Mundo ficciónIniciar sesiónO escritório de Clara era um cubículo sufocante, entulhado de prontuários amarelados e o cheiro persistente de café frio. Malik, o homem que parecia ter saído de um editorial de luxo, ocupava o espaço como se fosse o dono de cada centímetro quadrado de poeira ali dentro. A luz da lanterna de mão que Clara apoiava sobre a mesa começava a oscilar, as pilhas perdendo a força, projetando sombras longas e distorcidas nas paredes descascadas.
Malik colocou a maleta de couro sobre a mesa de carvalho riscada. O clique das travas metálicas soou como o engatilhar de uma arma no silêncio daquela ala morta. — Vá direto ao ponto, Sr. Malik — Clara disse, mantendo-se de pé, os braços cruzados sobre o peito para esconder o tremor de exaustão nas mãos. — Como eu disse, o tempo é um luxo que eu não tenho. Malik não se apressou. Ele retirou um documento encadernado em couro azul-marinho com o brasão de Al-Zahir em relevo dourado. Ao lado, deslizou um cheque. O papel branco brilhava sob o facho moribundo da lanterna. — O Sheik Zayn Al-Zahir é um homem de visões amplas, Dra. Medeiros. Ele precisa assumir o trono de seu país, mas as tradições de Al-Zahir exigem um soberano que projete estabilidade e progresso. Ele está investindo bilhões no novo Centro Médico Real e precisa de uma consorte que não seja apenas uma figura decorativa, mas uma mente técnica capaz de validar seu projeto humanitário diante do Conselho. — Malik fez uma pausa, fixando os olhos nos dela. — Ele buscou no mundo inteiro uma médica com seu currículo e sua resiliência. Alguém que opere sob luz de celulares não é apenas uma cirurgiã; é uma força da natureza. Clara sentiu uma pontada de irritação, mas a justificativa profissional a pegou de guarda aberta. — E o valor para comprar essa "força da natureza" seria esse? — Ela apontou para o cheque com desdém. — Dez milhões de dólares pelo contrato inicial. — Malik não piscou. — O acordo é simples: um ano de sua vida. A senhora se casará com o Sheik em uma cerimônia oficial. Viverá no palácio, cumprindo uma agenda de eventos de caridade e representação médica. Após trezentos e sessenta e cinco dias, o divórcio será assinado e a senhora retornará ao Brasil com o Santa Luzia totalmente reformado e uma fortuna pessoal. Nada de sentimentos, nada de intimidade obrigatória. Apenas um contrato de conveniência de alto nível. O silêncio que se seguiu foi denso, apenas interrompido pelo som da chuva fustigando a janela de vidro ralo. Clara sentiu o sangue subir para o rosto, uma queimação que começou na base do pescoço. A fúria, pura e líquida, substituiu o cansaço. — Um contrato de conveniência? — ela repetiu, a voz subindo de tom, ecoando nas paredes estreitas. — Você entra no meu hospital, no meio de uma tragédia, e me oferece dinheiro para ser uma esposa de aluguel? Para ser a ferramenta que o seu patrão precisa para convencer um conselho de que ele é um homem de família? — Doutora, seja pragmática. O seu legado está morrendo lá fora... — Pragmática? — Clara deu um passo à frente, batendo a mão na mesa. O facho da lanterna falhou por um segundo, mergulhando-os quase na escuridão total. — Eu passei dez anos estudando, operando em condições que fariam o seu Sheik desmaiar de horror! Eu sou uma médica, Sr. Malik. Eu não sou uma mercadoria de luxo que vocês podem vir buscar no Terceiro Mundo para decorar um palácio no deserto! Malik manteve a expressão imperturbável, o que só serviu para incendiar ainda mais a indignação dela. Ele consultou o relógio de pulso, um modelo de platina que brilhava na penumbra. — Doutora, não use o orgulho para mascarar o óbito deste hospital. Sejamos honestos: o seu oxigênio central acaba em menos de duas horas. — Malik caminhou até a porta. — Eu estarei na esquina. Mas sabemos que a senhora não tem até o amanhecer. A dignidade é um conceito nobre, mas ela não ajuda um paciente na UTI a respirar quando os tanques esvaziarem. — Saia daqui. Agora! — Clara gritou, as lágrimas de raiva finalmente transbordando. — Pegue seu cheque, seu contrato de escravidão moderna e saia do meu hospital! Eu vou dar um jeito. Eu sempre dou um jeito! Malik fechou a maleta com um estalo seco. — O desespero tem um gosto amargo, Clara. Quando o silêncio tomar conta deste corredor daqui a pouco, a senhora verá que princípios não bombeiam corações. Ele saiu, e o perfume de sândalo foi substituído pelo cheiro acre de ozônio e mofo. Clara fechou a porta com força e encostou as costas na madeira, deslizando até o chão. Ela enterrou o rosto nas mãos e soluçou, um som quebrado que se perdeu no rugido do trovão lá fora. Paulo abriu a porta instantes depois, o rosto pálido iluminado pela tela do próprio celular. — Clara? O que aconteceu? Ele deu o dinheiro? Clara olhou para o amigo, a alma ferida. — Ele tentou me comprar, Paulo. Ele queria que eu me vendesse por um ano. — E o que você disse? — Paulo perguntou, a esperança brilhando cruelmente em seus olhos. — Eu o expulsei — ela respondeu, a voz fraca. — Eu não sou um objeto. Paulo olhou para o corredor, onde a última luz de emergência piscava em vermelho, sinalizando o fim da bateria. — Então é isso — ele sussurrou, a voz desprovida de vida. — Em duas horas, o oxigênio acaba. Nós acabamos de assinar a certidão de óbito de cada paciente naquela ala.






