinco anos, Emmy? — perguntou, sem tirar os olhos do prato.
Quase engasguei.
— Isso é pergunta de entrevista de estágio, não de jantar — brinquei, tentando ganhar tempo.
— E ainda assim é válida — ele insistiu. — Cinco anos. Onde?
Eu poderia ter dado a resposta padrão: formada, estável, com um bom emprego. Em vez disso, a única imagem que me veio foi menos clara e mais sensorial: um lugar que fosse meu, um quadro na parede escolhido por mim, contas pagas em dia, silêncio sem ser solidão.
— Formada — comecei, olhando pro garfo. — Sem dívida com o banco. Com um emprego que não seja só sobreviver, mas… — procurei a palavra — escolher. E… — respirei fundo — com menos medo de abrir o aplicativo do banco.
Matteo ergueu levemente uma sobrancelha.
— Você mede o futuro pelo aplicativo do banco?
— Eu meço o futuro por não sentir vontade de vomitar toda vez que abro ele — corrigi. — O banco é só sintoma.
Joana, interessada, nos observava como se estivesse vendo um jogo de tênis.
— E você, pai? — ela entrou na conversa. — Como você se vê daqui a cinco anos?
Gostei da menina.
Ele hesitou um segundo. O suficiente para eu perceber que essa não era uma pergunta que ele recebia com frequência, pelo menos não em casa.
— Com a empresa maior, talvez diversificada em outras áreas — respondeu, no modo piloto automático de CEO. — Você mais velha, mais… — buscou uma palavra — consciente das coisas. E… — olhou pra ela — com a sensação de que eu fiz o possível pra manter você segura.
— E feliz? — Joana insistiu, metendo o garfo no brócolis. — Você não falou nada de feliz.
Os olhos dele tremeram um pouco. Pequeno, quase invisível, mas eu percebi.
— “Seguro” vem antes de “feliz” — ele respondeu. — Não adianta estar feliz se não está segura.
Eu poderia ter ficado calada. Poderia. Só que minha boca tem vida própria.
— E não adianta estar segura se é infeliz o tempo todo — completei, antes de poder me censurar.
Matteo desviou o olhar para mim. Não era hostil, mas ganhei a nítida sensação de que tinha acabado de ser promovida de “babá que lê história” para “fator de risco conceitual”.
— Você acredita mesmo nisso? — ele perguntou, tranquilo demais.
— Acredito — falei, sem recuar. — Segurança é base, não teto. Se virar teto, vira prisão.
Silêncio. Lúcia, coitada, fingia que não ouvia nada enquanto arrumava talheres.
Joana mastigava, de olhos arregalados, como se estivesse assistindo a uma novela boa.
— E como você equilibra isso? — Matteo voltou à carga. — Sendo alguém que, nas suas próprias palavras, precisa desesperadamente de segurança agora.
Essa doeu porque era justa.
— Tentando não vender todos os meus pedaços em troca dela — respondi, mais baixo. — Nem deixar que alguém ache que pode comprar tudo, só porque tem como oferecer.
Foi um risco. Vi quando ele entendeu a camada extra. Era o tipo de homem que não deixava passar nuance.
Os olhos dele ficaram um pouco mais escuros. Depois, ele simplesmente largou o garfo no prato com calma.
— Fique tranquila, Emmy — disse. — Eu contratei você como babá da minha filha, não como qualquer outra coisa. O que eu compro, eu deixo bem claro.
Era pra ser tranquilizador. Em parte, foi. Por outra parte, eu senti um arrepio que não tinha nada a ver com medo físico. Tinha a ver com a clareza com que ele assumia esse papel de comprador de vidas.
— Ainda bem — murmurei. — Porque eu sou péssima em ler letras miúdas, mas ainda sei a diferença entre contrato de trabalho e contrato de… outra coisa.
Joana, obviamente, decidiu participar:
— O que é “outra coisa”?
— Quando você crescer, eu explico — respondi, quase engasgando no riso.
Matteo pigarreou, e pela primeira vez naquele jantar, pareceu ligeiramente desconfortável.
— Termina o jantar, Joana — disse. — Depois a Emmy te leva pra escovar os dentes.
Ela aceitou a mudança de assunto com facilidade infantil, voltando a reclamar dos legumes prontos demais. O clima, no entanto, tinha mudado de frequência.
Eu terminei de comer em silêncio, sentindo cada garfada atravessar junto com a consciência de que tinha fincado uma bandeirinha minúscula de território: eu estava ali, precisava daquele trabalho, daquele dinheiro, daquela casa… mas não era propriedade daquela casa.
Pelo menos, ainda não.
Depois do jantar, levei Joana pro quarto, ajudei na maratona “pijama-escova de dente-história-da-noite”.
— Ele sempre fica assim sério no jantar? — perguntei, enquanto ela cuspia a espuma na pia.
— Meu pai só tem duas caras — ela respondeu, erguendo três dedos. — Essa de trabalho, e a dele comigo. Às vezes mistura. Hoje tava meio misturado.
— E você percebe?
— Eu percebo tudo — afirmou, convicta, enxaguando a boca. — Você também percebe.
Não era uma pergunta. E, sinceramente, era assustador o quanto ela estava certa.
Quando Joana finalmente dormiu, com Clementina apertada contra o peito, eu fiquei mais alguns segundos sentada na beira da cama, ouvindo a respiração calma dela.
Ali, naquele escuro caro, com cortinas que bloqueavam até barulho de consciência, eu tive pela primeira vez a noção real de que minha presença podia fazer diferença. E isso, pra alguém que passou os últimos anos sentindo que só dava trabalho, era perigoso de um jeito doce.
Saí do quarto na ponta dos pés, puxando a porta devagar.
Matteo estava no corredor.
Não sei quem se assustou mais. Eu, pelo fato de ele estar ali, ou ele, por me ver saindo do quarto da filha em modo furtivo.
— Ela dormiu. — Apontei com o queixo, desnecessariamente. — Levei menos tempo do que o dragão hoje.
Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Normalmente ela demora pelo menos meia hora a mais pra dormir — comentou. — Com a Flora, eu ouvia discussão até tarde.
— Criança sente quando a gente quer empurrar ela pra cama só pra se livrar — respondi. — Hoje ela precisava conversar. Sobre castelos, túneis, gente que morre… coisas leves.
Ele recostou o ombro na parede, me encarando com um cansaço menos escondido.
— Ela te falou da mãe?
— Falou — confirmei. — E perguntou dos meus pais também.
Algo nos olhos dele se apertou.
— E o que você disse?
— A verdade — respondi, simples. — Que eu lembro, dói. Ela não lembra, dói diferente. E que a gente inventa novas pessoas pelo caminho. Não substitui, mas… amortiza.
Ele respirou fundo, como se aquele “amortiza” tivesse batido direto na parte dele que entendia números demais e sentimentos de menos.
— Você fala com naturalidade sobre… essas coisas — comentou. — Perdas. Medos.
— Porque já são mobília da minha cabeça — dei de ombros. — Quando você convive muito com alguma coisa, ou você normaliza ou enlouquece.
Um silêncio estranho caiu entre nós. Não hostil dessa vez. Quase… cúmplice, o que era ridículo de admitir.
— Emmy — ele falou, enfim, endireitando a postura. — Eu raramente erro com contratações.
— Modesto — cutuquei, sem conseguir evitar.
— Realista — corrigiu. — Mas, ainda assim, contratar alguém pra morar na minha casa, com acesso diário à minha filha, à minha rotina… é um risco elevado, do ponto de vista objetivo.
Assenti. Não era novidade.
— E, mesmo assim, você fez isso em menos de vinte e quatro horas — lembrei. — Ou seja, ou eu sou um gênio de currículo, ou você está mais desesperado do que gosta de admitir.
Dessa vez, o sorriso veio. Pequeno, rápido, mas veio.
— Talvez as duas coisas — disse. — Só estou deixando claro pra você que… — procurou as palavras — se eu parecer exagerado em relação à segurança, aos limites, às regras… não é sobre você, especificamente. É sobre não estar disposto a perder mais nada do que já perdi.
Eu não sabia quase nada do passado dele além das manchetes, mas aquela frase tinha o peso de quem contava corpos invisíveis.
— Eu entendo — respondi, mais suave. — Não prometo não te irritar. Mas prometo não ser mais um problema desnecessário.
Ele me olhou por mais um instante. Havia algo ali que começava a se parecer perigosamente com confiança. Ainda bebê, ainda frágil, mas presente.
— Boa noite, Emmy — disse, por fim.
— Boa noite.
Voltei pro meu quarto com a mente barulhenta. Sentei na cama, encostei as costas na parede, abracei os joelhos por alguns segundos, só pra sentir que eu ainda cabia em mim mesma.
Naquela cobertura, tudo era grande demais: o espaço, o dinheiro, a responsabilidade, as expectativas. Mas, ao mesmo tempo, havia detalhes pequeninos demais pra caberem em qualquer contrato: a forma como Joana segurava minha mão, as olheiras de Matteo depois do expediente, o jeito como meu nome soava diferente quando ele falava “Emmy”.
Deitei, encarei o teto.
Eu tinha entrado ali por necessidade.
Mas começava a suspeitar que ia ficar por motivos muito mais complicados.






