Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva não havia dado trégua; parecia que o céu do Rio de Janeiro decidira desabar junto com as esperanças de Clara. Após expulsar Malik, o silêncio do hospital tornou-se insuportável. Movida por um desespero frio, ela pegou as chaves de seu carro antigo e dirigiu sob o temporal até o apartamento de Dr. Arnaldo, o gerente regional do banco que fora amigo de seu pai. Ela o acordara por telefone, implorando por cinco minutos.
A reunião foi curta e brutal, no hall do edifício de luxo na Barra da Tijuca. Arnaldo, de pijama sob um robe de seda, não conseguiu sustentar o olhar da filha de seu velho amigo. — Clara, eu tentei — ele disse, com uma voz carregada de uma piedade inútil. — Mas o consórcio que comprou suas notas promissórias não quer o pagamento da parcela. Eles querem o terreno. A dívida acumulada, com os juros de mora e as multas que você assinou na última renovação, bateu doze milhões de reais. — Doze milhões? Arnaldo, isso é o triplo do valor original! — É o mercado, Clara. Amanhã de manhã, os oficiais retornam para lacrar as portas. O banco não pode mais injetar um centavo em um prédio que já foi dado como garantia. Transfira seus pacientes. É o fim. Clara dirigiu de volta para o hospital no automático, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ao estacionar na calçada esburacada do Santa Luzia, ela viu a recepção envolta em sombras, iluminada apenas por velas que os acompanhantes dos pacientes haviam trazido. Ao entrar, o som do monitor de oxigênio de reserva na ala pediátrica começou a emitir um apito intermitente e agudo. O som da morte iminente. — Doutora! — Paulo surgiu das sombras, o rosto pálido. — O estoque central acabou. Estamos no último cilindro portátil da UTI. Temos... talvez quarenta minutos. O Gabriel está começando a se agitar, ele sente a falta de ar. Clara caminhou até o leito do menino. No escuro, iluminado apenas pelo brilho azulado e fraco do monitor, ela viu o pequeno Gabriel. Ele segurou o dedo dela, o aperto fraco, mas confiante. Ele acreditava nela. Para aquela criança, Clara era a barreira entre ele e o abismo. Ela soltou a mão do menino e sentiu o peso do mundo esmagar seus ombros. Ela olhou para o envelope de despejo sobre o balcão da enfermaria. Doze milhões de reais era uma fortuna impossível. Dez milhões de dólares era a salvação. Clara caminhou até a janela da recepção. Lá fora, na esquina, sob a luz de um poste trêmulo, o sedã preto de Malik permanecia imóvel. Paciente. Ele não era um abutre; era o único bote salva-vidas em um naufrágio. — Eu vou salvar este hospital, Paulo — ela disse, a voz subitamente gélida. — Como? O banco aceitou uma carência? — Não. — Ela limpou uma lágrima solitária e ajeitou o jaleco manchado de sangue. — Eu acabei de descobrir que o meu preço é exatamente o valor deste hospital. Clara abriu as portas de vidro e saiu para a chuva. Ela não correu. Caminhou com a cabeça erguida, sentindo a água gelada lavar a médica idealista para dar lugar à mulher que estava prestes a se tornar uma mercadoria real. Ao chegar ao carro, o vidro escuro baixou silenciosamente. — O oxigênio acaba em quarenta minutos, Malik — Clara disse, sem preâmbulos, a voz firme como se desse uma ordem cirúrgica. — Se um único paciente meu sofrer dano cerebral por hipóxia, o contrato é nulo. Diga ao seu Sheik que eu aceito. Mas o primeiro caminhão de suprimentos tem que chegar antes que eu entre neste carro. Malik não sorriu, mas houve um brilho de respeito em seus olhos. Ele pegou um rádio de comunicação de curto alcance. — Código Ouro. Liberem os caminhões. Agora. Dez minutos depois, o som de sirenes cortou o barulho da chuva. Dois caminhões de logística privada, carregados de oxigênio e geradores industriais, dobraram a esquina em alta velocidade, seguidos por uma equipe de técnicos de uniforme escuro. Clara observou, paralisada, enquanto os homens saltavam e começavam a conectar os tubos ao sistema do hospital. Era o poder do dinheiro de Zayn Al-Zahir em ação. A eficiência era assustadora. — Os depósitos foram feitos, Dra. Medeiros. As dívidas do Santa Luzia não existem mais — Malik disse, abrindo a porta do passageiro. — Agora, a senhora pertence a Al-Zahir. Clara olhou uma última vez para o hospital. As luzes de emergência internas começaram a se acender, uma a uma, conforme o gerador novo entrava em operação. O legado de seu pai estava seguro. Ela entrou no carro, o jaleco úmido pesando sobre o corpo, e o sedã partiu em direção ao aeroporto, deixando para trás a vida que ela conhecia para abraçar uma prisão de ouro.






