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O som do monitor cardíaco era o único metrônomo que mantinha o equilíbrio mental de Clara Medeiros. Bip. Bip. Bip. Um ritmo constante, mas frágil, como a própria estrutura do Hospital Santa Luzia.
— Afastador, agora — a voz de Clara saiu firme, embora suas pernas latejassem após doze horas de plantão ininterrupto. O ar no centro cirúrgico estava pesado. O sistema de ar-condicionado havia morrido dois dias atrás, e o calor úmido do Rio de Janeiro transformava o ambiente em uma estufa de ansiedade. Gotas de suor brotavam na testa de Clara, por baixo da touca cirúrgica, mas ela não ousava desviar os olhos da cavidade abdominal do pequeno Gabriel, um menino de sete anos com um apêndice prestes a explodir. — Doutora... — sussurrou Paulo, seu instrumentador e amigo de longa da vida. — A luz. Clara olhou para cima por um segundo. A lâmpada fluorescente acima da mesa de cirurgia oscilava de forma frenética, emitindo um zumbido elétrico que parecia um aviso de morte. — O gerador não vai aguentar, Paulo. Eu sei — disse ela, voltando ao trabalho com os dedos ágeis. — Mas eu não vou fechar esse paciente pela metade. De repente, o destino riu da sua determinação. Um estalo seco ecoou pelo corredor, seguido por um silêncio absoluto que parecia pesar toneladas. O monitor cardíaco calou-se. A luz principal apagou, mergulhando a sala em uma escuridão total, onde o único cheiro era o do iodo e do medo. — Ninguém se mexe! — gritou Clara, a voz carregada de autoridade médica. — Paulo, as lanternas! Em segundos, três enfermeiros sacaram seus celulares. Fachos de luz branca e instável cortaram o escuro, focando no campo cirúrgico sangrento. Era uma cena de guerra em tempos de paz. A Dra. Clara Medeiros, herdeira de um dos legados médicos mais respeitados da região, estava operando uma criança sob a luz trêmula de aparelhos de telefone. — Eu preciso de estabilidade! — ela ordenou, as mãos movendo-se com uma precisão que desafiava a falta de visibilidade. — Se eu errar essa sutura por um milímetro, ele terá uma sepse antes do amanhecer. Segurem firme essa luz! Os minutos que se seguiram pareceram horas. O único som era a respiração pesada da equipe e o clique metálico das pinças. Clara sentia o cheiro de antisséptico barato misturado ao cheiro de mofo que as paredes do hospital exalavam. Cada fibra do seu ser clamava por socorro, mas não havia ninguém para chamar. Seu pai, o fundador do Santa Luzia, morrera há dois anos, deixando-a com um hospital filantrópico e uma montanha de dívidas que ela tentava escalar com as mãos nuas. — Terminei. Fechando — suspirou ela, finalmente, sentindo a adrenalina baixar e o tremor nas mãos começar. — Levem-no para a recuperação. Usem as baterias portáteis nos monitores. Não deixem esse menino ficar sem oxigênio, nem que precisem ambuzar ele manualmente a noite toda. Clara saiu da sala de cirurgia e retirou a máscara, revelando um rosto jovem, mas marcado por olheiras profundas. Seus olhos cor de mel estavam opacos de exaustão. Ela caminhou pelo corredor mal iluminado, onde as paredes descascadas pareciam chorar umidade, até a recepção. O saguão estava lotado. Mães segurando bebês febris sob a luz de velas improvisadas, idosos tossindo e o som constante de goteiras batendo em baldes de plástico. Mas o que paralisou o coração de Clara foi a figura de um homem de terno cinza parado junto à mesa de entrada, alheio à dor ao seu redor. Ele segurava uma prancheta de metal e exibia um distintivo no peito. — Dra. Medeiros? — o homem perguntou, sem qualquer pingo de empatia na voz burocrática. — Sou eu. O que houve agora? A vigilância sanitária de novo? — ela perguntou, limpando o suor da testa com o braço do jaleco manchado. — Oficial de Justiça, doutora. — Ele estendeu um envelope pardo com o selo do Tribunal de Justiça. — Ordem de despejo e lacração imediata. A Light cortou o fornecimento por falta de pagamento acumulado e o banco executou a garantia do imóvel. Vocês têm seis horas para transferir os pacientes e desocupar o prédio. Amanhã de manhã, os oficiais retornam para passar a corrente nos portões. Clara sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ela se apoiou no balcão de fórmica descascada para não cair, sentindo a textura áspera da madeira podre. — Seis horas? Você está brincando? Eu acabei de sair de uma cirurgia! Eu tenho crianças em pós-operatório! Eu tenho uma ala de hemodiálise com pacientes que não podem ser movidos sem suporte! Se eu tirar essas pessoas daqui agora, sem planejamento, elas morrem no caminho! — Eu sinto muito, doutora. Ordens são ordens. O Santa Luzia não pertence mais à sua família ou à sua fundação. Ele pertence ao consórcio de credores. Meu trabalho termina aqui. O oficial se retirou com passos rápidos, desaparecendo na chuva que começava a açoitar a porta de vidro, deixando o envelope sobre o balcão como se fosse uma sentença de morte. Clara olhou ao redor. Aquelas paredes guardavam a história de seu pai, o sonho de atender quem a cidade ignorava. Ela viu o quadro de seu pai na parede, um retrato em preto e branco de um homem sorridente que dedicou a vida aos pobres. — Doutora... — a voz de Paulo a trouxe de volta. Ele ainda usava a roupa azul do centro cirúrgico, o rosto pálido sob a penumbra. — Paulo... — Clara sussurrou, a voz embargada. — Eles vão fechar tudo. O oficial acabou de nos dar seis horas. — Seis horas? — Paulo repetiu, incrédulo, olhando para a sala de espera cheia de gente que não tinha para onde ir. — Para onde vamos levar essas pessoas? O Miguel Couto está superlotado, o Souza Aguiar não atende nem o telefone... Doutora, se cortarem o oxigênio central, o Gabriel e os outros na UTI... eles não têm chance. Clara sentiu uma lágrima quente escorrer e a limpou furiosamente com o dorso da mão. O desespero era um gosto metálico em sua boca. — Comece a ligar para as centrais de regulação — ela ordenou, tentando recuperar a voz de comando, embora o coração estivesse estraçalhado. — Ligue para as empresas de ambulância particulares também. Implore por crédito. Diga que eu assino qualquer nota promissória, que eu empenho meu carro, minha casa... qualquer coisa. Mas não podemos deixar essas pessoas morrerem no escuro, Paulo. Não no meu turno. — Doutora... ninguém mais aceita nosso crédito. Estamos devendo até para o fornecedor de gaze e luvas. O estoque de oxigênio acaba em três horas. — Paulo baixou a cabeça, o desespero vencendo a esperança. — É o fim, não é? O legado do seu pai... acabou. Clara caminhou até a porta de vidro, olhando a tempestade lá fora, sentindo-se tão pequena quanto uma formiga prestes a ser esmagada. — Eu não sei, Paulo. Eu realmente não sei o que fazer.






