Capítulo-3

Chego à rodoviária com as roupas úmidas da chuva, o cabelo grudando na testa e a boca ardendo no lugar onde recebi o tapa. Compro uma passagem no guichê vazio para o próximo ônibus que estiver saindo, sem perguntar o destino. A moça do guichê fala alguma coisa, mas eu apenas concordo com a cabeça. Não quero saber para onde vou. Só preciso ir.

O ônibus já está ligado quando subo. Escolho o lugar perto da janela, encosto a testa no vidro frio e abraço a sacola lembrando que nela está tudo o que me resta. O motor ronca, as portas se fecham, e quando o veículo começa a se mover sinto uma estranha sensação de liberdade.

As luzes da cidade passam rápidas, borradas pela chuva. É nesse movimento que a minha mente decide viajar no passado.

Meu pai morreu quando eu tinha sete anos.

Lembro da sensação antes de lembrar dos detalhes. Eu estava brincando no tapete da sala, quando minha mãe recebeu a notícia. O telefone caiu da mão dela e quebrou, mas o som do impacto pareceu distante. O que ficou perto demais foi o choro dela. Um som cru, animal, que eu nunca tinha ouvido sair da boca da minha mãe.

Depois disso, eu parei de falar. Não foi decisão. A voz simplesmente não saía. As palavras ficaram presas em algum lugar profundo, onde o medo e a tristeza se confundiam. Isso deixou minha mãe desesperada. Ela me levou a médicos, psicólogos, fonoaudiólogos.

Voltei a falar aos poucos. Primeiro, palavras soltas. Depois frases curtas. Nunca como antes. Nunca com naturalidade.  E mesmo depois, continuei me isolando. Não fazia amigos porque não sabia como. Manter uma conversa parecia natural e fácil para os outros, enquanto que para mim era pesado e difícil.

Sempre me achei diferente demais para caber em grupos de amigos. A terapia me ajudou muito, mas ainda hoje tenho algumas dificuldades; ainda me sinto desconfortável quando encaro as pessoas por muito tempo ou quando mudanças bruscas acontecem na minha vida.

 Uma vez — foi antes de Jana chegar na escola — durante a aula de história meu pensamento viajou. Quando despertei estavam todos rindo de mim, porque o professor havia perguntado algo e eu continuava “viajando no mundo da lua”. Depois disso passaram a me rotular de esquisita, de lerda...

O cansaço me vence e eu cochilo. Acordo assustada; percebo que ainda estou em viagem e que o dia já está claro.  Logo em seguida, sinto o ônibus diminuir a velocidade. Olho pela janela e vejo uma placa enferrujada com o nome da cidade que não significa absolutamente nada para mim. É um lugar de terra batida nas margens da estrada, poucas casas e um céu aberto demais. Meu corpo entende antes da mente: é aqui que vou ficar. Aperto a sacola contra o peito, levanto antes que eu pense melhor e desço.

Passa um pouco do meio-dia. O sol está exatamente acima da minha cabeça, impiedoso. O calor sobe do chão como se a terra respirasse fogo. Sinto a blusa colar nas costas, o rosto arder, o lábio ainda sensível latejar. Não sei onde estou, mas, não sei porque, isso me dá uma estranha sensação de alívio.

Caminho sem destino até encontrar uma praça pequena, simples, com bancos de cimento descascados e árvores que oferecem uma sombra tímida.

Do outro lado da praça, há uma lanchonete. Atravesso a passos largos e sigo até lá. Não é mais do que um espaço simples com portas abertas, duas mesas de plástico e um balcão de fórmica desbotada.

Não encaro as poucas pessoas que estão no estabelecimento. Só me aproximo do balcão e peço um salgado e um copo de suco. Como rápido, quase sem sentir o gosto. Enquanto mastigo, depois de algum tempo, é que observo a mulher atrás do balcão.

Respiro fundo antes de perguntar:

— A senhora… está precisando de alguém para trabalhar?

Ela me olha com cuidado, da cabeça aos pés.

— Aqui, não — responde, sincera, sem grosseria. — O movimento é pouco.

— Sabe se aqui por perto, alguém está precisando? — arrisco mais uma vez.

— Não, moça. Como vê, aqui é cidade pequena e cada dono toma conta do seu próprio negócio.

. Pego a sacola, pronta para sair, quando uma voz masculina surge do fundo do estabelecimento.

— Ei, moça! Lá na fazenda tá precisando.

Viro-me e vejo um homem caboclo, queimado de sol, com olhos atentos. Ele usa um chapéu de palha gasto na cabeça e deve ter uns quarenta e poucos anos. Ele se aproxima devagar.

— Meu nome é Mundico — diz, tirando o chapéu. — Trabalho numa fazenda aqui perto. Sempre falta gente lá para trabalhar.

Seguro a alça da sacola com mais força.

— Que tipo de trabalho?

Ele dá de ombros.

— Depende. Limpeza, cozinha, serviço geral. Se não tiver medo de trabalho, você sempre encontra o que fazer.

Não penso muito e respondo:

— Não tenho medo de trabalho.

Ele me observa por mais um instante, e então pergunta:

— A moça já trabalhou com criança?

— Sim. Já fui professora numa escola infantil.

— Então, venha!

Seguimos até uma picape azul, estacionada sob uma árvore. Subo no banco do passageiro, o couro quente queimando minhas pernas. E então seguimos por uma estrada de terra que parece se estender sem fim.

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