A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO
A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO
Por: Marinez Assis
Capitulo - 1

Nesse momento eu olho o caixão de madeira. No exterior estou calma, composta, quase serena. Uma aparência de uma normalidade devastadora.

 O som das ferramentas batendo na terra úmida ecoa dentro de mim como se fosse meu próprio coração sendo enterrado aos poucos. E cada golpe é um ponto final numa história que ainda ficou pela metade.

Minha mãe está ali dentro daquele caixão. Uma grande mulher que teve a vida encerrada tão precocemente aos 39 anos.

Eu tinha tanta coisa para dizer; tanta coisa para fazer por ela. Eu prometi que um dia iria ganhar muito dinheiro e que ela não limparia mais o chão de ninguém. Eu ia dar uma vida boa para ela. Minha mãe viveria sentada, lixando as unhas e cuidando do jardim. Era assim que eu a imaginava no futuro em alguns anos, quando eu pudesse lhe dar uma vida mais confortável. Mas não deu tempo e ela se foi. Se foi para sempre.

Aperto com força a mão de Jana, minha melhor amiga desde a adolescência. Ela é o único ponto firme neste chão que parece querer me engolir. Seus dedos quentes contrastam com os meus que estão gelados e dormentes.

— Tenha calma! E não olhe para esse monstro.

Jana percebe quando meu corpo endurece, porque eu olho para alguém que está à minha frente e sinto vontade de desaparecer.

 Meu padrasto Gino está a alguns metros de distância, com o semblante sério que nunca correspondeu ao que ele realmente era. As pessoas o cumprimentam, dizem “meus sentimentos”, e ele agradece com a cabeça baixa, ensaiando um sentimento que nunca vi quando minha mãe estava viva.

Seus olhos, no entanto, encontram os meus. E não há luto ali. Há algo pior. Há uma ameaça sádica que me faz arrepiar por dentro. Percebi que ele nem se deu ao trabalho de usar óculos escuros; talvez para me intimidar no pior momento da minha vida.

Desde sempre, na ausência da minha mãe, Gino tinha olhares demorados demais na direção dos meus peitos e da minha bunda. E fazia comentários desconfortáveis sobre as roupas que eu usava. Sempre que passava perto de mim, suas mãos roçavam a minha pele, fingindo ser algo casual. Muitas vezes eu evitava jantar na mesa com eles, porque Gino, passava os dedos dos pés nas minhas coxas por debaixo da mesa, enquanto conversava com minha mãe calmamente.

 Eu vivia sempre tensa. Aprendi a me esconder dentro de casa, a trancar a porta do quarto, a fingir que dormia. Nunca contei para minha mãe. Ela nunca soube, ou talvez soubesse e preferisse não enxergar. Nunca saberei, pois agora ela não está mais aqui.

E de repente, um pensamento surge com força brutal: vamos voltar para casa sozinhos, apenas eu e ele. O que vai acontecer comigo? Não tenho para onde ir. Toda a família que eu tinha era minha mãe, agora acabou. Não tenho mais ninguém e tudo isso me faz sentir náusea. Engulo em seco com a garganta ardendo.

Jana aperta minha mão ainda mais. E eu queria poder ficar nesse cemitério frio, apenas para não dar o próximo passo. Porque o próximo passo é entrar em casa com ele, sem minha mãe.

O padre fala alguma coisa sobre descanso eterno, sobre Deus acolher os bons. Eu não escuto. Fico olhando para o caixão descendo, tentando gravar cada detalhe. Quero lembrar do cheiro do cabelo dela, do jeito como cantava desafinado enquanto lavava roupa, do toque áspero e acolhedor das suas mãos, do beijo de boa noite. Quero lembrar que fui amada. Preciso lembrar disso para continuar viva.

Quando tudo termina e as pessoas começam a ir embora, sinto o pânico se instalar de vez. Minha respiração fica curta e meus ombros tremem.

Meu padrasto se aproxima e coloca a mão no meu ombro demorando mais do que o necessário. Meu corpo reage antes da minha mente: eu me afasto. Ele sorri de canto, um sorriso malicioso que me dá vontade de correr.

— Vamos, Marja — ele diz, com uma voz que tenta soar protetora.

Sinto vontade de gritar para que todos ouçam: “Não quero ir para casa com você. Estou com medo”. Mas não digo nada. Minha voz ficou enterrada junto com o caixão.

Enquanto caminhamos para fora do cemitério, olho uma última vez para trás, para a terra recém-fechada, para minha mãe. Prometo em silêncio que não vou desistir, que vou continuar lutando, que vou cuidar de mim, que vou sobreviver, mesmo com o coração em pedaços.

Naquele momento, tudo o que sinto é o peso esmagador da ausência… e o terror do que me espera dentro de casa.

Seguimos lado a lado, eu no meio, Jana de um lado e o meu padrasto do outro. Quando chegamos no estacionamento, ele abre a porta do carona ao lado do motorista para eu sentar, mas prefiro ir no banco de trás com Jana. Vejo o rosto dele se contrair de raiva pela minha atitude inesperada. Sei que isso vai ter um preço.

Eu queria ter sido enterrada junto com minha mãe para não ter que ficar sozinha com ele dentro de casa.

 Mas é justamente para casa que estamos indo. Ele e eu.

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