Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu me levanto e endireito a postura, respiro fundo e me preparo para conhecer o patrão. Estou de pé, ao lado da mesa da cozinha, ouvindo os passos na varanda.
Os passos chegam. Eles são firmes, decididos, e param na porta da cozinha. Levanto os olhos. O homem ocupa o espaço sem esforço. É alto — quase um metro e noventa, imagino — largo de ombros, postura rígida. Usa chapéu, que projeta sombra sobre parte do rosto; sua pele é parda, e os cabelos escuros. Usa calça jeans gasta e camisa xadrez de mangas longas. Não sorri. Não parece curioso. Apenas observa, como se eu fosse um objeto fora do lugar.
Logo atrás dele está Mundico, o chapéu de palha nas mãos, postura mais contida.
— É ela? — o homem pergunta, sem tirar os olhos de mim.
— É sim — Mundico responde.
O patrão cruza os braços.
— Mundico se enganou, moça — diz, seco. — Aqui não tem emprego.
A frase cai como uma porta batida na cara.
Sinto o peito afundar, mas não abaixo o olhar.
— Mas Mundico disse que aqui tem uma criança...
— Já lhe disse e repito: aqui não tem emprego.
— Se não quiser que eu cuide da criança posso fazer outra coisa. Eu faço qualquer tipo de trabalho — digo, a voz firme apesar do nó na garganta. — Limpeza, cozinha, cuidar da casa.
Ele me analisa por mais alguns segundos. O silêncio é pesado, constrangedor e o ambiente fica tenso. Por alguns instantes, só se ouve a fervura da sopa na panela aberta.
— Não preciso de mais empregados — responde, frio. — Já tenho gente suficiente.
— Posso… posso ajudar por uns dias — insisto. — Nem precisa pagar muito. Só preciso de um lugar.
Ele suspira, impaciente.
— Não!
Só isso. Nenhuma explicação.
O calor volta a apertar, agora por dentro. Sinto o cansaço, o medo e a frustração se acumularem como uma maré prestes a transbordar. Engulo tudo.
— Então… — minha voz sai mais baixa — pelo menos deixe eu ficar por hoje. Amanhã cedo eu vou embora.
Ele hesita por uma fração de segundo. Em seguida responde com acidez:
— Não! Aqui não é pensão.
E vira as costas.
Meu corpo demora a reagir. Quando dou por mim, ele já saiu da cozinha, seguido por Mundico que antes de o acompanhar abaixa a cabeça levemente, como um pedido de desculpas mudo. Em seguida ouço os passos se afastarem pela varanda.
Meu corpo desaba na cadeira. Fico sentada, imóvel, sentindo algo dentro de mim murchar. Não é só a esperança de um trabalho. É a ideia de que talvez este fosse o lugar onde eu poderia ficar sem precisar me defender o tempo todo.
Quitéria para o que estava fazendo. Pigarreia, como se quisesse dizer algo, mas não encontra as palavras.
Levanto devagar. Vou até a janela lateral e vejo o patrão e Mundico parados a certa distância, perto de uma das colunas da varanda. Eles falam baixo, mas o silêncio do ambiente contribui para que algumas palavras chegam até mim.
— …a moça acabou de chegar — Mundico diz. — Ela parece uma pessoa decente.
— Não me interessa — o patrão responde.
— Você sabe os problemas que tem com a pequena — insiste Mundico. — Essa moça pode ser a pessoa certa para...
— Não! — O patrão o corta, mais duro. — Já disse que não!
Falam mais alguma coisa, ainda mais baixo. Não consigo entender tudo, apenas fragmentos. Quitéria pigarreia de novo, mais alto desta vez, como um aviso. Afasta-se do fogão, pega um pano, enxuga as mãos.
— Você já ouviu demais, moça — diz, sem me olhar.
Meu rosto esquenta.
— Desculpa… eu só… — paro. Não adianta explicar.
O silêncio cresce; parece eterno. Eu não sei que atitude tomar. Não estava preparada para ser rejeitada. Tento pensar em algo, mas nada me vem à mente e não consigo processar tudo aquilo que está acontecendo.
— Começa a esfriar à noite — Quitéria fala. — Melhor a moça ir antes que escureça de vez.
Em seguida, sai da cozinha.
Fico sozinha. Sinto raiva daquele homem arrogante e sem coração. Há tanto espaço na fazenda, por que não deixar que eu passe a noite ali? Que tipo de ser humano faz isso com uma pessoa cansada?
Pego minha sacola, coloco-a no ombro. Passo pela porta da cozinha devagar. Dou alguns passos em direção à varanda e sigo para a porteira. Não sei para onde ir. Mas sigo caminhando pela estrada de terra ao lado da cerca de arame farpado, com o vento quente jogando poeira no meu rosto.
O tempo passa. A noite cai, negra, sem luar. A estrada fica completamente escura. De repente um carro se aproxima e para diante de mim, com os faróis me cegando. E quando os faróis abaixam eu o vejo. É o patrão. Aliviada e sem pensar duas vezes entro e me sento ao lado dele na picape.
— E então, vai me dar o emprego? — pergunto cheia de esperança.
Ele me olha atentamente, sem nada expressar.
— Já lhe disse que não tem emprego. Mas não vou deixar uma moça andar sozinha à noite por aí. Você dorme na fazenda e amanhã vai embora.
Minha alegria desaparece.
— A propósito, me chamo Adriano Pinheiro — ele fala com voz seca, nada amigável.
— Marja — falo rápido, sem encará-lo.
E assim, seguimos todo o percurso em silêncio.







