Capítulo 3

Existem momentos em que a vida parece um daqueles contratos de aplicativo: você clica em “aceito” sem ter lido tudo, porque sabe que, se não clicar, não vai a lugar nenhum.

Sentada diante de Matteo, naquela sala ampla demais, eu me sentia exatamente assim: pronta para apertar o “aceito” sem ter a menor ideia de todas as letrinhas miúdas.

Ele se acomodou na poltrona à minha frente, cruzando uma perna sobre a outra. Eu continuei na ponta da cadeira, mãos entrelaçadas no colo, tentando não demonstrar o quanto estava consciente da quantidade de zeros que deviam existir na conta bancária daquele homem.

— Vamos começar pelo básico — ele disse. — Horários.

Básico. Claro. Pra ele, talvez.

— Joana entra na escola às oito da manhã. — Ele falava como quem apresentava um relatório. — Sai às meio-dia, almoça aqui, tem atividades à tarde três vezes por semana, e duas tardes livres. Fins de semana alternados comigo integralmente, outros com compromissos da família… ou trabalho.

Assenti, seguindo mentalmente uma agenda que eu ainda nem tinha certeza se seria minha.

— Então… eu ficaria com ela em que intervalos, exatamente? — perguntei, tentando ser objetiva.

— Manhãs, antes da escola. Tardes em que ela estiver em casa. Rotina da noite, inclusive colocá-la para dormir. Viagens quando necessário. — Ele fez uma pausa. — E, em qualquer situação de emergência, é claro.

“Qualquer situação de emergência” soou amplo demais para o meu gosto, mas guardei essa parte num cantinho da mente para surtar depois.

— Eu poderia continuar estudando? — arrisquei. — Quero dizer… eu ainda tô matriculada. Preciso de horários pra ir à faculdade, pelo menos pra algumas aulas.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se eu tivesse dito algo interessante, não óbvio.

— Seu curso é noturno.

Não era uma pergunta. Ele já sabia. É claro que sabia.

— É — confirmei. — Mas nem toda aula é obrigatória presencial. Eu posso negociar com os professores, pegar material… Se eu tiver duas noites fixas por semana em que eu possa sair mais cedo, consigo me organizar.

Silêncio. Eu quase ouvi o barulho de uma planilha mental sendo atualizada dentro da cabeça dele.

— Duas noites fixas — repetiu. — E, em contrapartida, disponibilidade integral nos outros dias, inclusive para viagens.

Senti meu estômago apertar. Viagens. Eu sabia que estava no anúncio, mas outra coisa era ouvir da boca dele, com aquela naturalidade.

— Claro que… viagens dentro de alguma razoabilidade, né? — tentei brincar, meio sem graça. — Não posso faltar a todas as provas.

— Não tenho interesse em contratar alguém para destruir a própria vida acadêmica — ele respondeu, seco, mas não exatamente agressivo. — A educação é um ativo.

“Um ativo.” Claro. Pra ele, tudo voltava a essa linguagem.

— E… folga? — perguntei. — Eu teria algum dia livre? Ou meio-dia?

Ele apoiou o cotovelo no braço da poltrona, entrelaçando os dedos.

— Um dia inteiro de folga por semana, rotativo, conforme a minha agenda e a da Joana. E um fim de semana por mês garantido. Fora isso, a expectativa é que você esteja aqui. Disponível.

Um dia rotativo. Um fim de semana. Eu já tive menos, trabalhando em dois lugares ao mesmo tempo e ganhando quase nada. Não era o ideal, mas também não era o pior cenário plausível.

— E… o salário? — Minha voz saiu ligeiramente mais baixa.

Ele citou um valor.

Por alguns segundos, achei que tinha entendido errado. Fiz a conta, automaticamente, comparando com o que eu ganhava dando aula de reforço e ajudando num café.

Era… muito mais.

Não o suficiente pra eu sair comprando apartamento por aí, mas o bastante pra pagar as parcelas atrasadas, respirar, talvez até guardar um pouco. Eu senti o corpo inteiro protestar, não de rejeição, mas de surpresa.

— Isso é… — Tentei achar uma palavra que não fosse “obsceno de bom”. — Acima da média, mesmo.

— Babás residentes com esse nível de responsabilidade não são baratas — ele disse. — E eu pago para não ter que me preocupar com coisas que não preciso pensar.

Tradução: se você aceitar, eu compro a sua tranquilidade e, de quebra, um pedaço da minha.

— Só pra confirmar… — falei, devagar. — Está incluso moradia, alimentação, e…?

— Um quarto só seu, dentro do apartamento. — Ele fez um gesto com a mão, indicando o corredor. — Banheiro privativo. Você pode trazer seus livros, poucas coisas pessoais. Não é um depósito, Emmy. — O olhar dele se fixou no meu rosto. — É uma função central na rotina da minha filha.

A palavra “central” ecoou de forma estranha. Eu nunca tinha sido central em nada. No máximo, coadjuvante da própria sobrevivência.

— E as regras de convivência — ele continuou, numa fluidez que deixava claro que não era a primeira vez que fazia esse discurso. — Nada de visitas sem autorização. Nada de relacionamentos com funcionários da casa ou da empresa. Nada de fotos do interior do apartamento em redes sociais, especialmente envolvendo a Joana. E, óbvio, sigilo absoluto sobre qualquer assunto pessoal ou profissional que você eventualmente escute.

Assenti. Algumas dessas condições eu já esperava.

— Eu não sou exatamente uma influenciadora — comentei, meio irônica. — Meu maior público é o grupo da república e duas tias distantes.

Um brilho quase divertido passou pelos olhos dele.

— As coisas mudam rápido, hoje em dia. Prefiro deixar claro desde o início.

— E… relacionamentos fora daqui? — perguntei, sentindo o rosto esquentar só de tocar no assunto. — Tipo… se eu conhecer alguém… não da sua equipe, claro.

— O que você faz fora daqui, no seu tempo de folga, é problema seu — ele respondeu, objetivo. — Contanto que não interfira na Joana, nem traga riscos pra segurança dela.

Segurança. Outra palavra que parecia ter peso extra naquela casa.

— Ok — murmurei. — E… quando começaria, se… se eu aceitar?

Ele não hesitou.

— Hoje.

Arregalei os olhos.

— Hoje?!

— A antiga babá saiu ontem — ele explicou, como se estivesse falando da troca de um software. — Houve um… desentendimento.

Lembrei da frase de Joana, sobre a babá chorando escondido no closet. “Desentendimento” parecia uma palavra muito educada.

— E a Joana já deixou claro que gosta de você — ele completou. — Se eu esperar, vou ter uma semana de birra e rejeição a qualquer outra candidata.

Uma parte de mim quis dizer que crianças se apegam rápido e desapegam também. Outra parte, mais honesta, sabia que não era tão simples assim, não com aquela menina em específico.

— Mas minhas coisas… — protestei, fraca. — Eu só trouxe documentos. Minha mochila, umas anotações da faculdade… Minha vida inteira tá numa mala de rodinha velha lá na república.

Ele deu de ombros, como se entregas expressas de vidas fossem rotina.

— Você pode mandar uma mensagem para alguém te ajudar com isso. Eu envio um motorista hoje à noite para buscar o que for preciso. — Fez uma pausa. — Ou você pode ir lá amanhã, no seu dia de folga, se preferir.

Dia de folga. Eu ainda nem tinha começado e ele já falava como se eu estivesse contratada.

— Então… isso quer dizer que eu passei? — perguntei, com um fio de voz que denunciava mais esperança do que eu queria.

Ele me encarou por mais um longo segundo.

— Ainda podemos assinar o contrato e você descobrir que me odeia em uma semana — respondeu. — Mas, por enquanto, sim. Se você aceitar os termos, o emprego é seu.

Minha primeira reação foi um alívio tão intenso que achei que fosse chorar ali mesmo, na frente dele, naquela sala cheirando a flor cara e dinheiro antigo. Engoli a vontade.

Uma frase atravessou minha mente com a nitidez de um letreiro de LED: “Se eu não arrumar uma renda estável nos próximos trinta dias, vou perder o direito de estudar.” Aquilo não era mais uma ameaça abstrata. Era uma linha de corte.

— Eu aceito — ouvi minha própria voz dizer, antes que qualquer insegurança gritasse mais alto. — Aceito os termos. Aceito o emprego.

Ele assentiu, como se eu tivesse tomado a única decisão lógica possível.

— Ana vai providenciar o contrato e te mostrar o quarto. — Matteo se levantou. Eu, por reflexo, me levantei também. — Hoje, você acompanha a rotina da tarde da Joana. Amanhã, já começamos oficialmente.

— E… como eu devo… — Parei, sem saber se chamava aquilo de “me portar”, “agir”, “não surtar”.

— Deve ser competente e discreta — ele resumiu. — O resto, você vai aprendendo.

Ótimo. Competente, discreta e improvisando em um apartamento que custava mais do que tudo o que eu veria na minha vida se somasse cinquenta anos de trabalho.

Ele já estava quase na porta quando se virou de novo.

— Emmy.

— Sim?

— Você disse que gosta da minha filha.

— Gosto — confirmei, surpresa por ele voltar a esse ponto.

— Lembre-se disso nos dias em que ela for insuportável — ele disse, sem rodeios. — E nos dias em que eu for também.

Não soube o que responder. Ele não esperou, apenas saiu, deixando um rastro de perfume caro e uma sensação esquisita de que eu tinha acabado de firmar um pacto com alguém que não sabia brincar em serviço.

Ana entrou quase no mesmo segundo, como se estivesse esperando do lado de fora.

— Então? — perguntou, sorrindo, já sabendo a resposta. — Bem-vinda ao caos organizado dos Santoro, Emmy.

Soltei o ar que nem tinha percebido que estava prendendo.

— Eu… acho que aceitei — respondi. — Ainda tô tentando processar.

— Normal — ela garantiu. — As coisas aqui costumam andar rápido. Vem, vou te mostrar o seu quarto.

Seguimos por um corredor longo, iluminado por spots embutidos, com portas brancas idênticas. Eu me senti num labirinto sem Minotauro, mas com um bilionário no lugar.

Ana abriu uma das portas no final.

O quarto não era gigantesco, mas, pra mim, parecia um quarto de hotel chique. Cama de casal com colcha clara, um armário de porta de correr, uma escrivaninha encostada na janela, e uma vista indecente da cidade, do tipo que faz as pessoas tirarem foto por qualquer coisa.

— Banheiro ali — ela apontou para uma porta lateral. — A roupa de cama é trocada uma vez por semana pela equipe. Você pode organizar suas coisas como quiser, desde que não transforme o quarto em cenário de reality show de acumulação.

Soltei uma risada pequena.

— Difícil. Minhas coisas cabem em meia mala.

— Isso vai mudar — ela comentou, meio distraída. — Trabalhando aqui, as pessoas tendem a… melhorar um pouco de vida.

Por um segundo, imaginei um futuro onde eu tivesse mais do que três camisetas furadas e uma calça jeans sobrevivente. E me assustei com a rapidez com que essa imagem se tornou tentadora.

— Uma dica — Ana acrescentou, se encostando na moldura da porta. — Não tente entender o Matteo inteiro nos primeiros dias. Ele é… complexo. Você trabalha com a Joana. Isso vem primeiro.

Assenti.

— E você? — perguntei. — Trabalha com ele há quanto tempo?

— Oito anos — ela respondeu, sem hesitar.

— E ainda está aqui. — Não consegui esconder a surpresa.

— Sim. — Ela sorriu de leve. — Isso deve te dizer algo.

Deveria, mas eu ainda não sabia exatamente o quê.

— Vamos? — Ana endireitou a postura. — Joana já deve estar planejando sua próxima prova.

Olhei de novo pro quarto. Aquilo seria “casa” pelos próximos meses. Talvez anos. Um lugar que não carregava o cheiro dos meus pais, nem o barulho das meninas da república, nem a memória do internato. Estranhamente neutro. Um recomeço com paredes brancas demais.

Fechei a mão em torno da alça da minha mochila, como se ainda precisasse lembrar de onde eu vinha, e a segui pelo corredor.

Enquanto caminhávamos de volta em direção às risadas de Joana, uma ideia incômoda se instalou na minha mente: eu acabara de entrar na órbita de alguém acostumado a ter tudo sob controle.

E eu, Emmy Rocha, estudante quebrada, filha órfã, recém-contratada como babá residente, sabia muito bem que gente obcecada por controle raramente lida bem com o imprevisível.

O problema é que eu, por definição, era imprevisível demais pra caber inteira em qualquer contrato.

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