Mundo de ficçãoIniciar sessãoO prédio do escritório ainda me impressionava, mesmo depois de três meses.
Fachada imponente, vidro por todos os lados, recepção silenciosa demais para quem lidava com causas milionárias. O tipo de lugar onde as pessoas falavam baixo não por educação, mas porque sabiam que cada palavra tinha peso. Eu me lembrava do primeiro dia como se tivesse sido ontem. As mãos suadas, o coração acelerado, o medo constante de errar. Não era só um emprego — era a chance de reorganizar minha vida. O escritório ficava no centro da cidade, em uma das regiões mais valorizadas. Advogados renomados, clientes importantes, processos que eu só tinha visto em livros. No começo foi difícil. Muito mais difícil do que eu esperava. Eu chegava antes do horário, saía depois de todo mundo. Errava, corrigia, aprendia rápido. Observava em silêncio, anotava tudo, absorvia cada detalhe. Havia dias em que eu voltava para casa com a cabeça latejando, o corpo pesado, os pés doendo dentro do sapato barato que eu insistia em usar porque ainda não podia comprar outro. Mas eu estava indo bem. Eu sabia disso. Três meses haviam se passado, e tudo começava a se encaixar. As contas estavam se ajeitando. O aluguel em dia. A geladeira cheia. A luz paga sem atraso. Eu já não acordava com aquele aperto no peito que me acompanhara por tanto tempo. Estava cansada, sim. Hora extra quase todos os dias. Prazos apertados. Reuniões longas. Clientes exigentes que falavam comigo como se eu fosse invisível. Mas eu aguentava. Porque, pela primeira vez em muito tempo, o cansaço vinha acompanhado de dignidade. Eu estava construindo algo. Na noite anterior, inclusive, meu chefe havia passado pela minha mesa, parado por alguns segundos e dito, quase casualmente, que estava satisfeito com meu desempenho. Que eu era dedicada. Que o escritório precisava de pessoas comprometidas. Aquilo tinha me feito sorrir o resto do dia. Por isso, quando cheguei naquela manhã, não havia nada em mim que suspeitasse do que estava prestes a acontecer. Trabalhei como sempre. Respondi e-mails, organizei documentos, acompanhei processos, preparei pastas para uma reunião importante no fim da tarde. O relógio parecia andar mais devagar naquele dia, mas eu atribuí isso ao cansaço acumulado da semana. Quando o expediente finalmente se aproximava do fim, eu já pensava no banho quente que tomaria em casa. Foi então que a secretária me chamou. — Evelyn, pode vir um instante? O tom dela era neutro. Profissional demais. Levantei sem desconfiar. Caminhei até a sala administrativa com a pasta ainda nas mãos. Lembro de ter pensado, naquele segundo, que talvez fosse mais trabalho. Mais uma demanda de última hora. Entrei. Não havia sorriso. Não havia explicação longa. Não havia conversa. Apenas frases curtas, ensaiadas, frias. — A empresa decidiu encerrar seu contrato. — Não haverá continuidade. — A decisão é definitiva. Eu fiquei parada, tentando entender cada palavra como se fossem ditas em outra língua. — Como assim… encerrar? — perguntei, a voz falhando. — Houve algum problema? Alguma reclamação? Ela não me olhou nos olhos. — Não fomos informados de justificativas específicas. Meu estômago afundou. — Mas… ontem mesmo o doutor disse que estava satisfeito com o meu trabalho. Houve um silêncio desconfortável. — São decisões administrativas, Evelyn. Decisões administrativas. Foi tudo o que eu recebi. Ela me entregou um envelope pardo. Dentro, o cheque referente aos dias trabalhados, férias proporcionais, tudo calculado com precisão matemática. Frio. Exato. Sem alma. — Você pode recolher seus pertences — disse ela, já desviando o olhar para o computador. Eu saí da sala sem saber como minhas pernas ainda me obedeciam. As pessoas continuavam trabalhando. Telefones tocavam. Impressoras funcionavam. O mundo não tinha parado, embora o meu tivesse acabado de despencar. Recolhi minhas coisas em silêncio. A caneca simples. O bloco de anotações. A caneta que eu mesma tinha comprado porque gostava da escrita macia. Ninguém perguntou nada. Ninguém explicou nada. Talvez já soubessem. Talvez nunca tivessem se importado. Quando atravessei a recepção, o segurança abriu a porta como sempre. Educado. Impessoal. Como se eu ainda pertencesse àquele lugar. Do lado de fora, o fim de tarde parecia zombar de mim. O céu estava bonito demais para um dia como aquele. O movimento intenso da rua me atingiu em cheio, e foi só ali, no meio da calçada, que a ficha caiu de verdade. Eu tinha sido demitida. Sem motivo. Sem aviso. Sem chance de defesa. O chão pareceu instável sob meus pés. Apertei o envelope contra o corpo como se ele pudesse me proteger de alguma coisa. Senti um nó se formar na garganta, pesado, sufocante. Como? Como aquilo tinha acontecido? O próprio chefe tinha elogiado meu trabalho. Eu tinha feito horas extras. Tinha me dedicado. Tinha aberto mão de fins de semana, de descanso, de mim mesma. E, ainda assim, fui descartada como se não tivesse valor algum. Caminhei sem rumo por alguns minutos, tentando respirar, tentando não chorar em público. A cada passo, o medo voltava, rasteiro, conhecido. Aquele medo antigo de perder tudo outra vez. As contas estavam em dia… por enquanto. O aluguel estava pago… por enquanto. Mas eu sabia. A vida tinha acabado de puxar o tapete debaixo dos meus pés. Mas o que eu não sabia naquela época é que isso não foi coincidência Algumas quedas não são acidentes! E eu ainda não sabia quem tinha decidido que eu precisava cair. Eu já estava dobrando a esquina quando vi o carro. Preto. Grande. Vidros escuros demais para aquela rua simples. Não era comum ver algo assim parado em frente ao meu prédio. Meu primeiro impulso foi desacelerar o passo, um aviso instintivo do corpo antes mesmo da mente entender. Talvez fosse visita de algum vizinho, tentei me convencer. Mas o carro continuava ali. Imóvel. Esperando. Antes que eu me aproximasse da portaria, a porta traseira se abriu. Um homem desceu com movimentos calculados, sem pressa, como quem já sabia que eu não iria a lugar algum. Ele usava terno escuro, camisa impecável, postura rígida. Não parecia alguém perdido. Ele me observou por um segundo longo demais. — Evelyn? O som do meu nome na boca de um estranho me atravessou como um choque. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. Parei. O coração bateu forte, quase doloroso. — Sou eu — respondi, a voz mais baixa do que eu gostaria. Ele deu um passo à frente, mantendo uma distância respeitosa demais para ser tranquilizadora. — O senhor Jonny quer falar com você. Aquele nome ecoou dentro de mim como um disparo silencioso. Senti o sangue sumir do rosto, as mãos ficarem frias. Por um segundo, achei que fosse desmaiar ali mesmo, na calçada. Jonny. Meu cérebro correu, desesperado, tentando encaixar aquele nome no presente. Mas não havia encaixe possível. Ele pertencia a outra realidade. A outra noite. Àquele lugar que eu prometera a mim mesma nunca mais lembrar. — Deve haver um engano — falei, mesmo sabendo que não havia. O homem não mudou a expressão. — Não há. Ele pediu que a levássemos até ele. Agora. — Eu… eu acabei de sair do trabalho — tentei ganhar tempo, sem saber exatamente por quê. — Não estou em condições. Ele inclinou levemente a cabeça, como quem escuta, mas não considera. Olhei em direção à portaria do prédio, calculando mentalmente a distância, as chances, qualquer rota de fuga que não existia. O porteiro estava distraído. Mesmo que eu corresse, não faria diferença. — Eu não posso — disse, mais firme do que me sentia. — Não tenho nada a falar com ele. O homem manteve o mesmo tom calmo, quase educado. — Ele acredita que tem. A porta do carro se abriu novamente, dessa vez do lado oposto. O interior era escuro, silencioso, ameaçador. Meu corpo inteiro gritava para não entrar, mas minhas pernas não se mexiam. Eu estava paralisada. A lembrança daquela noite voltou com força. O toque. O silêncio. O olhar que parecia enxergar demais. Até então, tudo aquilo tinha vivido apenas dentro de mim, como um segredo que eu guardava para sobreviver. Agora estava ali. Concreto. Presente. Impossível de ignorar. — Diga a ele que eu não quero mais nenhum envolvimento — falei, sentindo a garganta fechar. — Aquilo foi… foi só uma vez. O homem me olhou com algo que parecia quase compaixão. — Ele não costuma aceitar “só uma vez”- sorriu irônico. Meu coração disparou. — Entre, Evelyn — disse ele, abrindo espaço para que eu passasse. — Não é um convite. Foi nesse instante que entendi, e decidi ir com ele. Não teria outra notícia pior do aquela que recebi no trabalho, mesmo.






