Mundo ficciónIniciar sesiónMarja sempre foi diferente. Extremamente tímida, introvertida e silenciosa, cresceu carregando desde cedo o rótulo de “esquisita”. Sua maior fortaleza era a relação com a mãe — uma amizade profunda, construída na cumplicidade, no afeto e na certeza de que, enquanto estivessem juntas, nada realmente poderia feri-la. A morte repentina da mãe despedaça esse alicerce. No mesmo dia do enterro, quando o luto mal começou, ela vê sua vida se transformar mais uma vez quando precisa fugir para não ser violentada pelo padrasto. Pela primeira vez Marja está sozinha, cheia de medo e sem saber o que fazer, nem para onde ir. É essa fuga que a conduz até uma fazenda distante, onde encontra trabalho e refúgio. Ali, Marja tenta se reconstruir, escondendo sua história e suas feridas atrás da discrição e do trabalho dedicado como babá. A fazenda pertence a Adriano, um homem marcado pela própria tragédia. Viúvo e com uma filha ainda pequena, ele carrega as cicatrizes da morte inesperada e brutal da esposa, uma perda que o endureceu e o afastou de tudo e de todos. Reservado, melancólico e preso ao passado, Adriano vive cercado por lembranças e por uma dor que nunca aprendeu a dominar. Entre uma jovem machucada pela vida e um homem consumido pela perda, nasce uma convivência cheia de conflitos, porque ambos tentam sobreviver aos próprios fantasmas. O que surge dali não é imediato nem simples, mas carrega a possibilidade de algo maior — um sentimento contido e perigoso, capaz de curar ou de abrir novas feridas.
Leer másNesse momento eu olho o caixão de madeira. No exterior estou calma, composta, quase serena. Uma aparência de uma normalidade devastadora.
O som das ferramentas batendo na terra úmida ecoa dentro de mim como se fosse meu próprio coração sendo enterrado aos poucos. E cada golpe é um ponto final numa história que ainda ficou pela metade.
Minha mãe está ali dentro daquele caixão. Uma grande mulher que teve a vida encerrada tão precocemente aos 39 anos.
Eu tinha tanta coisa para dizer; tanta coisa para fazer por ela. Eu prometi que um dia iria ganhar muito dinheiro e que ela não limparia mais o chão de ninguém. Eu ia dar uma vida boa para ela. Minha mãe viveria sentada, lixando as unhas e cuidando do jardim. Era assim que eu a imaginava no futuro em alguns anos, quando eu pudesse lhe dar uma vida mais confortável. Mas não deu tempo e ela se foi. Se foi para sempre.
Aperto com força a mão de Jana, minha melhor amiga desde a adolescência. Ela é o único ponto firme neste chão que parece querer me engolir. Seus dedos quentes contrastam com os meus que estão gelados e dormentes.
— Tenha calma! E não olhe para esse monstro.
Jana percebe quando meu corpo endurece, porque eu olho para alguém que está à minha frente e sinto vontade de desaparecer.
Meu padrasto Gino está a alguns metros de distância, com o semblante sério que nunca correspondeu ao que ele realmente era. As pessoas o cumprimentam, dizem “meus sentimentos”, e ele agradece com a cabeça baixa, ensaiando um sentimento que nunca vi quando minha mãe estava viva.
Seus olhos, no entanto, encontram os meus. E não há luto ali. Há algo pior. Há uma ameaça sádica que me faz arrepiar por dentro. Percebi que ele nem se deu ao trabalho de usar óculos escuros; talvez para me intimidar no pior momento da minha vida.
Desde sempre, na ausência da minha mãe, Gino tinha olhares demorados demais na direção dos meus peitos e da minha bunda. E fazia comentários desconfortáveis sobre as roupas que eu usava. Sempre que passava perto de mim, suas mãos roçavam a minha pele, fingindo ser algo casual. Muitas vezes eu evitava jantar na mesa com eles, porque Gino, passava os dedos dos pés nas minhas coxas por debaixo da mesa, enquanto conversava com minha mãe calmamente.
Eu vivia sempre tensa. Aprendi a me esconder dentro de casa, a trancar a porta do quarto, a fingir que dormia. Nunca contei para minha mãe. Ela nunca soube, ou talvez soubesse e preferisse não enxergar. Nunca saberei, pois agora ela não está mais aqui.
E de repente, um pensamento surge com força brutal: vamos voltar para casa sozinhos, apenas eu e ele. O que vai acontecer comigo? Não tenho para onde ir. Toda a família que eu tinha era minha mãe, agora acabou. Não tenho mais ninguém e tudo isso me faz sentir náusea. Engulo em seco com a garganta ardendo.
Jana aperta minha mão ainda mais. E eu queria poder ficar nesse cemitério frio, apenas para não dar o próximo passo. Porque o próximo passo é entrar em casa com ele, sem minha mãe.
O padre fala alguma coisa sobre descanso eterno, sobre Deus acolher os bons. Eu não escuto. Fico olhando para o caixão descendo, tentando gravar cada detalhe. Quero lembrar do cheiro do cabelo dela, do jeito como cantava desafinado enquanto lavava roupa, do toque áspero e acolhedor das suas mãos, do beijo de boa noite. Quero lembrar que fui amada. Preciso lembrar disso para continuar viva.
Quando tudo termina e as pessoas começam a ir embora, sinto o pânico se instalar de vez. Minha respiração fica curta e meus ombros tremem.
Meu padrasto se aproxima e coloca a mão no meu ombro demorando mais do que o necessário. Meu corpo reage antes da minha mente: eu me afasto. Ele sorri de canto, um sorriso malicioso que me dá vontade de correr.
— Vamos, Marja — ele diz, com uma voz que tenta soar protetora.
Sinto vontade de gritar para que todos ouçam: “Não quero ir para casa com você. Estou com medo”. Mas não digo nada. Minha voz ficou enterrada junto com o caixão.
Enquanto caminhamos para fora do cemitério, olho uma última vez para trás, para a terra recém-fechada, para minha mãe. Prometo em silêncio que não vou desistir, que vou continuar lutando, que vou cuidar de mim, que vou sobreviver, mesmo com o coração em pedaços.
Naquele momento, tudo o que sinto é o peso esmagador da ausência… e o terror do que me espera dentro de casa.
Seguimos lado a lado, eu no meio, Jana de um lado e o meu padrasto do outro. Quando chegamos no estacionamento, ele abre a porta do carona ao lado do motorista para eu sentar, mas prefiro ir no banco de trás com Jana. Vejo o rosto dele se contrair de raiva pela minha atitude inesperada. Sei que isso vai ter um preço.
Eu queria ter sido enterrada junto com minha mãe para não ter que ficar sozinha com ele dentro de casa.
Mas é justamente para casa que estamos indo. Ele e eu.
Acordei com a sensação de que ainda estava sonhando. Por alguns segundos permaneci imóvel, os olhos fechados, respirando devagar. O colchão era muito macio e o lençol tinha um cheiro que eu já começava a associar a Adriano. Quando estiquei a mão ao lado do meu corpo, vi que estava vazio.Abri os olhos de repente, um susto breve atravessando o peito. Sentei-me na cama, o lençol escorrendo até a minha cintura, e foi então que ouvi. Um ruído baixo, metálico, seguido do som inconfundível de uma xícara sendo pousada sobre a mesa. E, logo depois, o cheiro de café.Levantei-me devagar, ainda sentindo o corpo levemente dolorido, não de um jeito ruim, mas como uma lembrança boa da noite anterior. Vesti a camisa dele que estava jogada sobre a cadeira — grande demais para mim — e segui pelo corredor, com o sol da manhã entrando em faixas claras pelo chão.Quando cheguei à cozinha, Adriano estava de costas, terminando de arrumar a mesa. O cabelo ainda um pouco bagunçado, a camisa de algodão clara
Eu fiquei alguns minutos parada do lado de fora do quarto de Adriano, com a mão suspensa no ar, sem coragem de bater ou de girar a maçaneta. Meu coração batia tão forte que eu tinha medo de que ele pudesse ouvir do outro lado da porta.Aquilo para mim, não era só desejo — embora ele estivesse ali, intenso, vivo, pulsando sob a pele. Era uma necessidade estranha de proximidade, de ser vista, abraçada, escolhida nem que fosse por um instante.Respirei fundo e abri a porta.Adriano estava de costas, parado diante da janela, olhando para o mar escuro. A luz da lua desenhava sua silhueta de um jeito quase irreal. Por um segundo, hesitei. Talvez fosse tarde. Talvez ele não me quisesse mais.Mas então ele se virou. O susto foi evidente no rosto dele. Seus olhos me encontraram, surpresos por um breve instante, como se eu fosse uma visão inesperada, quase impossível.— Marja!?Caminhamos de encontro um ao outro, como se estivéssemos indo em câmera lenta. Quando nos encontramos, ele me beijou,
Adriano pousou os talheres com calma e perguntou:— E então, como você foi parar na fazenda?A pergunta pairou entre nós, pesada e inevitável. Olhei para o mar, para a linha escura do horizonte, tentando organizar pensamentos que eu raramente colocava em palavras.— Não foi uma coisa planejada.Ele não disse nada. Apenas esperou.— Minha mãe morreu há pouco tempo — continuei. — Ela era tudo o que eu tinha. Meu apoio, minha amiga, minha segurança.A voz saiu firme no início, mas aos poucos foi ficando mais frágil.— Nós duas sempre fomos muito próximas. — Sorri, triste. — Ela me criou sozinha durante muito tempo. Trabalhava demais, mas nunca me deixou faltar o essencial.Adriano continuava imóvel, atento. O jantar já não importava.— Quando ela morreu, eu fiquei… vazia. Sem chão.Engoli em seco antes de continuar.— Eu sempre tive medo de ficar sozinha com o meu padrasto.Adriano franziu levemente o rosto, mas não interrompeu.— Horas depois de eu ter enterrado minha mãe, ele tentou…
Recebi alta naquela manhã. Já estava me sentindo bem melhor como se a mordida da cobra tivesse sido há muito, muito tempo. O médico falou palavras técnicas, explicou recomendações, repouso relativo, remédios, retorno em alguns dias.Adriano cuidou de toda a papelada. Eu apenas assinei onde me indicavam. Quando finalmente atravessei a porta do hospital, o sol me atingiu o rosto com uma força inesperada. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Estava viva. E isso, de repente, parecia enorme.— Devagar — Adriano disse, colocando a mão nas minhas costas quando percebeu que meus passos estavam incertos.Não foi um toque invasivo. Foi firme, seguro, necessário. Assenti, aceitando aquele apoio sem discutir. Ele abriu a porta do carro, me ajudou a sentar, ajustou o cinto com cuidado. Tudo em silêncio.— Para a fazenda? — perguntei, depois que ele deu a partida.Ele negou com a cabeça.— Não. Vamos para a praia.Virei o rosto lentamente para encará-lo.— Praia?— Minha casa aqui na
Eu não sabia dizer quanto tempo havia passado. Dormia. Acordava. Voltava a dormir. Às vezes tinha a sensação de ter sonhado com vozes, passos, com o som distante de alguém chamando meu nome. Outras vezes, tudo era apenas branco, silêncio e um peso doce que me puxava de volta para o fundo.Quando acordei de novo, foi diferente. A consciência veio mais inteira, ainda frágil, mas presente. O braço ligado ao soro estava gelado, o outro repousava sobre o lençol fino. Respirei devagar, sentindo o ar entrar melhor do que antes. Adriano ainda estava lá.Ele permanecia sentado na mesma cadeira ao lado da cama, como se não tivesse se movido desde a última vez que abri os olhos. A postura era contida, rígida, mas havia um abandono silencioso nos ombros, uma entrega cansada. A barba por fazer lhe dava um ar mais humano, menos distante do homem que eu conhecia na fazenda. Ele olhava para mim com atenção, como se estivesse vigiando cada respiração.Quando percebeu que eu estava acordada, levantou-
Eu acordei. A primeira sensação não foi dor. Foi peso. Um peso estranho, espalhado pelo corpo inteiro. Respirei e o ar entrou difícil, arranhando a garganta. O cheiro veio logo depois — álcool, remédio, algo limpo demais para ser confortável. Quando finalmente consegui olhar ao redor, a luz branca me cegou. Então, pisquei várias vezes, sentindo as pálpebras pesadas. Ouvi passos suaves e o tilintar discreto de metal. Uma silhueta se moveu ao meu lado.— Calma — disse uma voz feminina, baixa, profissional. — Não tente se mexer ainda.Virei o rosto com esforço. A enfermeira estava ali, de uniforme claro e mãos firmes ajustando algo num suporte alto. Segui o fio transparente com os olhos até o meu braço e percebi que estava no soro.— Onde… — tentei perguntar, mas a voz saiu fraca, quase inexistente.— Você está no hospital — respondeu a enfermeira, com um sorriso tranquilo.As palavras ecoaram fortes dentro da minha cabeça. Tentei organizar os pensamentos, mas eles escorregavam, se mi





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