Mundo ficciónIniciar sesiónClara apoiou as mãos na porta de vidro do hospital, o corpo exausto, a mente em frangalhos. A chuva forte do Rio de Janeiro parecia um lamento incessante, ecoando o vazio em seu peito. O olhar de Paulo, misto de pena e impotência, era um espelho da sua própria alma. O legado de seu pai, o sonho de uma vida inteira dedicada aos desamparados, desmoronava em seis horas.
— Não podemos deixar as máquinas pararem, Paulo. Não com o Gabriel na UTI – a voz de Clara era um sussurro rouco. — Ligue de novo. Para todos. Para qualquer um. Enquanto Paulo corria de volta para o telefone, Clara sentiu-se um peso morto. O cheiro de mofo e desinfetante parecia sufocá-la. Seu olhar, perdido na rua escura e alagada, viu algo que destoava daquela miséria. Um sedã preto, blindado e reluzente, estacionou abruptamente na poça de lama em frente à calçada. Não era um carro de hospital, nem da polícia. Era um veículo que exalava uma opulência fria, totalmente fora de lugar ali. Dois homens corpulentos, vestidos em ternos escuros, desceram apressadamente, segurando guarda-chuvas imensos, e abriram a porta traseira. Um terceiro homem emergiu do carro. Ele não era um médico, nem um oficial. Era um predador elegante em meio à carcaça do hospital. Caminhava com uma segurança que desafiava a chuva e a lama, seus sapatos de couro italiano imunes à sujeira. Ao entrar na recepção mal iluminada, o burburinho de vozes e o choro dos bebês cessaram. Um silêncio pesado tomou conta do saguão. O homem tinha traços árabes, pele olivácea impecável e olhos tão escuros que pareciam dois abismos, varrendo o ambiente com uma calma perturbadora. O perfume que o acompanhava, uma mistura de sândalo e algo cítrico e extremamente caro, invadiu o ar rarefeito do hospital. Ele parou a poucos metros de Clara, seus olhos fixos nos dela. Não havia pena, apenas uma análise fria e calculista. — Dra. Clara Medeiros? — a voz grave e polida, com um sotaque exótico, quebrou o silêncio. Clara endireitou a postura, o jaleco manchado de sangue seco tornando-se sua única armadura. — Sim, sou eu. Se veio para o despejo, o outro... o oficial de justiça já saiu — disparou, sem rodeios. — E se veio procurar atendimento, o hospital está fechando. O homem não se abalou. Ele a analisou de cima a baixo, detendo-se nas olheiras, nas mãos calejadas, na mecha de cabelo castanho que escapava do coque. Ele sorriu, um sorriso pequeno e quase imperceptível, que não atingiu seus olhos. — Meu nome é Malik. Sou o representante legal de Sua Alteza Real, o Sheik Zayn Al-Zahir, de Al-Zahir. — Ele fez um gesto sutil, e um de seus assistentes colocou uma maleta de couro escuro sobre o balcão da recepção. — Eu não vim fechar o seu hospital, doutora. Muito pelo contrário. Clara franziu a testa, a desconfiança subindo à garganta. Era uma situação surreal demais para ser real. — E o que um Sheik do outro lado do mundo quer com um hospital falido no subúrbio do Rio de Janeiro, Sr. Malik? O Santa Luzia não está à venda. Malik inclinou a cabeça levemente, sem perder a compostura. — O Sheik Zayn tem um interesse... particular na sua situação, doutora. Ele tem acompanhado seu trabalho. E ele tem uma proposta. Para a senhora. Em particular. Ele fez um gesto com a cabeça, indicando um pequeno escritório improvisado, com a porta semiaberta. Clara hesitou. O instinto gritava perigo, mas o desespero sussurrava esperança. — É urgente, Dra. Medeiros. O tempo, como a senhora sabe, não está a seu favor. Clara olhou para trás, para a recepção cheia de pacientes, para Paulo, que agora a observava com uma mistura de medo e curiosidade. A vida de todos eles dependia daquele momento. — Tudo bem — ela finalmente disse, sentindo um calafrio na espinha. — Mas que seja rápido. Eu não tenho muito tempo. Ela o guiou até a pequena sala, sentindo o peso do olhar de Malik em suas costas. A porta se fechou atrás deles, isolando-os do caos do hospital. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, preenchido apenas pelo zumbido distante de um aparelho na UTI. Malik abriu a maleta de couro. Dentro, sobre um forro de seda, jaziam um documento e um cheque. Um cheque com um valor que fez o coração de Clara parar por um instante.






