Mundo de ficçãoIniciar sessãoO Hospital Santa Luzia está às escuras. No meio de uma tempestade no Rio de Janeiro, a cirurgiã Clara Medeiros opera uma criança sob a luz de lanternas, enquanto os oficiais de justiça batem à porta para lacrar o hospital de seu falecido pai. Com o oxigênio chegando ao fim e centenas de vidas em risco, a última esperança de Clara surge na forma de um homem misterioso e um cheque de dez milhões de dólares. A proposta é ultrajante: 365 dias de casamento com Zayn Al-Zahir, o gélido e implacável Sheik de Al-Zahir. Ele precisa de uma esposa de reputação impecável para garantir o trono; ela precisa do dinheiro para impedir que seus pacientes morram. Clara jurou que jamais se venderia, mas o silêncio dos monitores parando a obriga a aceitar o pacto. Agora, ela deve trocar o jaleco por sedas e o Rio pelo deserto. Em um palácio de ouro e segredos, Clara descobrirá que o contrato proíbe sentimentos, mas não impede o desejo. Conseguirá ela sobreviver a um ano nas garras do Sheik sem perder seu coração para o homem que a comprou?
Ler maisO som do monitor cardíaco era o único metrônomo que mantinha o equilíbrio mental de Clara Medeiros. Bip. Bip. Bip. Um ritmo constante, mas frágil, como a própria estrutura do Hospital Santa Luzia.
— Afastador, agora — a voz de Clara saiu firme, embora suas pernas latejassem após doze horas de plantão ininterrupto. O ar no centro cirúrgico estava pesado. O sistema de ar-condicionado havia morrido dois dias atrás, e o calor úmido do Rio de Janeiro transformava o ambiente em uma estufa de ansiedade. Gotas de suor brotavam na testa de Clara, por baixo da touca cirúrgica, mas ela não ousava desviar os olhos da cavidade abdominal do pequeno Gabriel, um menino de sete anos com um apêndice prestes a explodir. — Doutora... — sussurrou Paulo, seu instrumentador e amigo de longa da vida. — A luz. Clara olhou para cima por um segundo. A lâmpada fluorescente acima da mesa de cirurgia oscilava de forma frenética, emitindo um zumbido elétrico que parecia um aviso de morte. — O gerador não vai aguentar, Paulo. Eu sei — disse ela, voltando ao trabalho com os dedos ágeis. — Mas eu não vou fechar esse paciente pela metade. De repente, o destino riu da sua determinação. Um estalo seco ecoou pelo corredor, seguido por um silêncio absoluto que parecia pesar toneladas. O monitor cardíaco calou-se. A luz principal apagou, mergulhando a sala em uma escuridão total, onde o único cheiro era o do iodo e do medo. — Ninguém se mexe! — gritou Clara, a voz carregada de autoridade médica. — Paulo, as lanternas! Em segundos, três enfermeiros sacaram seus celulares. Fachos de luz branca e instável cortaram o escuro, focando no campo cirúrgico sangrento. Era uma cena de guerra em tempos de paz. A Dra. Clara Medeiros, herdeira de um dos legados médicos mais respeitados da região, estava operando uma criança sob a luz trêmula de aparelhos de telefone. — Eu preciso de estabilidade! — ela ordenou, as mãos movendo-se com uma precisão que desafiava a falta de visibilidade. — Se eu errar essa sutura por um milímetro, ele terá uma sepse antes do amanhecer. Segurem firme essa luz! Os minutos que se seguiram pareceram horas. O único som era a respiração pesada da equipe e o clique metálico das pinças. Clara sentia o cheiro de antisséptico barato misturado ao cheiro de mofo que as paredes do hospital exalavam. Cada fibra do seu ser clamava por socorro, mas não havia ninguém para chamar. Seu pai, o fundador do Santa Luzia, morrera há dois anos, deixando-a com um hospital filantrópico e uma montanha de dívidas que ela tentava escalar com as mãos nuas. — Terminei. Fechando — suspirou ela, finalmente, sentindo a adrenalina baixar e o tremor nas mãos começar. — Levem-no para a recuperação. Usem as baterias portáteis nos monitores. Não deixem esse menino ficar sem oxigênio, nem que precisem ambuzar ele manualmente a noite toda. Clara saiu da sala de cirurgia e retirou a máscara, revelando um rosto jovem, mas marcado por olheiras profundas. Seus olhos cor de mel estavam opacos de exaustão. Ela caminhou pelo corredor mal iluminado, onde as paredes descascadas pareciam chorar umidade, até a recepção. O saguão estava lotado. Mães segurando bebês febris sob a luz de velas improvisadas, idosos tossindo e o som constante de goteiras batendo em baldes de plástico. Mas o que paralisou o coração de Clara foi a figura de um homem de terno cinza parado junto à mesa de entrada, alheio à dor ao seu redor. Ele segurava uma prancheta de metal e exibia um distintivo no peito. — Dra. Medeiros? — o homem perguntou, sem qualquer pingo de empatia na voz burocrática. — Sou eu. O que houve agora? A vigilância sanitária de novo? — ela perguntou, limpando o suor da testa com o braço do jaleco manchado. — Oficial de Justiça, doutora. — Ele estendeu um envelope pardo com o selo do Tribunal de Justiça. — Ordem de despejo e lacração imediata. A Light cortou o fornecimento por falta de pagamento acumulado e o banco executou a garantia do imóvel. Vocês têm seis horas para transferir os pacientes e desocupar o prédio. Amanhã de manhã, os oficiais retornam para passar a corrente nos portões. Clara sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ela se apoiou no balcão de fórmica descascada para não cair, sentindo a textura áspera da madeira podre. — Seis horas? Você está brincando? Eu acabei de sair de uma cirurgia! Eu tenho crianças em pós-operatório! Eu tenho uma ala de hemodiálise com pacientes que não podem ser movidos sem suporte! Se eu tirar essas pessoas daqui agora, sem planejamento, elas morrem no caminho! — Eu sinto muito, doutora. Ordens são ordens. O Santa Luzia não pertence mais à sua família ou à sua fundação. Ele pertence ao consórcio de credores. Meu trabalho termina aqui. O oficial se retirou com passos rápidos, desaparecendo na chuva que começava a açoitar a porta de vidro, deixando o envelope sobre o balcão como se fosse uma sentença de morte. Clara olhou ao redor. Aquelas paredes guardavam a história de seu pai, o sonho de atender quem a cidade ignorava. Ela viu o quadro de seu pai na parede, um retrato em preto e branco de um homem sorridente que dedicou a vida aos pobres. — Doutora... — a voz de Paulo a trouxe de volta. Ele ainda usava a roupa azul do centro cirúrgico, o rosto pálido sob a penumbra. — Paulo... — Clara sussurrou, a voz embargada. — Eles vão fechar tudo. O oficial acabou de nos dar seis horas. — Seis horas? — Paulo repetiu, incrédulo, olhando para a sala de espera cheia de gente que não tinha para onde ir. — Para onde vamos levar essas pessoas? O Miguel Couto está superlotado, o Souza Aguiar não atende nem o telefone... Doutora, se cortarem o oxigênio central, o Gabriel e os outros na UTI... eles não têm chance. Clara sentiu uma lágrima quente escorrer e a limpou furiosamente com o dorso da mão. O desespero era um gosto metálico em sua boca. — Comece a ligar para as centrais de regulação — ela ordenou, tentando recuperar a voz de comando, embora o coração estivesse estraçalhado. — Ligue para as empresas de ambulância particulares também. Implore por crédito. Diga que eu assino qualquer nota promissória, que eu empenho meu carro, minha casa... qualquer coisa. Mas não podemos deixar essas pessoas morrerem no escuro, Paulo. Não no meu turno. — Doutora... ninguém mais aceita nosso crédito. Estamos devendo até para o fornecedor de gaze e luvas. O estoque de oxigênio acaba em três horas. — Paulo baixou a cabeça, o desespero vencendo a esperança. — É o fim, não é? O legado do seu pai... acabou. Clara caminhou até a porta de vidro, olhando a tempestade lá fora, sentindo-se tão pequena quanto uma formiga prestes a ser esmagada. — Eu não sei, Paulo. Eu realmente não sei o que fazer.O almoço foi organizado com toda a pompa de uma recepção diplomática.Toalhas brancas esticadas com perfeição, taças de cristal reluzindo ao sol como se estivessem em cena, garçons de luvas impecáveis deslizavam silenciosos entre as mesas com a precisão de um balé ensaiado. No jardim dos fundos, cortinas de linho balançavam ao vento leve, enquanto arranjos florais em tons pastel davam o toque de falsa delicadeza ao teatro montado. Tudo ali exalava uma sofisticação ensurdecedora — e artificial.Isabelle observava tudo com olhos vazios, como quem assiste a um espetáculo do qual não se lembra de ter aceitado o papel principal. A maquiagem perfeita escondia as olheiras mal dormidas. O vestido apertava sua cintura com a mesma rigidez com que o controle sobre sua vida estava sendo imposto. Nada naquele cenário parecia real. Nem os sorrisos, nem os aplausos, nem os brindes. Nada, exceto o aperto que se formava em seu estômago, ácido e persistente, como se seu próprio corpo a alertasse de que
Rafaela chegou duas horas depois, entrando pela porta lateral da mansão como fazia desde a adolescência, quando aprendeu que, naquela casa, cada olhar carregava julgamento, cada corredor tinha ouvidos. Era seu ritual silencioso de rebeldia: evitar a entrada principal, os olhares dos empregados, os comentários dos parentes.Ela nunca pertencerá àquele mundo ou, pelo menos, fingia muito bem que não. Era uma Lins por sangue, mas fazia questão de jamais ser uma por comportamento.Vestia jeans, uma camisa de linho amassada, o cabelo preso em um coque bagunçado. Livre. Real. Um contraste quase violento com os corredores perfeitos daquela mansão asséptica.— Que cara é essa? — disse assim que entrou no quarto, largando a bolsa de couro gasto sobre a poltrona. — Parece que alguém morreu.Isabelle ainda estava sentada à beira da cama, com os joelhos dobrados e as mãos entrelaçadas no colo. Seus olhos fixaram um ponto indistinto do chão, como se ali houvesse um abismo apenas ela pudesse ver.—
O café da manhã estava posto como um banquete silencioso.Pães artesanais recém-saídos do forno, frutas cortadas com precisão quase cirúrgica, ovos mexidos cremosos com toques de trufas brancas, geleias francesas servidas em pequenos potes de cristal com etiquetas douradas. A mesa principal da mansão Lins parecia uma pintura estática — não apenas bela, mas meticulosamente coreografada. Um espetáculo de controle.Cada garfo alinhado. Cada taça em seu exato reflexo sobre o mármore italiano. Cada objeto no lugar como se uma simples migalha fora de posição pudesse desmoronar os alicerces daquela casa de segredos e aparências.Isabelle estava sentada à mesa, imóvel, como se também fosse parte da decoração. As mãos repousavam no colo, os ombros eretos, o olhar distante. Entre as porcelanas de Limoges e o buquê de flores frescas no centro da mesa, ela parecia uma boneca bem treinada. Mas por dentro, tudo nela gritava.A noite anterior ainda latejava em sua mente, como uma ferida exposta que
A chuva não havia dado trégua; parecia que o céu do Rio de Janeiro decidira desabar junto com as esperanças de Clara. Após expulsar Malik, o silêncio do hospital tornou-se insuportável. Movida por um desespero frio, ela pegou as chaves de seu carro antigo e dirigiu sob o temporal até o apartamento de Dr. Arnaldo, o gerente regional do banco que fora amigo de seu pai. Ela o acordara por telefone, implorando por cinco minutos. A reunião foi curta e brutal, no hall do edifício de luxo na Barra da Tijuca. Arnaldo, de pijama sob um robe de seda, não conseguiu sustentar o olhar da filha de seu velho amigo. — Clara, eu tentei — ele disse, com uma voz carregada de uma piedade inútil. — Mas o consórcio que comprou suas notas promissórias não quer o pagamento da parcela. Eles querem o terreno. A dívida acumulada, com os juros de mora e as multas que você assinou na última renovação, bateu doze milhões de reais. — Doze milhões? Arnaldo, isso é o triplo do valor original! — É o mercado, Clara.





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