Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro deslizou pela cidade como se não pertencesse ao trânsito comum, e eu observava tudo pela janela, sentindo o peso da demissão ainda grudado ao peito. Era estranho estar ali, ao lado dele, depois de um dia em que tudo tinha dado errado.
Estranho… e, de algum modo, reconfortante. O trajeto foi curto demais para eu me recompor. O carro subiu direto para a garagem privada, silencioso como tudo naquele mundo que não me pertencia. O elevador era amplo, espelhado, iluminado por uma luz suave que não perdoava. Meu reflexo me encarava de volta: olhos cansados, maquiagem já falhando, ombros caídos. Derrotada. Eu segurava com força o que restara do meu dia — as planilhas que eu mesma havia montado, a agenda nova que tinha comprado com tanto cuidado, como se organizar a rotina fosse uma promessa de futuro. Pareciam ridículas ali. Pequenas. Deslocadas. A porta do elevador se abriu. E ele estava lá. Jonny. Não havia secretário, segurança ou intermediário. Foi ele quem abriu a porta da cobertura, como se já estivesse à minha espera, como se soubesse exatamente o momento em que eu pisaria fora daquele elevador. Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento coerente. Ele estava… impecável. Camisa escura perfeitamente ajustada ao corpo, mangas dobradas com descuido calculado, relógio discreto no pulso. O mesmo homem da noite que eu tentei enterrar na memória — só que agora real demais, próximo demais. Lindo demais. O contraste me atingiu como um tapa. Eu, ali, cansada, abatida, com o peso de um dia que tinha arrancado de mim qualquer resquício de dignidade profissional. Ele, inteiro. Intocado. Seguro de si. — Entre — disse ele, com a voz baixa e firme. Não havia dureza. Mas também não havia espaço para recusa. Entrei. Ele falava em japonês ao telefone, a voz baixa, precisa. Eu não entendia uma única palavra, mas o tom… o tom dizia tudo. Ele não pedia. Ele determinava. Enquanto falava, caminhou lentamente até mim, sem interromper a conversa. Seus olhos me percorreram com atenção calculada, como se eu fosse parte do ambiente que ele dominava. Com a mão livre, tocou minha cintura. Depois, seus dedos subiram, encontrando o primeiro botão da minha camisa. O clique suave do botão se soltando misturou-se à cadência do idioma dele. Meu coração acelerou. Fiquei imóvel, dividida entre o impulso de perguntar quem ele era de verdade… e a vontade de permanecer ali, naquele lugar onde eu não precisava decidir nada. Outro botão. Ele continuava falando ao telefone, sem pressa, como se estivesse acostumado a comandar várias coisas ao mesmo tempo. Seus dedos eram seguros, íntimos, conheciam o caminho. Minha respiração ficou mais curta. Eu sentia o controle dele não como uma imposição, mas como uma rede invisível que me sustentava. Quando desligou, deixou o telefone sobre a mesa sem cuidado algum. Toda a atenção voltou-se para mim. — Você está tensa — disse, como se fosse uma constatação óbvia. Eu queria dizer que tinha perdido o emprego. Que estava com medo. Que tinha uma filha dependendo de mim. Que aquele luxo todo me assustava. Mas nada saiu. Jonny aproximou o rosto do meu, encostou a testa na minha, respirando comigo. — Confie — murmurou. E eu confiei. O beijo não foi urgente. Foi profundo. Carregado de intenção. Ele me conduziu até o sofá com a mesma calma dominante, como se cada gesto tivesse sido ensaiado. As mãos exploravam sem pressa, mas sem hesitação. Eu sentia o quanto ele queria aquele momento — talvez mais do que eu — e aquilo me envolvia, me puxava para dentro daquela entrega silenciosa. Não houve pressa. Houve intensidade. Olhares longos. Toques que diziam mais do que palavras. Meu corpo reagia ao cuidado firme, à sensação de ser desejada e protegida ao mesmo tempo. Em algum ponto, o mundo lá fora deixou de existir. Depois, o silêncio. Um silêncio confortável… e inquietante. Levantei primeiro. Ainda vestindo a camisa dele, caminhei pelo apartamento até encontrar outra sala. O escritório. Parei na porta. Tudo ali era excessivamente organizado. Papéis em pilhas perfeitas. Mapas. Pastas com caracteres japoneses. Vários monitores exibiam imagens que mudavam sem parar: ruas, prédios, gráficos, câmeras. Aquilo não parecia o escritório de um simples CEO de aviação. Meu estômago se contraiu. — O que é tudo isso? — perguntei, tentando soar casual. Jonny surgiu atrás de mim, apoiando a mão na porta, fechando a distância. — Trabalho — respondeu. Simples. Fechado. Sem brechas. Jantamos pouco depois. Ele observava se eu comia, se estava bem. Em determinado momento, mencionou minha demissão — como se soubesse desde o início. — Você não precisa se preocupar — disse. — Não agora. Aquilo deveria me tranquilizar. Mas me assustou. Depois do jantar, ele pegou a chave do carro para chamar o motorista. Ao se mover, algo caiu do bolso do paletó e deslizou pelo chão. Um cartão. Peguei por reflexo e vi o nome do escritório onde eu havia trabalhado… de onde fora mandada embora horas antes. Olhei apenas de relance. Jonny já tinha recuperado a chave e guardado o cartão, sem qualquer reação. Não disse nada. Talvez fosse cliente. Coincidência. Minha mente estava cansada demais para desconfiar. — Leve-a para casa — ordenou ao motorista. Colocou um envelope pesado dentro da minha bolsa. Depois abriu uma gaveta e me entregou um celular. — Este é para estar sempre com você. Atenda. Sempre. Fez uma pausa curta. — Compre tudo o que precisar. Depois conversamos. Tenho que trabalhar. Trabalhar à uma da manhã. Claro. Quando cheguei em casa, o cansaço venceu qualquer tentativa de lógica. Dormi quase imediatamente. No dia seguinte, paguei contas atrasadas. Fui ao shopping. Comprei roupas novas — algo que eu não fazia havia anos. Senti vergonha ao lembrar que não tinha nada adequado para encontrá-lo. Eu economizava tudo. Cada centavo. Tudo para o projeto do apartamento com Jorge. Jorge. Duas semanas depois, uma transferência caiu na minha conta. Todo o dinheiro. Cada centavo que ele havia roubado de mim. Meu corpo gelou. Arrependimento? Não tive respostas. Fui até o espelho. A mulher refletida ali parecia outra. Cabelo novo. Perfume novo. Roupas novas. Tudo pago por Jonny. Tudo oferecido por ele. O telefone tocou. Atendi no primeiro toque. — Nunca saia sem esse telefone — a voz dele soou firme. — Nunca deixe de atender. Em hipótese alguma. A ligação caiu. Fiquei ali, com o aparelho colado ao ouvido, sentindo o peso daquelas palavras se acomodar dentro de mim. Cuidado demais também pode ser prisão. Mas mesmo assim, eu sabia: Se ele ligasse de novo, eu atenderia.






