Mundo ficciónIniciar sesiónJohnny não falou nada durante o trajeto. O carro deslizou pela cidade como se não pertencesse ao trânsito comum, e eu observava tudo pela janela, sentindo o peso da demissão ainda grudado ao peito. Era estranho estar ali, ao lado dele, depois de um dia em que tudo tinha dado errado. Estranho… e, de algum modo, reconfortante.
Assim que entramos no prédio, ele segurou minha mão com firmeza. Não foi um gesto romântico no sentido clássico. Foi mais como um aviso silencioso: agora você está comigo. E eu fui. O apartamento dele — ou melhor, a agência, como ele chamava — tinha aquele ar impecável de quem controla tudo ao redor. Portas de vidro, iluminação suave, silêncio absoluto. Assim que a porta se fechou, senti a atmosfera mudar. Johnny tirou o telefone do bolso antes mesmo de me encarar. Ele atendeu. Falava em japonês, a voz baixa, firme, precisa. Eu não entendia uma única palavra, mas o tom… o tom dizia tudo. Ele não pedia nada. Ele determinava. Enquanto falava, caminhou lentamente até mim, sem quebrar a conversa. Seus olhos me percorreram com atenção calculada, como se eu fosse parte do ambiente que ele dominava. Com a mão livre, tocou minha cintura. Depois, seus dedos subiram, encontrando o primeiro botão da minha camisa. O clique suave do botão se soltando misturou-se à cadência do idioma dele. Meu coração acelerou. Fiquei imóvel, dividida entre o impulso de perguntar quem ele era de verdade… e a vontade de permanecer ali, naquele lugar onde não precisava decidir nada. Outro botão. Ele continuava falando ao telefone, sem pressa, como se estivesse acostumado a comandar várias coisas ao mesmo tempo. Seus dedos eram seguros, íntimos, conheciam o caminho. Minha respiração ficou mais curta. Eu sentia o controle dele não como uma imposição, mas como uma rede invisível que me sustentava. Quando desligou, o telefone foi deixado sobre a mesa sem cuidado algum. Toda a atenção dele voltou-se para mim. — Você está tensa — ele disse, como se fosse uma observação óbvia. Eu queria dizer que tinha perdido o emprego. Que estava com medo. Que tinha uma filha dependendo de mim. Que aquele luxo todo me assustava. Mas nada saiu. Johnny aproximou o rosto do meu, encostando a testa na minha, respirando comigo. — Confie — murmurou. E eu confiei. O beijo não foi urgente. Foi profundo. Carregado de intenção. Ele me conduziu até o sofá com a mesma calma dominante, como se cada movimento tivesse sido ensaiado. As mãos dele exploravam sem pressa, mas sem hesitação. Eu sentia o quanto ele desejava aquele momento — talvez mais do que eu — e aquilo me envolvia, me puxava para dentro daquela entrega silenciosa. Não houve pressa. Houve intensidade. Olhares longos. Toques que diziam mais do que palavras. Meu corpo reagia ao cuidado firme, à sensação de ser desejada e protegida ao mesmo tempo. E, em algum ponto, esqueci o mundo lá fora. Depois, ficamos em silêncio. Um silêncio confortável… e inquietante. Levantei primeiro. Ainda vestindo a camisa dele, caminhei pelo apartamento. Foi quando encontrei a outra sala. O escritório. Parei na porta. Papéis organizados em pilhas perfeitas. Mapas. Pastas com caracteres japoneses. Muitos monitores ligados, exibindo imagens que mudavam em sequência: ruas, prédios, gráficos, câmeras. Aquilo não parecia o ambiente de um simples CEO de aviação. Meu estômago se contraiu. — O que é tudo isso? — perguntei, sem conseguir esconder a tensão. Johnny apareceu atrás de mim, apoiando a mão na porta, fechando a distância. — Trabalho — respondeu apenas. Era sempre assim. Direto. Fechado. Nenhuma brecha. Almoçamos pouco depois. A mesa estava posta com cuidado, e ele observava se eu comia, se estava bem. Em determinado momento, mencionou minha demissão, como se já soubesse desde o início. — Você não precisa se preocupar — disse. — Não agora. Aquilo deveria me tranquilizar. Mas também me assustava. Quanto mais ele cuidava, mais eu sentia que estava entrando em algo que não compreendia. Depois do almoço, ele chamou o motorista. — Leve-a ao shopping — ordenou. — E depois, para casa. Colocou um envelope pesado na minha bolsa. — Compre tudo o que precisar. No shopping, fui tomada por uma empolgação quase infantil. Fazia tanto tempo que eu não comprava roupas sem culpa. Experimentei vestidos, sapatos, lingeries discretas, perfumes. Comprei roupas para minha filha, imaginando o sorriso dela. Cortei o cabelo. Saí diferente de como entrei. Mais confiante. Mais… viva. Quando o motorista me deixou em casa, o cansaço veio junto com uma estranha sensação de gratidão e medo. Pouco depois, o telefone que Johnny havia me dado tocou. Atendi imediatamente. — Esse telefone é apenas para mim — ele disse, a voz grave, firme. — Nunca deixe de atender. Desligou. Fiquei sentada na cama, olhando para o aparelho na minha mão. Eu sabia. Aquilo era cuidado… e domínio. Proteção… e controle. E mesmo assim, meu corpo ainda lembrava das mãos dele. Da voz em japonês. Do jeito como ele me fazia sentir segura num mundo que, até então, só tinha me tirado coisas. Eu tinha perguntas demais. Mas, no fundo, sabia que ainda não estava pronta para ouvir as respostas. Fechei os olhos e, contra a minha vontade, as imagens voltaram. As mãos seguras. O jeito como ele me conduziu sem pedir permissão, mas também sem jamais me tratar como algo descartável. A voz baixa, firme, aquele idioma que eu não entendia, mas que me atravessava inteira. Johnny tinha uma presença que não se apagava quando ele ia embora. Ficava. Grudava na pele. Eu era jovem. Jovem demais para já me sentir tão cansada da vida. O homem que tinha sido meu marido fora apenas o meu segundo namorado. Eu nunca tivera muitos homens, nunca aprendera a lidar com desejo como algo simples. E, com Johnny, tudo era intenso. Forte. Até demais. Sexualidade não como impulso, mas como domínio. Como se ele me visse por inteira — corpo, medo, fragilidade — e escolhesse ficar. Isso me assustava. Levantei e fui até o espelho. A mulher refletida ali parecia diferente. O cabelo novo. O perfume novo. As roupas novas. Tudo pago por ele. Tudo oferecido por ele. Foi então que o pensamento me atingiu como um golpe silencioso. Eu realmente tinha saído daquele lugar? Ou só tinha mudado de endereço? A lembrança da casa onde eu estivera, do dinheiro trocado por presença, por atenção, por companhia, voltou pesada. Eu dizia a mim mesma que era diferente. Johnny não me comprava por uma noite. Ele cuidava. Ele protegia. Ele me dava escolhas. Mas será que dava mesmo? Um nó se formou no meu peito. Eu não tinha ido mais àquela casa. Não tinha voltado àquele mundo. E, ainda assim, estava ali, sustentada por um homem que eu mal conhecia, envolvida em algo que não compreendia totalmente. Eu estava fazendo a coisa certa? Ou só tinha encontrado uma versão mais elegante da mesma dependência? O telefone tocou. O coração disparou antes mesmo de eu olhar para ele. Atendi no primeiro toque. — Nunca saia sem esse telefone, a voz dele soou firme, sem espaço para discussão. — Nunca deixe de atender. Em hipótese alguma. Jamais. A ligação caiu. Fiquei ali, com o aparelho ainda colado ao ouvido, sentindo o peso daquelas palavras se acomodar dentro de mim. Cuidado demais também pode ser uma forma de prisão. Mas mesmo assim, eu sabia: se ele ligasse de novo, eu atenderia.






