Capitulo- 6

Voltamos para a fazenda em silêncio. Sentada ao lado dele na picape, entendi que ali tudo é do jeito do “Todo Poderoso, Senhor das Terras”. Entendi que ele faz e desfaz as coisas na hora que acha conveniente. E eu tentava conter a raiva que sentia dele, afinal de contas, ele voltou e me salvou quando eu estava entrando em pânico naquela estrada escura e sinistra.

 Quando chegamos, uma mulher me espera no pé da escada. Ela é negra, alta, postura firme, olhos atentos.

— Sou Benedita — ela se apresenta. — Venha comigo.

Atravessamos uma sala espaçosa e subimos a escada de madeira.

 O quarto de hóspede fica no andar de cima. É grande e limpo. Cama arrumada, colcha clara.

— Qualquer coisa, é só chamar — ela diz, antes de sair.

Tomo um banho frio. Volto com uma toalha enrolada no corpo, cabelos molhados e me jogo na cama.

***

Acordo com o sol entrando no quarto.

Me levanto devagar e vou até o banheiro para fazer minha higiene matinal. Em seguida, desço a escada sentindo o cheiro de café vindo da cozinha.

Quitéria está lá, concentrada, os movimentos precisos, cantarolando. Mas assim que me vê, se cala. Sento-me à mesa sem saber se devo falar. Ela coloca uma caneca na minha frente. Café forte.

Crio coragem e pergunto:

— Cadê o patrão?

— Não está — ela responde, sem me olhar — Ele sempre sai muito cedo.

— E a… a pequena?

— Tá no quarto.

— Cheguei ontem e ainda não a vi. Ela não sai do quarto?

Silêncio.

— Onde está a mãe dela?

Mais silêncio.

Quitéria mexe no fogão com força maior do que o necessário, como se a panela tivesse culpa de alguma coisa.

— Olha o cuscuz, está quentinho. Por que não come antes que esfrie? — ela muda de assunto.

Obedeço. Mas as perguntas continuam girando dentro de mim. Há algo estranho naquela casa. Ali as respostas não chegam completas, como se todos soubessem de alguma coisa, mas ninguém quer falar.

Levanto-me da mesa quando acabo de comer. Quitéria recolhe a louça suja sem comentar nada. Dou alguns passos em direção à porta da sala quando sinto uma presença.

Ela está ali, na soleira. A garotinha.

Deve ter entre quatro e cinco anos. Pele branca, cabelos castanhos escuros, cacheados. Usa um vestido de babados, largo demais para o corpo miúdo. Os olhos… os olhos me prendem: são grandes, sérios; tristes demais para uma criança, melancólicos ao extremo para quem ainda é tão pequena!

Abaixo-me um pouco, instintivamente.

— Oi — digo suave.

Ela não responde. Apenas me observa. Eu insisto:

— Meu nome é Marja e o seu?

A garotinha continua me fitando. Apenas isso.

— Quantos anos você tem?

— Ela não fala — Quitéria diz atrás de mim, num tom que é mais aviso do que explicação.  — O nome dela é Cecília e ela tem seis anos.

Olho para Quitéria e pergunto:

— O que houve com ela?

Quitéria não responde.

Volto a olhar para Cecília que desvia o olhar e caminha em direção à varanda. Seus passos são lentos, quase cuidadosos demais. Sigo com os olhos. Ela se deita no chão frio, de bruços, vira a cabeça de lado e encosta o ouvido no piso. Ela está buscando seu espaço pessoal.

Sigo meu instinto e caminho até a varanda. Me deito ao lado dela. Seguro a sua mão e me vejo nela. Seus dedos se fecham nos meus, com força inesperada.

Quitéria observa da porta. Não diz nada. 

Só percebo que o tempo passou quando ouço o barulho dos carros da fazenda chegando. Levanto os olhos, ainda segurando a mão da pequena. Vejo Adriano a uma certa distância olhando a cena com expressão indecifrável.

Me levanto do chão, ajeito o cabelo e caminho em direção à porta da sala. Mas repentinamente, sinto uma mãozinha segurando a minha. É Cecília que me acompanha. Volto a olhar para Adriano. Ele está no mesmo lugar, imóvel, enigmático. Apenas observando.

 Cecília e eu passamos pela sala de mãos dadas, subimos as escadas e seguimos pelo corredor que leva aos quartos. Ela anda à frente, confiante de que eu estou atrás.

Ela para diante de uma porta branca, a segunda à direita. Empurra devagar. O quarto é muito claro. A janela grande deixa entrar toda a luz do sol e ilumina a mobília.

Há uma cama de madeira, uma estante baixinha cheia de livros infantis, uma penteadeira sem espelho e uma caixa de brinquedos no canto.

Sento-me na cama ao lado dela, com cuidado. Ela é doce, é frágil; uma criança que parece ter vivido mais dor do que seis anos deveriam carregar.

— O que quer fazer agora? — pergunto carinhosamente.

Cecília me guia. Saímos da cama e sentamos juntas no piso. Ela encosta o ouvido no chão novamente e eu faço o mesmo. Ela estende a mão para mim e eu dou a minha. Ela aperta minha mão mais forte e eu aperto de volta.

Tudo é silêncio.

Até que alguém abre a porta abruptamente. É Adriano. Ele nos observa por alguns segundos, depois fecha a porta com força e sai.

Lembro-me que sou uma intrusa naquela casa e que é hora de ir embora.

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