Mundo de ficçãoIniciar sessãoTraída e roubada pelo marido, ela chega ao limite do desespero. Sem dinheiro, sem rumo e com a autoestima destruída, aceita passar uma única noite em um lugar que jura nunca mais pisar. O que não esperava era encontrar um homem diferente de todos — silencioso, dominante, irresistivelmente atento a cada detalhe dela. Para ela, seria apenas uma lembrança proibida. Para ele, tornou-se uma obsessão. Quando a verdade vem à tona, o chão desaparece: o homem que domina seus pensamentos é um dos líderes mais temidos da máfia japonesa. Fugir parece impossível — e resistir a ele, ainda mais. Entre paixão, medo e entrega, ela descobre que já não sabe viver sem o homem que pode salvá-la… ou destruí-la para sempre.
Ler maisAtravessei a rua com o coração batendo na garganta. Do outro lado da calçada, a fachada me observava como um julgamento silencioso. Na porta, dois seguranças imóveis e uma mulher loira, alta, elegante demais para aquela hora da noite, conversava com quem entrava e saía. A coragem só veio empurrada pelas duas latas de cerveja que bebi no caminho — quarenta minutos a pé, porque naquele dia eu não tinha sequer o dinheiro da passagem.
Quando parei diante dela, seus olhos me percorreram sem pressa, avaliando cada detalhe. — Você não tinha um sapato melhor, minha filha? — perguntou, sem disfarçar a desaprovação- Vamos, vou arrumar alguma coisa pra você, não tem problema. Assim que entrei, o impacto me atravessou. Nada de música alta ou luzes coloridas piscando. Um instrumental suave preenchia o ar, como trilha sonora de filme antigo. A iluminação baixa criava sombras elegantes, mesas de vidro refletiam pequenas luminárias, revelando apenas silhuetas. Meu estômago gelou. Não havia mais tempo para recuar. No pequeno quarto, o cheiro de perfume misturado a cigarro me envolveu. Ela me mostrou sapatos altos, lindos. Há muito tempo eu não usava um sapato como aquele, eu e Jorge estávamos economizando dinheiro para comprar nosso apartamento. Quem é Jorge? Eu já te conto... — Esse fica pra você. E se quiser um vestido, escolha. Essa blusinha… já viu dias melhores — disse, rindo de leve, puxando a manga de blusa 3/4 que eu usava. Se a minha auto estima já estava mais baixa que terra debaixo do asfalto, alí ficou pior, sendo vistoriada por aquela loira tipo capa da Playboy. Explicou que tudo ali vinha das próprias meninas que trabalham ali. O que elas não queriam mais, deixavam Alí naquele closet para alguém com alguma emergência ou alguma pobretona como eu, que não tinha nada para vestir. Alí não havia rivalidade , todas se ajudavam e tinha clientes para todas! Afirmou, revirando as roupas no cabide a nossa frente. Me surpreendi com o lugar, tanto como as roupas. Nada era vulgar. Os vestidos sugeriam mais do que mostravam. Sensuais, sim. Escancarados, não. Enquanto falava das regras da casa, minha cabeça girava , pela cerveja que tomei pra dar coragem de entrar ali , pelo medo, pela certeza de que aquele passo não teria volta. — Você é educada. Bonitinha, vai se dar bem. Só precisa emagrecer um pouquinho — completou, como quem comenta o clima. Autoestima no chão. Abandonada. Sem dinheiro. O aluguel atrasado. Três semanas procurando trabalho. O que mais poderia dar errado? Jorge tinha ido embora sem aviso. Duas semanas de silêncio, depois de inúmeras brigas, cobranças que nunca eram respondidas. Ele simplesmente me deixou sem nada! E só percebi dias depois pelo extrato da conta conjunta e pelas contas de cada sem pagar, condomínio, aluguel, enfim. Depois de dois anos e de eu ter largado o emprego em outra cidade para termos mais tempo juntos, ele decidiu que não dava mais. Me roubou e foi embora. De volta ao salão, mulheres conversavam, riam, bebiam. Garçons circulavam com taças reluzentes. Minhas pernas tremeram. Vi uma mesa vazia perto da porta e fui até ela — precisava respirar. Mas alguém tocou meu braço, e me puxou. - Bora gata, Bora dar um rolê, gostosa- o bafo era de guarda-chuva molhado esquecido no fundo do armário. Um homem maduro, um coroa bonito até, mas já tinha bebido demais. - Ela está comigo- interviu um homem, um japa se prostrando na frente do senhor que se aproximou. O senhor não disse nada, soltou o meu braço, mais senti a dor por algum tempo ainda. Ao redor as meninas com os olhos arregalados me mediram da cabeça aos pés. - Venha, tome um suco uma bebida se preferir- fez o convite trazendo as mãos nas minhas costas para que eu passasse a frente. - O da casa- disse ao barman, sem rodeios. - Eu sou Jonny. - Evelyn, respondi me apresentando. Que homem bonito, quase exótico, pensei comigo mesma. Os traços fortes, orientais, a voz mansa. A postura, modo de se expressar apesar do sotaque forte, oriental. Não era brasileiro. Segui todas as orientações da Mara, a recepcionista com cara de Barbie. Por um minuto olhei ao redor, onde tantas mulheres bonitas circulavam, e eu... eu só uma menina do interior, tentando sobreviver na cidade grande, usando um par de sapatos emprestado para tentar fazer um programa. Em que momento eu havia perdido o controle sobre mim, pensei. Por detrás dele, a Mara passou discretamente e fez um gesto de positivo. Positivo? O que queria dizer?.Que era um bom cliente, que era seguro? - Vamos?! Não tive coragem de perguntar, o desespero já estava batendo à porta. Tive a impressão de estarmos sendo observados por todos, mas pensei que possivelmente seria pelo meu jeito de pobre mesmo. Aquelas mulheres pareciam haver saído de passarelas. Ele falava baixo, empresário, disse. Gentil. Controlado, educado, de pouco sorriso. Enquanto saíamos outros homens chegaram, orientais também . Houve um cumprimento cordial, entre todos. Ao sairmos, o manobrista já chegava com o carro. Luxuoso. Eu não soube nem dizer o nome, mas nunca me apeguei a este tipo de coisa. Meu coração disparou... Para onde iríamos? Era seguro? Por fim poucos minutos dali, deu sinal e entramos na garagem de um edifício alto nível, aquela noite realmente se sobressaiu a tudo o que esperava, não imaginei tudo isto quando li aquele anúncio de jornal: "Moças educadas, boa aparência, paga-se bem" No elevador, o beijo veio , rápido, num susto, quase contido, quase respeitoso. No apartamento, tudo parecia irreal. Cenário de novela. Ele me elogiou pela calma, pela educação. Detestava escândalos, enquanto colocava as chaves Eva carteira em cima do aparador e tirava o blazer impecável. Na sala bem iluminada, um samurai em uma pintura que eu passaria horas observando. no centro da sala, parede principal. Tudo era de muito bom gosto. Derrepente outro beijo... Os lençóis macios, o toque cuidadoso. Fechei os olhos e deixei acontecer. Havia delicadeza, não urgência, não me forçou a nada, não pediu nada , apenas nos entregamos tranquilamente, sem dramas e sem alarde. Suas costas tatuadas contrastavam com a serenidade dos olhos dele. Um dragão negro, imponente, emergindo da água. Passei os dedos com curiosidade. Ele despertou. — Gosta de tatuagens? Sorri, envergonhada. Algumas, esta é bonita, mas o que adianta se é escondida.... comentei. Ele riu. Um riso fácil, tom de deboche. Que tolice a minha, certamente muitas outras mulheres viram aquelas costas tatuadas. - Você não vem?- perguntou já no chuveiro. Sem toalhas cobrindo o corpo, sem lençóis, nua sem escape, totalmente exposta nos olhos daquele homem que eu não conhecia. Meu corpo tremeu —O beijo voltou diferente, mais intenso, mais profundo. Havia domínio, mas também cuidado. Uma presença firme que me desarmou. Algum tempo depois, já vestida, um envelope tirado da gaveta e me entregou. Chamou por alguém, no idioma dele, e uma porta no final do corredor de abriu. E eu pensando que estávamos sozinhos. Um rapaz devia ter a mesma idade, não me comprimentou, apenas pegou a chave do carro e abriu a porta. Me virei esperando um chau, um aceno, um adeus, mas só vi as costas tatuadas voltando para o quarto e fechando a porta. Então é assim? Me perguntei. No caminho, nenhuma palavra. Silêncio absoluto. Apenas pediu o endereço e colocou no GPS. Muito obrigado - não houve respostas. Já em casa, fechei a porta com cuidado, como se qualquer ruído pudesse desfazer o que eu ainda tentava compreender. A luz baixa do corredor me guiou até o quarto. Onde os sapatos da Mara deixei na porta...meus pés estavam pedindo socorro. Só então lembrei do envelope. Abri devagar, como se temesse que o conteúdo evaporasse. As notas estavam ali, reais, pesadas. O valor me atingiu como um soco e um alívio ao mesmo tempo. Era muito além do que a Mara , a recepcionista comentou que era de costume dos clientes pagarem , tipo uma tabela de preços, algo neste sentido. Chorei quieta. Pagaria o aluguel. Compraria comida. Não precisaria inventar desculpas no mercado. Respirei fundo, sentindo o peso de semanas sair dos meus ombros de uma só vez. Deitei ainda vestida, o corpo cansado, mas a mente desperta. O perfume dele permanecia impregnado na minha pele, nos meus cabelos. Fechei os olhos e a imagem voltou sem pedir licença: as costas largas, a pele quente, o desenho do dragão negro se estendendo com imponência, como se tivesse vida própria. As garras abertas, as ondas escuras na base, os tons avermelhados nas pontas. Passei os dedos mentalmente por cada linha, lembrando da textura da pele, da calma com que ele me tocava, da ausência de pressa. Não fora brutal, não fora mecânico. Havia algo quase íntimo naquele silêncio compartilhado. O meu primeiro cliente, não importava as circunstâncias, eu era uma prostituta, uma garota de programa agora. Por certo tive algo de sorte, certamente nem todos os clientes teriam aquele perfume, nem aquela calmaria, pensei.. O cansaço finalmente me venceu, mas antes de adormecer, um detalhe voltou com força inesperada, eu me lembrei do nome, o nome dele que eu tentava lembrar no caminho, -Jonny. -Jonny?!-perguntei -Simpledmente Jonny. Sorri sozinha, já à beira do sono. Que japonês se chama Jonny? Não importava. Naquela noite, eu sobrevivi.Com Jonny, eu podia existir. Era simples assim e ao mesmo tempo, revolucionário demais para alguém como eu. Eu podia ser quem eu era de verdade. Não a mulher ensaiada, não a versão corrigida, não a silhueta que cabia na expectativa dos outros. Eu podia ser eu: descabelada depois de um dia difícil, com o rosto limpo de maquiagem, com o corpo longe da perfeição que aquelas mulheres exibiam com tanta naturalidade na casa que ele comandava. Mulheres lindas, impecáveis, treinadas para seduzir até com o silêncio. Eu não era como elas. Nunca fui. E, pela primeira vez, isso não me diminuía. Com ele , eu não precisava competir. Não precisava me medir. Não precisava me esconder. Eu tinha o meu jeito — e ele via isso como algo raro, não como um defeito a ser corrigido. Ele não apenas aceitava quem eu era… ele fazia questão. Havia algo no modo como me olhava que me desmontava e me reconstruía ao mesm
Nos dias que se seguiram à partida dele, minha vida entrou numa espécie de ritmo estranho — quase feliz, quase normal. As noites tinham sempre a voz dele. O telefone tocava no mesmo horário, como se o mundo obedecesse àquela pequena regra que criamos juntos. Eu esperava. Ele ligava. E, por alguns minutos, tudo parecia possível. Eu acordava com menos peso no peito. Comia melhor. Dormia melhor. Sorria sozinha enquanto caminhava pela cidade, como se carregasse um segredo bom demais para ser dito em voz alta. As pessoas não sabiam, mas eu sabia: alguém pensava em mim todos os dias. Alguém cuidava de mim mesmo estando longe. Ainda assim, meu corpo começou a falar antes que minha mente estivesse pronta para escutar. No começo, foi só um cansaço diferente. Um tipo de exaustão que não passava com o sono. Depois vieram os enjoos leves, quase tímidos, sempre pela manhã. Nada dramático. Nada que gritasse perigo. Eu atribuí tudo ao estresse, à mudança de rotina, à ausência dele. Era mais fá
A cidade nova , beira mar, me recebeu sem perguntas, e talvez por isso eu tenha decidido ficar. Não havia nostalgia me guiando. Nem fuga disfarçada de saudade. Eu não estava ali por Jonny — repetia isso para mim mesma como um mantra silencioso. Eu estava ali porque escolhi. Pela primeira vez, uma escolha que era só minha. Lembrava, sim, do dia em que estivéramos ali juntos, mas lembrava sobretudo do que senti apesar dele: o mar largo, a respiração lenta das ruas, o silêncio que não cobrava nada de mim. Um silêncio que não julgava, não exigia, não doía. O mar conectava. O mar aquietava. Era ali que eu ficaria. Ao menos por enquanto. Eu tinha dinheiro suficiente. Meus investimentos permaneciam intactos, como se o caos nunca tivesse passado por mim. A venda do apartamento havia garantido algo que antes me parecia inalcançável: liberdade. Todo o dinheiro que ele me dava eu gastava quase nada, tudo ficava investido, o que graças a Deus foi me gerando certa tranquilidade. Me
Eu já não chamava aquele lugar de casa. O apartamento estava em estado de despedida: caixas fechadas, móveis cobertos, gavetas vazias demais para quem ainda dormia ali. Tudo cheirava a fim. Talvez fosse isso que eu estivesse tentando fazer, dar um jeito definitivo a algo que já tinha acabado há meses. Enterrar de vez o que vivi com ele, em nome do pouco amor próprio que ainda me restava. Outro lugar, outra casa, outra vida, vida normal, um chopp na sexta feira, um cinema, voltar aos estudos, passar horas na livraria, entre cafés e livros.... comecei a ansear por estas coisas simples as quais a gente só sente falta quando não tem. Eu já não o amava mais? Amava, mas estava convencida que já era hora de deixar de esperar por alguém que não voltaria. Jonny tinha ido embora sem bater portas. Sem explicações longas. Sem promessas. Terminou comigo como se encerrasse um acordo silencioso, desses que não admitem réplica. Continuou pagando as contas, como se dinheiro fosse uma forma ace
O silêncio não é ausência. É aviso. Demorei meses para entender isso, mas agora compreendo: quando Johnny se calou, não foi porque deixou de se importar comigo. Foi porque algo maior do que nós dois entrou em cena. Algo que não admite explicações, nem despedidas, nem fraquezas. Algo que observa. Estamos separados há meses. Não sei exatamente quantos. O tempo deixou de ser um aliado desde que ele saiu da minha vida daquele jeito — seco, preciso, definitivo, como o golpe de uma lâmina que não precisa ser repetido. Jonny não discutiu. Não tentou negociar sentimentos. Apenas disse que aquilo tinha acabado e que eu precisava seguir em frente. Seguir em frente, que eu havia trazido a confiança dele em ir àquela casa noturna procurar por ele. Como se fosse possível seguir em frente depois de amar um homem que parece carregar o mundo inteiro nas costas — e algo ainda mais escuro nas mãos. Ele nunca mais falou comigo. Nem uma ligação. Nem uma mensagem. Nem um bilhete. Mas
Quando a verdade veio à tona, eu senti o chão desaparecer de verdade. E não foi uma verdade dita de uma vez, numa frase definitiva, numa conversa honesta. Foram verdades despejadas em conta-gotas, diariamente, como um veneno lento. Cada dia eu descobria um detalhe novo, e cada detalhe me afastava mais da mulher que eu pensava ser. Começou com aquela sala fechada no apartamento dele. Jonny nunca me deixava entrar ali. Dizia que era escritório, que tinha assuntos de trabalho, papéis importantes. Eu aceitava, porque confiava nele mais do que confiava em mim. Até a noite em que a porta ficou entreaberta e eu vi as telas acesas. Câmeras. Muitas. Imagens de lugares que eu reconhecia e de outros que eu nunca tinha visto. Ruas, corredores, estacionamentos, entradas de prédios. E no canto de uma das telas, com nitidez cruel, a fachada da casa noturna onde nos conhecemos. Não era coincidência. Nada na vida dele era coincidência. Naquele dia fazia mais de um mês que Johnny não
Último capítulo