CAPÍTULO 02

Passei dias dentro de casa depois daquela noite. Não foram dias de descanso, foram dias de silêncio forçado, como se eu precisasse calar tudo o que ainda gritava dentro de mim. Eu acordava, olhava para o teto descascado do quarto e tentava convencer a mim mesma de que aquilo tinha acabado. Que eu tinha feito o que precisava fazer. Que não voltaria àquele lugar. Mas eu precisava conseguir um trabalho urgentemente pois as reservas estavam no fim.

Meu corpo até obedecia só comando mas a mente não.

Havia imagens que insistiam em voltar quando eu menos esperava. Não eram exatamente cenas claras, eram sensações. O peso do olhar dele. A forma como tudo pareceu controlado, calculado, quase inevitável. Eu odiava lembrar disso. Odiava mais ainda o fato de que, às vezes, não conseguia evitar.

Eu precisava seguir em frente. Precisava pagar o aluguel. Precisava comer. Precisava sobreviver sem me perder outra vez. Eu não queria voltar a aquela casa , e também não queria sentir aquela sensação de ter sexo com alguém que se levanta e fecha a porta sem se despedir...

Tinha vergonha, revolta pelo que fiz, mas sendo menos dramática, foi bom apesar das circunstâncias. O aluguel, as contas pagas e um perfume maravilhoso que ficou no meu olfato e na minha memória até o dia seguinte... Não foi tão ruim assim, afinal.

Quando o telefone tocou me chamando para uma entrevista de emprego, senti algo que não sentia havia semanas: esperança.

O escritório ficava no centro da cidade. Um prédio antigo, sério, que parecia não admitir erros nem histórias mal contadas. Vesti a melhor roupa que tinha, prendi o cabelo com cuidado e ensaiei respostas no espelho, tentando parecer mais segura do que realmente me sentia.

A entrevista foi rápida. Respondi tudo com objetividade, como se minha vida não estivesse pendurada por um fio invisível. Quando ouvi que começaria no dia seguinte, minhas pernas quase cederam. Sorri, agradeci, saí dali respirando fundo, tentando conter a vontade de chorar no meio da rua.

No dia seguinte, comecei.

E continuei, estava da do muito certo!

A rotina me salvou. Acordar cedo, pegar ônibus, lidar com papéis, ouvir o som constante das teclas e dos telefones. O escritório era silencioso, organizado, previsível. Eu gostava disso. Gostava de saber exatamente o que esperar de cada dia. Gostava de chegar em casa cansada, mas com a sensação de que estava reconstruindo algo que tinha sido quebrado.

E, principalmente, eu não precisei voltar àquela casa.

Dois meses se passaram. Dois meses inteiros sem cruzar aquela porta, sem ouvir aquelas vozes, sem sentir aquele ambiente pesado me engolindo. Às vezes, à noite, o rosto dele surgia na minha memória sem aviso. Eu afastava o pensamento imediatamente, como se fosse perigoso demais permitir qualquer lembrança.

Eu acreditava que tinha deixado tudo para trás.

Até o dia em que cheguei do trabalho e vi o carro. O mesmo carro que me trouxe para casa naquela noite.

Era fim de tarde. O céu estava carregado de tons quentes, e o bairro seguia seu ritmo comum. Mas aquele carro não pertencia ali. O luxo, a descrição dos vidros escuros, um carro luxuoso demais para um lugar como aquele. As pessoas passavam por ele e olhavam com curiosidade.

Meu coração acelerou antes mesmo de eu admitir o motivo.

Eu conhecia aquele carro.

Fingi que não vi. Continuei andando, sentindo as pernas pesarem a cada passo. Quando cheguei ao portão de casa, minhas mãos tremiam levemente enquanto procurava a chave dentro da bolsa. Evitei olhar de novo. Abri o portão. Dei um passo para dentro.

— Evelyn.

Meu corpo inteiro reagiu ao som daquela voz. Fiquei imóvel por um segundo que pareceu longo demais. Respirei fundo antes de me virar.

Era o mesmo rapaz que tinha me levado embora naquela noite. A mesma postura séria, a mesma expressão contida. Ele se aproximou sem pressa, como se soubesse que eu não iria fugir.

— Ele está esperando — disse, apontando discretamente para o carro.

Meu primeiro impulso foi dizer não. Entrar em casa. Fechar o portão. Mas algo dentro de mim sabia que não era tão simples assim.

Assenti.

Caminhei até o carro com o coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. O rapaz abriu a porta traseira. Entrei.

Ele estava lá.

Sentado no banco de trás, tranquilo demais. Elegante demais. Como se aquele bairro simples fosse apenas mais um detalhe irrelevante no mundo dele. Ele me olhou no instante em que a porta se fechou, e senti novamente aquela sensação estranha de estar sendo observada além da superfície.

— É aí que você mora? — ele perguntou.

Apenas balancei a cabeça.

Ele olhou pela janela por um breve momento, depois voltou o olhar para mim.

— Estive "lá" algumas vezes — disse. — Perguntei por você.

Meu estômago se contraiu.

— A Mara disse que você não voltou mais.

Fiquei em silêncio. Não sabia o que responder. Qualquer palavra parecia pequena demais diante da presença dele.

— Por quê? — perguntou- Você não gostou de lá?

A calma dele me pressionava mais do que um tom agressivo jamais pressionaria.

— Consegui um emprego — respondi, por fim. — Não precisei mais ir.

Ele me observou por alguns segundos.

-A Mara disse que foi o primeiro dia que você foi lá - não entendi

Senti o peso daquelas palavras.

— Eu não achei que… — comecei, mas parei.

— Eu procurei você — disse. — Não gosto de perder o que me interessa.

Meu coração disparou. Não era uma ameaça direta, mas soou como uma verdade absoluta.

— Apenas fui aquela noite, tive problemas em casa, mas agora tenho um emprego, posso pagar minhas contas de precisar ir naquele lugar, entende?— murmurei.

— Eu sei — respondeu- Entendi.

Aquilo me desconcertou.

— Então por que está aqui? — perguntei.

Ele se inclinou levemente para frente.

— Porque eu quero que você vá se encontrar comigo.

As palavras foram ditas com naturalidade. Como se fosse algo óbvio. Como se minha vontade fosse apenas um detalhe secundário.

Senti medo. Senti confusão. Senti aquela pressão invisível que não precisava de força para existir.

— Eu não posso — respondi.

— Pode. Pode sim! — ele respondeu, com a mesma tranquilidade.

— Minha vida é outra agora, estou trabalhando e nada contra, mas aquilo não é ambiente para mim, não pretendo voltar- concluí

— Eu sei — disse. — Entendo você.

O ar pareceu faltar por um segundo.

— Eu não quero problemas — falei, quase sem voz.

— Nem eu — respondeu. — Por isso estou aqui.

O silêncio entre nós era pesado. Eu queria chorar, gritar, correr. Mas fiquei ali, sentada, tentando manter o controle.

— Amanhã de noite, ele vem te buscar. Estarei esperando.

Ele abriu a porta do carro, convite direto para eu sair.

— Amanhã — completou ele. —Mandarei vir te buscar.

Saí do carro com as pernas fracas. Entrei em casa como se estivesse andando sobre vidro. Fechei a porta e encostei nela, sentindo o coração disparado, a respiração irregular.

Eu sabia que aquela história nunca tinha acabado.

Eu só tinha fingido que sim.

E agora, ele estava de volta.

Mas por que eu?

Essa pergunta não me dava trégua. Eu me sentia tão diferente daquelas mulheres que estavam lá naquela noite. Elas eram bonitas de um jeito evidente, seguras, bem arrumadas, sabiam exatamente o papel que desempenhavam. Eu, não. Eu estava ali por desespero, por falta de opção, por necessidade. Não por escolha. Não por vocação. Então o que ele queria afinal de mim?

Eu me olhava no espelho e tentava encontrar a resposta refletida ali. Via uma mulher comum, cansada, com marcas de uma vida que nunca foi fácil. Nada em mim parecia extraordinário. Nada que justificasse aquela procura insistente, aquela atenção que atravessou dois meses de silêncio.

E ainda assim… ele voltou.

Ao mesmo tempo em que o medo se instalava no meu peito, havia algo mais difícil de admitir. Eu sentia a presença dele mesmo quando estava sozinha. Não como uma lembrança suave, mas como uma força. Algo que me desarmava sem tocar em mim, que me deixava alerta, exposta, consciente demais de mim mesma.

Isso me assustava.

Porque, junto do medo, vinha outra sensação, uma que eu não queria nomear, mas que se impunha. Uma espécie de atração silenciosa, perigosa. Não era encanto fácil, nem desejo explícito. Era a sensação de estar diante de algo maior do que eu, algo que poderia me destruir… ou me mudar para sempre.

E isso, contra toda a lógica, me seduzia.

Eu me perguntava se ele me via como as outras. Se, para ele, eu era apenas mais uma mulher que ele podia chamar quando quisesse. Se aquele encontro que ele impôs seria apenas isso: mais uma noite, mais um acordo silencioso, mais um papel que eu teria de vestir.

Seria um encontro? Que estupidez pensar que seria. Óbvio que seria um programa...

A palavra me feria por dentro. Eu não queria voltar àquele lugar. Não queria me sentir assim outra vez. Mas também não conseguia fingir que nada daquilo me atravessava. Havia algo nos olhos dele — um misto de controle e curiosidade — que me fazia sentir diferente, escolhida de uma forma que eu não compreendia.

E talvez fosse isso o mais perigoso.

Passei o resto da noite em claro, imaginando o dia seguinte. O som do carro parando em frente à minha casa. A porta se abrindo. O silêncio carregado daquele interior escuro. Meu corpo reagia antes mesmo de qualquer decisão consciente, como se soubesse que algo estava prestes a acontecer.

Eu não sabia quem ele era.

Não sabia o que ele esperava de mim.

Não sabia o preço que aquele novo encontro poderia cobrar.

Só sabia que, quando pensei nele, não senti apenas medo.

Senti expectativa.

E isso me fez perceber que, no dia seguinte, eu não estaria apenas indo ao encontro dele. Eu estaria indo ao encontro de algo dentro de mim que eu não conseguia ainda explicar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App