Mundo ficciónIniciar sesiónNaquele fim de tarde, saí do trabalho com a cabeça em turbilhão. Eu havia passado o dia inteiro tentando me concentrar nos processos, nos prazos, nas orientações do escritório, mas a verdade é que nada entrou direito.
As palavras pareciam atravessar meus ouvidos sem se fixar. Meu corpo estava ali, sentada diante da mesa, mas minha mente insistia em voltar para aquele carro, para aqueles olhos, para aquela frase dita com tanta naturalidade que parecia impossível de ser contrariada. “Eu mando o motorista.” Era isso. Não havia convite. Não havia escolha explícita. Havia uma ordem embalada em calma. Mas… e se eu não fosse? Essa pergunta ganhou força conforme eu caminhava até o ponto de ônibus. Pela primeira vez desde a noite anterior, senti algo parecido com determinação. O que ele poderia fazer, afinal? Nada. Ele não podia entrar na minha casa e me levar à força. Não podia me obrigar a ir. Não havia ameaça direta, não havia violência explícita. Havia apenas aquele poder invisível que me assustava justamente por não precisar se impor. E talvez fosse aí que morasse o perigo. Subi no ônibus e sentei perto da janela. Observei a cidade passando devagar, as pessoas apressadas, cada uma mergulhada na própria vida, nos próprios problemas. Pensei em como ninguém ali fazia ideia do que se passava dentro de mim. Pensei em como, há dois meses, eu estava completamente perdida, sem rumo, sem dinheiro, sem perspectiva. E agora… agora eu tinha um emprego. Um emprego de verdade. Um lugar onde eu era vista como alguém capaz, inteligente, útil. Onde ninguém me olhava como mercadoria. Onde meu nome importava. Meu chefe havia me chamado naquela mesma manhã para conversar. Disse que estava satisfeito com meu desempenho, que via potencial em mim. Falou sobre a possibilidade de me ajudar a voltar a estudar, de investir na minha formação, de me ver crescer dentro do escritório. Aquilo me encheu de uma empolgação quase infantil. Sempre gostei da área jurídica. Sempre admirei aquela dinâmica das leis, das estratégias, das palavras que podiam mudar destinos. Eu estava tendo uma chance. E eu não iria perdê-la. Foi ali, sentada naquele ônibus, que decidi: eu não iria. Eu iria esquecê-lo. Iria deixar aquela noite para trás, onde ela sempre deveria ter ficado. Não iria permitir que aquele homem — por mais intrigante, por mais intenso que fosse — atravessasse novamente a minha vida e colocasse tudo em risco. Desci do ônibus mais cedo do que o habitual. Queria chegar logo em casa. . Eu precisava ficar sozinha. Precisava pensar. Reorganizar a minha mente e tirar aquelas costas tatuadas da minha mente, aquele sotaque gostoso falando meu nome.... ai. Melhor não pensar, mas pensava. Entrei em casa rápido, fechei bem a porta, tranquei as janelas, puxei as cortinas. Apaguei as luzes da frente. Fiz tudo parecer como se não houvesse ninguém ali. Meu coração batia acelerado, mas eu tentava manter a racionalidade. Ele não viria. E, se viesse, iria embora. Sentei no sofá, sem acender a luz. O silêncio da casa parecia mais pesado do que nunca. Olhei no relógio uma, duas, três vezes. O tempo passava devagar demais. Cada ruído da rua me fazia prender a respiração. Não demorou muito. Cerca de quarenta minutos depois, vi a sombra do carro parar em frente à casa. O mesmo carro. O mesmo contorno escuro. Meu estômago se contraiu instantaneamente. A respiração ficou curta. Eu me aproximei da cortina com cuidado, afastando um mínimo de tecido para espiar. O motorista desceu. Ele olhou para a casa. Caminhou até o portão. Observou. Esperou. Voltou para perto do carro. Ficou ali, parado, como se estivesse medindo o tempo, como se soubesse exatamente quanto esperar. Eu me mantive imóvel. Meu coração explodindo. Os minutos se arrastaram. Vinte. Trinta. Quarenta. Quase uma hora. Em nenhum momento ele tentou entrar. Não chamou. Não bateu. Aquilo, de alguma forma, me deixou ainda mais nervosa. Era como se ele estivesse testando minha decisão, medindo minha resistência. Por fim, o motorista voltou ao carro. Achei que iria embora. Mas antes, ele fez algo inesperado. Abriu o porta-malas, pegou uma caixa pequena e a arremessou por cima do muro, para dentro do quintal. Meu coração quase saiu pela boca. Ele entrou no carro, arrancou rápido e foi embora. Fiquei ali, parada, no escuro, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. A curiosidade era quase insuportável. Mas o medo falava mais alto. E se ele voltasse? E se estivesse observando? E se aquilo fosse um teste? Esperei. Esperei mais alguns minutos. Depois mais alguns. Quando o silêncio se confirmou, peguei uma lanterna pequena e caminhei até o quintal com cuidado. O chão estava frio sob meus pés. A caixa estava ali, intacta. Abaixei-me e abri. Dentro havia um telefone, em celular Novo. Simples. Ligado. Pronto para uso. Com chip, bateria carregada, tela acesa como se estivesse apenas aguardando que eu tocasse. Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro. Não era mais simples pegar o número do meu telefone ou me passar o número dele? Não entendi àquela necessidade, mas paguei pra ver. Aquilo não era um presente. Não era um agrado. Era uma extensão da presença dele. Um fio invisível ligando a minha vida à dele, mesmo à distância. Fechei a caixa rapidamente, como se o aparelho pudesse me observar. Levei-o para dentro e coloquei sobre a cômoda do quarto. Não liguei. Não toquei. Apenas deixei ali, como algo que eu não sabia se queria ou temia. Deitei na cama, mas não consegui dormir. O telefone parecia ocupar todo o espaço do quarto, mesmo em silêncio. Cada pensamento me levava a ele. Cada batida do meu coração parecia ecoar aquele encontro no carro. Eu não queria me sentir como naquela casa novamente. Não queria aquela sensação de estar sendo conduzida, escolhida, observada. Mas havia algo que eu não conseguia negar. Eu tinha gostado daquele encontro. Gostado da forma como ele falava comigo, como se eu fosse diferente das outras. Gostado de não me sentir invisível. Gostado de ser vista. Isso me envergonhava. Me confundia. Me fazia questionar partes de mim que eu preferia não encarar. Ao mesmo tempo, havia aquele medo constante. O jeito dele. A maneira como dava ordens sem elevar a voz. Como se a obediência fosse algo natural, esperado. Aquilo me assustava profundamente. Porque uma parte de mim reconhecia aquela força… e reagia a ela. Fiquei ali, olhando para o teto, com o telefone ao meu lado, durante toda a noite. Não liguei. Não atendi. Não fiz nada. E, naquele momento, acreditei que tinha vencido. Achei que, por não ter ido, por ter resistido, ele não voltaria mais. Que aquilo tinha sido apenas um último movimento. Um encerramento. Engano meu. A história não tinha terminado ,ela estava apenas começando.






