Mundo ficciónIniciar sesiónQuando entro em casa sinto um vazio no peito tão desesperador, que me dá vontade de voltar correndo pela mesma porta por onde tinha acabado de entrar.
Gino segue na frente e desaparece dentro de casa. Jana entra comigo, deixando a bolsa no sofá, e me envolve num abraço longo.
— Eu fico um pouco — ela diz.
No sofá eu me deito no colo de Jana enquanto ela faz um cafuné na minha cabeça. O som da chuva começando lá fora me deixa ainda mais melancólica.
Quando Jana olha para o celular pela terceira vez, sei que o momento chegou. Ela se levanta, hesitante, me abraça de novo, mais forte.
— Qualquer coisa, me liga. A qualquer hora. Promete? — ela fala enquanto enrola uma mecha do meu cabelo no dedo.
— Prometo — respondo automaticamente.
Jana olha para os lados e abaixa a voz, falando no meu ouvido:
— Por favor, por favor, se cuida, tá?
— Vou me cuidar. — Falo sem nenhuma convicção na voz.
— Tenho que ir agora. O Uber está me esperando.
Vejo-a sair pelo portão correndo porque a chuva está engrossando. Respiro fundo. Agora estou sozinha mesmo.
Gino aparece no corredor como uma sombra.
— Vou fazer alguma coisa para a gente comer — digo, buscando um pretexto, qualquer coisa que me mantenha em movimento.
Eu me afasto e vou para a cozinha. Com mãos trêmulas, começo a preparar o jantar. Então sinto o contato indesejado: o corpo dele roçando no meu de propósito, lento, provocador. Dou um passo à frente, quase derrubando a panela.
— Por favor, fica longe! — digo baixo, a voz falhando.
Ele ri. Um riso curto, sem humor.
— Relaxa. Não fique tão tensa!
Faço tudo muito rápido e ponho a mesa. Jantamos em silêncio e eu mal consigo engolir.
Sigo para o quarto buscando abrigo e distância. Vou até o espelho grande que fica na parede. Posso me ver, mas é como se não fosse eu mesma. Meu cabelo ondulado castanho-claro está preso em um coque frouxo, com as mechas loiras caindo ao redor do meu rosto e meus olhos amendoados estão sem brilho, sem vida. Não me reconheço mais. Tenho 21 anos, mas me sinto velha, cansada, sem esperança.
Tiro os sapatos e me jogo na cama ainda vestida. Não percebo que a porta ficou entreaberta. Não sei quanto tempo passa, mas de repente, sinto a presença dele. Abro os olhos e o vejo.
A mão pesada me pressiona contra o colchão. Ele rasga meu vestido preto, quebra a alça do sutiã com um puxão violento, enquanto agarra meu seio com força, espremendo-o dolorosamente.
— Agora somos eu e você, Marja. E você vai ser minha.
— Não! Me solta, por favor! — imploro.
— Não seja fingida, menina. Deixou a porta aberta para que eu viesse. Você é tão safada! E eu gosto disso.
— Me larga! Me solta! — a minha voz sai tremida.
Eu grito, luto, empurro ele com todas as forças que tenho.
Sinto sua mão subindo na minha coxa. Ele tenta arrancar minha calcinha. Eu luto, acerto o rosto dele com um chute, consigo me soltar num movimento desesperado e corro.
Saio do quarto quase tropeçando, o coração na garganta. Vou direto para a cozinha. A faca está ali, sobre a pia, ainda suja do jantar. Seguro com as duas mãos, os dedos escorregadios de suor.
— Fica longe de mim! — grito com a voz falhando.
Ele avança; não parece ter medo. Mas eu resisto.
— Fica longe! — Respiro fundo, buscando ar, mas sem sucesso. As mãos trêmulas.
Num movimento rápido, ele segura meu pulso e torce com força, fazendo a faca cair. Com a outra mão livre, eu passo as unhas no rosto dele fazendo um corte enorme. Antes que eu consiga perceber, sinto o impacto: o tapa com as costas da mão é seco, violento e minha cabeça gira. Caio no chão, sentindo o gosto de sangue na boca e tudo fica borrado por um segundo.
Me levanto como posso e corro, com a visão turva pelas lágrimas. Vou em direção à escada que dá acesso ao quintal, ouvindo os passos dele atrás de mim. Meus pés escorregam, mas eu me seguro no corrimão.
E naquele momento ouço um som abrupto — um grito sufocado, o corpo dele perdendo o equilíbrio e logo em seguida, um impacto pesado. E por fim, surge um silêncio assustador, quebrado apenas pela chuva que martela forte no telhado.
Viro devagar e vejo Gino estendido no final da escada, imóvel, braços e pernas abertos. Por alguns segundos também fico imóvel, sem reação, esperando ele levantar e me atacar novamente, mas o tempo passa e ele não se move.
Em seguida, sigo correndo para o quarto. Minhas mãos tremem enquanto arranco do meu corpo o que sobrou do vestido preto que usei no enterro da minha mãe. Visto uma calça jeans, uma blusa qualquer, um par de tênis e jogo algumas roupas numa sacola.
Antes de sair, ligo para a emergência sem dizer meu nome. Passo por Gino e dou uma última olhada; não sei se está vivo ou morto.
Saio pelo quintal e dou a volta pelo portão lateral da casa, enquanto sinto a chuva me encharcando. Não sei para onde vou. Tudo o que sei é que não posso ficar.







