Mundo ficciónIniciar sesiónO telefone tocou de madrugada.
Eu estava meio acordada, meio perdida naquele espaço estranho entre o sono e a vigília, quando o som rasgou o silêncio do quarto como uma lâmina. Abri os olhos no escuro. O aparelho estava ali, sobre a cômoda, imóvel — mas vivo demais para ser ignorado. O visor acendeu, lançando uma luz fria pelas paredes. Meu coração disparou. Não atendi. Fiquei olhando para o telefone vibrar, tocar, insistir. Cada segundo parecia um desafio. Um teste. Eu sabia quem era. Não precisava ver número algum. Aquele telefone só existia por um motivo. Quando finalmente parou de tocar, o silêncio voltou. Mas não trouxe paz. Trouxe expectativa. Trouxe medo. Trouxe a sensação incômoda de que algo já havia sido colocado em movimento, independentemente da minha vontade. Levantei cedo naquela manhã. Preparei-me como sempre, seguindo o ritual automático dos dias iguais. Tomei o café sem perceber o sabor. Vesti a roupa de trabalho com um cuidado quase obsessivo, como se cada botão fechado fosse uma forma de defesa, como se o tecido pudesse me proteger do que eu não sabia nomear. Ao sair de casa, antes mesmo de fechar o portão, olhei para os dois lados da rua. O gesto foi instintivo, carregado de um medo silencioso. Eu tinha a estranha e persistente sensação de que o carro preto surgiria a qualquer momento — não como surpresa, mas como confirmação de algo que, no fundo, eu já esperava. Durante o caminho até o trabalho, meu corpo permaneceu em alerta. No ônibus. No metrô. Nas esquinas. Vidros escuros me chamavam atenção. Carros grandes demais me faziam prender a respiração. Era irracional, eu sabia. Ainda assim, não conseguia afastar a impressão de estar sendo observada — seguida por algo que preferia não se mostrar por inteiro. Cheguei ao escritório tentando me convencer de que ali era o meu lugar. Sentei-me à mesa, liguei o computador, organizei os papéis. Repeti para mim mesma que aquele emprego era meu chão. Minha chance. Não demorou muito até o telefone interno tocar. — Evelyn, o doutor quer falar com você — disse a secretária. Meu estômago se contraiu. Ainda assim, levantei-me imediatamente e caminhei até a sala dele, mantendo uma postura firme que não combinava com o turbilhão dentro de mim. O advogado não me olhou de imediato. Estava rígido demais. Havia papéis organizados sobre a mesa, como se tudo já estivesse decidido antes mesmo de eu entrar. — Evelyn… — começou, pigarreando. — Infelizmente, vamos precisar encerrar seu contrato. As palavras demoraram alguns segundos para encontrar sentido. — Encerrar? — repeti, atônita. — O escritório está passando por dificuldades financeiras. Precisamos reduzir custos. Não é pessoal. Não era pessoal. Nunca é. — Mas o senhor disse que estava satisfeito com o meu trabalho — insisti, sentindo o chão ceder. — E estou — respondeu rápido demais. — Você é dedicada, eficiente. — Então por quê? Eu posso trabalhar mais… posso aceitar menos… eu preciso desse emprego. — Não — interrompeu, elevando a voz de forma abrupta. Dei um passo atrás, surpresa. Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente nervoso. Evitava meu olhar. Havia algo ali. Algo que não estava sendo dito. — Suas contas já estão prontas — disse, empurrando um envelope na minha direção. — Vou pagar o mês inteiro. Não sou obrigado, mas… — Por quê? — perguntei, quase sem voz. O silêncio se alongou. — É o que posso fazer — respondeu, seco. Eu tentei insistir. Falei da oportunidade, dos estudos, da dedicação. Falei de mim. Ele se levantou, encerrando a conversa com um gesto definitivo. Saí da sala sem sentir as pernas. No elevador, assim que as portas se fecharam, não aguentei. As lágrimas vieram quentes, silenciosas, incontroláveis. Apertei o envelope contra o peito como se fosse a última coisa que me restava. Na rua, a cidade seguia indiferente à minha existência. A avenida larga e barulhenta engolia passos e vozes. Pessoas apressadas cruzavam sem me ver. Edifícios altos demais para quem, naquele instante, se sentia pequena, quase invisível. Parei na calçada e chorei. Chorei porque tudo o que eu tentava construir desmoronava antes de ganhar forma. Porque, sempre que acreditava estar recomeçando, algo invisível me puxava de volta para o mesmo lugar. Porque eu não sabia o que fazer, nem para onde ir agora. Eu estava perdida — e, pela primeira vez, sem forças para fingir que não. Caminhei até a faixa de pedestres. O metrô estava logo ali. Eu só precisava atravessar. Foi então que o carro parou. Preto. Vidros escuros. Inconfundível. O semáforo estava vermelho para os carros. Verde para mim. O vidro desceu lentamente. Jonny. O olhar calmo. A expressão segura. Como se já soubesse que eu estaria ali. — Entre — disse. Olhei para o farol. Verde para mim. Vermelho para os carros. Eu podia ir embora. Podia atravessar. Podia fingir que ainda tinha controle. Ou podia entrar. Senti uma vertigem. Como se toda a minha vida convergisse para aquele instante. As pessoas passavam por mim. O mundo seguia. O tempo corria. Ele não me apressou. Eu abri a porta. Assim que entrei, o sinal mudou. Verde para os carros. O trânsito voltou a fluir. Naquele momento, eu ainda não sabia que aquela demissão não tinha sido um acaso. Que mãos invisíveis haviam empurrado minha vida naquela direção. Tudo o que eu sabia era que, entre o verde e o vermelho, eu tinha feito uma escolha. E não haveria mais volta.






