Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe alguém um dia escrever um “Manual de Sobrevivência em Coberturas de Bilionários Obcecados”, eu posso, com tranquilidade, assinar como fonte primária.
A primeira regra, eu descobri logo depois de voltar do quarto: não demonstre que tudo te impressiona, mesmo quando absolutamente tudo te impressiona.
Ana me deixou na porta da sala de estar de novo, com um sorriso de quem já viu muita gente atravessar aquela fronteira.
— Ele pediu pra você assumir a Joana até a hora do jantar — explicou. — A equipe da casa já foi avisada. Se precisar de qualquer coisa, meu ramal tá na parede da cozinha. E… relaxa, Emmy. Aqui ninguém espera perfeição no primeiro dia.
Quase perguntei o que esperavam, então. Não tive coragem.
Joana estava no chão, rodeada por lápis de cor, folhas soltas e o que parecia ser um castelo sendo desenhado em perspectiva duvidosa. Pudim dormia com a cara enfiada em uma almofada, como se o mundo já fosse responsabilidade demais para um cachorro daquele tamanho.
— Voltei — anunciei, ainda na porta.
Joana levantou a cabeça na hora, como se tivesse um radar particular só para vozes específicas.
— Você demorou — reclamou, mas sem real mágoa. — Já fiz metade do castelo sem você.
Me aproximei, me abaixando ao lado dela.
— Uau — comentei, genuinamente impressionada. — Esse castelo tem quantas torres?
— Três grandes e duas escondidas — ela explicou, séria. — As escondidas são pros segredos. Todo mundo tem segredo. Meu pai, a Ana, a Flora… — Olhou pra mim, estreitando os olhos. — Você também tem cara de quem tem segredo.
Ri, nervosa.
— Todo mundo tem um ou dois — respondi, tentando não pensar “dívida estudantil” em letras maiusculas. — Mas eu não guardo nada em torre, porque tenho medo de altura.
— Igual o dragão — ela constatou, satisfeita. — Então você vai gostar da parte escondida debaixo do castelo. — Apontou um rabisco estranho na base da folha. — Isso aqui é um túnel. Se der ruim, a gente foge por aqui.
Eu não sabia se ficava comovida ou preocupada com o fato de que uma criança de cinco anos planejava rotas de fuga em desenhos de castelo.
— Plano excelente — falei. — Nunca confie só numa saída.
Ela voltou a desenhar, e eu fiquei ali, observando. Foi só então que me dei conta de algo que ninguém tinha mencionado oficialmente:
— Joana… — chamei, tentando parecer casual. — E a sua mãe? Ela também mora aqui?
A menina fez o contorno de uma janela com força demais, rasgando levemente o papel.
— Minha mãe morreu — respondeu, como se recitasse algo que já tinha repetido muitas vezes. — Quando eu era bebê. Não lembro dela. Só das fotos.
O jeito que ela falou “morreu” foi seco, direto. Sem floreio, sem chorinho. Como alguém que sabe que, se enfeitar demais, dói mais.
— Sinto muito — murmurei, automaticamente.
Ela deu de ombros.
— Não lembra dói menos. — Pausou, pensando. — Eu acho.
Fiquei calada por alguns segundos, tentando encontrar uma forma de estar ali, com a minha própria bagagem, sem transformar a cena numa competição de tragédias.
— Eu lembro — falei, por fim. — Dos meus pais. E, às vezes, dói do mesmo jeito.
Joana levantou os olhos pra mim. Havia uma curiosidade silenciosa ali, mas também um tipo estranho de reconhecimento.
— Eles também morreram? — perguntou.
Assenti.
— Morreram quando eu tava no começo da faculdade.
— E você ficou sozinha? — ela insistiu.
— Fiquei — respondi. — Mas… aí a gente vai arrumando gente nova no caminho. Professores legais, amigas de república, colegas de trabalho… — Sorri de leve. — Às vezes até umas crianças de cinco anos que se acham donas do castelo.
Ela estreitou os olhos.
— Eu sou dona do castelo — corrigiu. — Mas você pode visitar.
Negócio fechado, então.
A tarde foi avançando em blocos meio estranhos de tempo. Em alguns momentos, parecia que eu já conhecia Joana há meses. Em outros, eu me pegava pensando que, se eu falasse um milímetro errado, poderia estragar tudo.
Nós desenhamos, brincamos de esconde-esconde (descobri rapidamente que não existem bons esconderijos em uma casa com mais câmeras do que esquinas), e fomos até a varanda, onde ela me mostrou a piscina com a empolgação de quem apresentava um oceano particular.
— Meu pai não deixa eu vir aqui sozinha — ela contou, agarrada na borda de vidro da varanda. — Nem chegar perto da água sem adulto.
— Faz sentido — admiti. — Água é perigosa.
— Tudo é perigoso — ela rebateu, com uma sabedoria precoce. — Mas meu pai acha que, se ele olhar pra tudo ao mesmo tempo, nada acontece.
Segurei o corrimão, mais por necessidade emocional do que física.
— Ele se preocupa com você — argumentei.
— Ele se preocupa com tudo — ela corrigiu. — Inclusive com as coisas que não existem.
Eu não conhecia bem o Matteo, mas pela forma como ele tinha lido o meu histórico financeiro como se analisasse um relatório trimestral, eu conseguia imaginar.
Voltamos para dentro quando o sol começou a bater forte no vidro. Na cozinha, uma das funcionárias — que se apresentou como Lúcia — já estava organizando o lanche da tarde de Joana: frutas cortadas, um copo de leite com chocolate, um biscoito redondo que parecia caro demais para ser só um biscoito.
— Esse é o lanche padrão dela — Lúcia me explicou, com gentileza. — O senhor Matteo é bem rígido com açúcar. Nada de refrigerante, nada de doce industrializado. De vez em quando, a Ana libera umas coisas escondido.
Joana ouviu e cruzou os braços.
— Não é escondido, Lúcia, é estratégia — corrigiu, ofendida. — Se o papai souber de tudo, ele pira.
Soltei um riso que virou tosse no meio do caminho.
— “Pira” não é exatamente a palavra que eu colocaria em um relatório — brinquei.
Lúcia piscou, cúmplice.
— Você se acostuma — disse, baixinho. — Ele é exigente, mas… — Fez um gesto com a mão, como se buscasse uma palavra. — Não é cruel. Isso já ajuda muito, hoje em dia.
Pensei em clientes da lanchonete onde eu trabalhava às vezes, que tratavam garçons como se fossem mobília descartável. Em chefes de lugares pequenos com ego grande demais. Ter dinheiro não fazia ninguém necessariamente pior — às vezes só dava mais palco pros defeitos.
— A babá antiga ficou quanto tempo? — perguntei, tentando parecer curiosa, não fofoqueira.
— Quase oito meses — Lúcia respondeu. — O que é bastante, aqui.
— E por que ela saiu? — continuei.
Lúcia hesitou um segundo, olhando para Joana, que já lambia o chocolate no fundo do copo.
— Digamos que… ela não lidava bem com limites — respondeu, enigmática. — Nem os dela, nem os do patrão.
Traduzindo: deve ter confundido contrato com convite pra outro tipo de intimidade. Meu estômago revirou, não exatamente de ciúme (seria ridículo nessa altura), mas de alerta. Eu sabia muito bem o tipo de história que corria em grupo de W******p de faculdade sobre bilionários e funcionárias.
Mentalmente, escrevi mais uma regra no meu manual imaginário:
não confundir salário com salvação, e muito menos com romance.Depois do lanche, Joana arrastou uma mala pequena para o meio da sala.
— Vamos arrumar minhas coisas de boneca — decretou. — As minhas estão bagunçadas.
— Legal — comentei. — Cadê as bonecas?
— Na mala — respondeu, como se eu fosse lenta. — Quando meu pai viaja, eu faço ele colocar a mala dele do lado da minha. Ele leva terno, eu levo as bonecas. — Abriu o zíper com um gesto teatral. — Equilíbrio.
A mala estava cheia de bonecas de todos os tipos: algumas de porcelana, sérias e aristocráticas; outras de plástico, com cabelo colorido; uma ou duas mais velhas, com a tinta dos olhos gasta e um braço remendado.
— Essa daqui veio comigo quando eu era menorzinha — Joana disse, erguendo uma boneca de pano, meio torta, com um laço desbotado. — A Flora queria jogar fora. Falou que era feia.
— Feia? — peguei a boneca com cuidado. — Ela tem mais história do que todas essas aqui juntas. — Apontei as outras, impecáveis. — Essas parecem que nunca viveram nada. Essa aqui tem cara de quem já salvou gente de pesadelo.
Os olhos de Joana brilharam.
— Eu sabia que você ia gostar da Clementina.
— Clementina? — perguntei, tentando não rir.
— É. — Ela estufou o peito. — Meu pai odeia esse nome. Fala que parece nome de gente velha. Mas eu não troco.
— Clementina é um ótimo nome pra alguém que já enfrentou vários horrores — comentei. — Tipo você.
Joana pareceu satisfeita com a analogia. E, de certo modo, eu também.
Enquanto ajudava a organizar as bonecas numa estante ridiculamente chique para um bando de plástico e tecido, ouvi a porta da entrada abrir e fechar. Vozes baixas. Um tom mais grave, outro mais contido. Matteo e, provavelmente, alguém do trabalho.
Joana me lançou um olhar rápido, como quem calcula riscos.
— Se for reunião, eu não vou lá — murmurou. — Só fico atrapalhando.
— Você é filha da casa — falei, baixinho. — Teoricamente, não atrapalha nada.
— Meu pai discorda.
Ela tinha um ponto.
Poucos minutos depois, Ana apareceu na porta da sala novamente.
— Emmy, o Matteo pediu pra você levar a Joana pro banho agora — avisou. — Ele vai se atrasar um pouco pra subir, mas quer que ela esteja pronta na hora do jantar.
Percebi que “ele vai se atrasar pra subir” significava que ele estava no andar de baixo, onde devia existir outro mundo inteiro de escritório, reuniões e segredos corporativos.
— Uau, banho oficial — brinquei com Joana. — Isso parece importante.
— É uma chateação — ela retrucou, revirando os olhos. — Mas tudo bem. Você conta história na banheira?
— Posso tentar não afogar o livro — respondi. — Aí já é um lucro.
Joana riu e me puxou pelo braço.
O banheiro dela parecia um spa infantil. Azulejos claros, banheira do tamanho de uma piscina de bebê e mais brinquedos de água do que eu tinha visto em toda a minha vida.
Enquanto ela brincava com barquinhos e animais de plástico, eu fiquei sentada num banquinho ao lado, arregaçando um pouco a barra da calça e tentando não escorregar naquele chão que brilhava.
— A Flora deixava eu ficar até a água ficar fria — Joana contou, enfiando um dinossauro no meio da espuma. — Meu pai briga quando descobre.
— A gente pode combinar um meio-termo — sugeri. — Não água fria, não dedo enrugado demais, e você sai contando uma história pra mim em vez de eu contar pra você.
— Eu conto a do dragão de novo.
— Então é chantagem — respondi. — Eu tô sendo manipulada por uma criança de cinco anos.
— Se você sabe que tá sendo manipulada, não é manipulação — ela declarou, cheia de lógica.
Eu definitivamente estava lidando com alguém que tinha mais neurônios ativos do que muito adulto por aí.
Quando terminei de lavar o cabelo dela e garantir que não tinha mais nenhum resquício de shampoo, enrolei Joana numa toalha fofa que parecia um abraço com orelhas de coelho.
Foi nesse momento, com ela ainda toda enrolada e os pés descalços, que Matteo apareceu na porta do banheiro.
Ele estava sem blazer, mangas da camisa ainda dobradas, mas agora sem gravata. O cabelo levemente bagunçado, como se tivesse passado a mão pela cabeça umas dez vezes em meia hora.
Os olhos dele demoraram um segundo em Joana, outro segundo em mim.
— Está tudo sob controle por aqui? — perguntou.
— Banho tomado, cabelo lavado, zero shampoo no olho — respondi. — Tô considerando isso uma vitória.
Joana ergueu o queixo.
— A Emmy não deixa a água ficar fria — informou. — E não usa shampoo que arde. A Flora usava.
Um músculo na mandíbula dele se contraiu.
— Já falei pra você que, se alguma coisa te incomodar, você precisa me contar — ele lembrou, com uma paciência tensa.
— Você tava viajando — ela rebateu. — E, quando volta, fica ocupado.
O comentário pairou no ar, pesado. Eu senti, fisicamente, o impacto das palavras dela nele.
— Tô aqui agora — ele disse, por fim. — E você vai jantar comigo. Sem tablet, sem TV. A Emmy também vai.
— Eu? — perguntei, surpresa.
Ele me olhou como se a pergunta fosse estranha.
— Você mora aqui a partir de hoje. Faz parte da rotina dela. E da minha. — Deu um meio sorriso que não chegou aos olhos. — Não se preocupe, não é um convite social. É questão de logística.
Tradução: não confunda jantar na mesa do patrão com qualquer noção romântica. Meu cérebro entendeu. Meu estômago, nem tanto.
— Tudo bem — respondi. — Só preciso… trocar de roupa?
Matteo me avaliou por um segundo. Jeans, blusa simples, cabelo preso. Nada inadequado, mas nada sofisticado também.
— Vista algo com o que você se sinta confortável — disse, enfim. — Não é um evento. É só o jantar de todos os dias.
Para ele, talvez fosse “só” o jantar. Pra mim, sentar à mesa com ele e a filha, naquele apartamento, depois de tudo o que eu tinha aceitado naquele dia, parecia a cena de abertura de um filme que eu ainda não sabia se era romance, suspense ou tragédia.
Quando ele se afastou, levando Joana no colo, enrolada na toalha como um burrito de coelho, eu fiquei alguns segundos sozinha, encarando meu próprio reflexo no espelho do banheiro.
— Parabéns, Emmy — murmurei. — Em menos de vinte e quatro horas, você saiu de “talvez despejada” pra “jantar com um bilionário obcecado por controle”.
Se isso não fosse material de tese em alguma área obscura da psicologia, eu não sabia o que seria.
Saí do banheiro com uma certeza incômoda: o contrato estava assinado, as regras estavam estabelecidas, o quarto arrumado. Mas nada daquilo me preparava para a parte mais complicada de todas.
Conviver, todo dia, com alguém que tinha poder demais sobre a minha vida…
e que, querendo ou não, já começava a ter impacto demais sobre o meu coração.






