Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle jurou nunca mais amar. Ela só precisava de um motivo para continuar vivendo. Heitor é um CEO poderoso, mas quebrado. Abandonado pela esposa com dois filhos pequenos, ele transformou seu coração em gelo e sua casa em uma fortaleza de solidão. Ele não precisa de uma babá; ele precisa de um milagre. Alice perdeu tudo. Após lutar em vão contra o câncer da filha, restou-lhe apenas o luto e o desespero. Ao aceitar o emprego na mansão de Heitor, ela não esperava que o choro de dois órfãos de mãe fosse o único som capaz de preencher o vazio em seu peito. Em uma semana, ela mudou a casa. Em um mês, ela mudou a alma do CEO. Heitor nunca repetia encontros, mas agora não consegue imaginar a vida sem o olhar amendoado da mulher que curou seus filhos. Mas o que acontece quando a ex-mulher decide voltar para reclamar o lugar que nunca mereceu? Será o amor de Alice forte o suficiente para vencer a manipulação de quem só conhece a ganância?
Ler maisO cheiro de hospital sempre seria, para Alice, o cheiro da despedida. O bip constante dos aparelhos, que por meses foi a trilha sonora de sua angústia, finalmente havia cessado. O silêncio que se seguiu era pior. Era ensurdecedor.
Alice encarou o leito vazio. A pequena cama, agora arrumada com lençóis brancos e frios, não guardava mais o corpo frágil de sua filha. Ela passou a mão pelos próprios braços, sentindo o peso da ausência. Tinha vendido tudo — a casa, os móveis, até as lembranças mais queridas — para pagar um tratamento que, no fim, não conseguiu vencer a morte. Com uma única mala gasta na mão e os olhos amendoados nublados por uma tristeza profunda, ela atravessou o corredor da oncologia pela última vez. Ela não tinha para onde ir, não tinha um centavo no bolso e seu coração estava em frangalhos. Mas, enquanto caminhava para a saída, uma única certeza a mantinha de pé: ela precisava sobreviver. Nem que fosse para honrar a memória da pequena que se foi. ________________ A mansão Albuquerque, encravada em um dos condomínios mais luxuosos da cidade, era um monumento à frieza. Paredes de vidro do chão ao teto, mármore branco e móveis de design que pareciam nunca ter sido tocados. Mas, naquela manhã de segunda-feira, a estética minimalista fora substituída por um cenário de guerra doméstica. Heitor Albuquerque, o CEO cujo nome fazia concorrentes tremerem em reuniões de conselho, sentia que estava prestes a perder sua sanidade. Ele tinha 1,88m de altura e uma estrutura física que impunha respeito em qualquer lugar, mas, naquele momento, sentia-se minúsculo diante do choro estridente de sua filha de um ano, Luna. — Por que ela não para? — Heitor perguntou, a voz saindo em um rosnado baixo, enquanto passava a mão nos cabelos castanhos médios, bagunçando o corte clássico old school que costumava manter impecável. — Talvez porque ela sinta que o pai dela é uma pilha de nervos — rebateu Isabela, sua irmã gêmea. Isabela era o reflexo feminino de Heitor. Tinha os mesmos olhos castanhos expressivos e o maxilar bem marcado, mas, ao contrário do irmão, ela não tinha medo de demonstrar o cansaço. Ela segurava uma mamadeira descartada enquanto tentava, sem sucesso, manter o pequeno Léo, de três anos, longe do vaso de cristal da dinastia Ming que decorava o hall. — Eu não sou uma pilha de nervos, Isabela. Eu sou um homem que tem uma empresa para gerir e dois filhos que parecem ter decidido que hoje é o dia da revolta — Heitor disse, checando o relógio de pulso caríssimo. Ele estava de terno cinza chumbo, a barba feita tão rente que a pele parecia acetinada, mas seu olhar estava exausto. — O Léo expulsou a quarta babá em dois meses, Heitor. Ele chutou a canela da pobre mulher! — Isabela exclamou, pegando Léo pelo braço antes que ele escalasse o sofá de couro legítimo. — Ela era chata! — Léo gritou, o rosto vermelho de birra. — Ela cheirava a remédio e não me deixava brincar de carrinho no corredor! Eu quero a mamãe! O nome “Letícia” flutuou no ar como um veneno. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma amargura que Heitor tentava enterrar todos os dias. Fazia quase um ano que sua ex-mulher tinha saído por aquela porta, levando suas joias e deixando para trás uma bebê de um mês e um filho traumatizado. Heitor nunca perdoaria o abandono, nem a forma como ela sequer olhou para trás. Desde então, ele se fechou. Saía com mulheres diferentes quase todas as noites, mas nunca repetia o encontro. Não havia espaço para sentimentos em sua vida, apenas para a eficiência e o controle. Controle que, agora, estava escorrendo por seus dedos. — A próxima candidata chega em cinco minutos — Isabela avisou, sentando-se exausta no degrau da escada de mármore. — Se você não contratar essa, eu vou embora, Heitor. Tenho minha própria vida, meu próprio trabalho. Eu te ajudei por um ano, mas não posso ser a mãe substituta para sempre. Heitor travou o maxilar. Ele sabia que a irmã tinha razão, mas a ideia de colocar uma estranha para cuidar de seus filhos o aterrorizava. Ele não confiava nas mulheres. Para ele, todas eram como Letícia: superficiais, interesseiras e prontas para partir no primeiro sinal de dificuldade. — Que seja. Mande-a entrar assim que chegar. Mas duvido que ela aguente o Léo por meia hora. ... Do outro lado do portão de ferro monumental, Alice apertava as alças de sua bolsa gasta. Ela sentia-se um peixe fora d’água naquele bairro onde até as árvores pareciam ter sido podadas com réguas de ouro. Seu estômago roncou, um lembrete de que sua última refeição real tinha sido há mais de vinte e quatro horas. Ela tinha vendido tudo o que possuía. O pequeno apartamento, os móveis, as poucas joias de família... tudo fora consumido pelo tratamento de câncer de sua filha. E, no fim, a única coisa que lhe restou foi uma dívida astronômica e um luto que parecia um buraco negro em seu peito. Ela olhou para o papel amassado com o endereço. O salário oferecido era surreal, e o fato de o emprego incluir moradia era a sua única salvação. Ela precisava desse emprego. Não era apenas uma questão de dinheiro; ela precisava de algo para ocupar a mente, para não se afogar na própria tristeza. Quando os portões se abriram e ela caminhou pela alameda de entrada, Alice sentiu o peso da mansão. Ao entrar, o som que a atingiu não foi o de música ambiente ou de uma casa organizada, mas o choro de uma criança em puro sofrimento. Um choro que ela conhecia bem. O choro de um bebê que precisava de conforto, não de regras. A governanta a guiou até a sala principal. O cenário que encontrou foi caótico. Um homem muito alto, de ombros largos e uma presença intimidadora, estava de pé perto da janela, de costas, passando a mão no cabelo repetidamente. Uma mulher que parecia ser sua versão feminina tentava acalmar um menino que chutava o ar. E, no centro de tudo, em um berço portátil, a pequena Luna chorava até ficar sem fôlego. Ninguém notou a entrada de Alice. Heitor estava ocupado demais tentando manter a postura fria, e Isabela estava no limite de suas forças. Alice não esperou ser anunciada. A dor do luto em seu coração, por um momento, foi silenciada pelo instinto de proteção. Ela conhecia aquele choro. Era o choro de um bebê que se sentia desconectado do mundo. Antes que Heitor pudesse se virar ou que Isabela dissesse uma palavra, Alice caminhou com passos leves, porém decididos, até o berço. — O que você pensa que está fazendo? — A voz de Heitor trovejou. Ele se virou, os olhos castanhos faiscando de irritação e surpresa. Alice não respondeu de imediato. Ela não se intimidou com o tamanho dele ou com o tom autoritário. Ela simplesmente se inclinou sobre o berço e, com uma delicadeza que parecia vir de outro mundo, passou a mão sobre a cabecinha de Luna. — Shh... calma, pequena. Eu estou aqui — sussurrou Alice. A voz dela era como veludo sobre uma ferida aberta. Luna, surpresa com o novo toque e o tom de voz suave, soluçou uma última vez e abriu os olhos, encarando Alice. Alice a pegou no colo com uma segurança natural, aninhando o corpinho da bebê contra seu peito, exatamente sobre seu coração. O silêncio caiu sobre a sala como uma cortina de teatro. Heitor travou. Ele ia expulsá-la por sua ousadia, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele nunca tinha visto Luna se acalmar tão rápido com ninguém, nem mesmo com Isabela. A mulher diante dele era baixinha, batendo mal nos seus ombros, e parecia magra demais naquele vestido simples de algodão. Seus cabelos castanhos claros tinham reflexos que lembravam o pôr do sol, e seus olhos amendoados eram tão grandes que pareciam ler a alma dele. — Quem é você? — Heitor perguntou, mas desta vez a voz não era um trovão, era apenas um sussurro confuso. Alice finalmente olhou para ele. Ela viu o homem forte e imponente, o maxilar rígido e a barba perfeita, mas também viu a exaustão em seus olhos. — Meu nome é Alice. Eu vim pela vaga de babá. Heitor sentiu um nó estranho na garganta. Ele reparou na beleza dela — uma beleza natural, sem os artifícios estéticos de Letícia. Não havia botox ali, apenas uma pele pálida e lábios carnudos que agora estavam comprimidos em uma linha de determinação. Mas o que mais o chamou a atenção foi a profunda melancolia que emanava dela, mesmo enquanto ela sorria para o bebê em seus braços. — Você acabou de fazer em dez segundos o que três profissionais treinadas não conseguiram em uma semana — observou Isabela, levantando-se e aproximando-se com curiosidade. — Você tem referências, Alice? Alice hesitou por um segundo. Suas “referências” eram o amor que dedicou à própria filha até o último suspiro, mas ela não diria isso. Não queria piedade. — Eu cuido de crianças porque as entendo, senhora. As crianças não precisam de diplomas, elas precisam de presença — respondeu Alice, mantendo a voz firme, apesar do tremor nas mãos. Léo, que assistia a tudo do sofá, caminhou lentamente até Alice. Ele parou diante dela, olhando-a de cima a baixo com a desconfiança de quem já tinha sido decepcionado muitas vezes. — Você vai me obrigar a comer brócolis? — Léo perguntou, desafiador. Alice se abaixou, ainda segurando Luna, para ficar na altura do menino. — Só se você me ajudar a descobrir se eles têm o poder de dar superforça. Dizem que os heróis comem brócolis em segredo. Léo inclinou a cabeça, processando a informação. Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios, algo que Heitor não via há dias. Heitor observava a cena em silêncio. Ele sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Era atração? Talvez. A beleza de Alice era inegável, especialmente o contraste de sua delicadeza com a força de sua postura. Mas era algo mais. Era como se, por um breve momento, o caos de sua casa tivesse sido domado por aquela estranha. — Eu não contrato ninguém sem uma investigação completa — Heitor disse, recuperando sua máscara de CEO. Ele caminhou até Alice, sua altura de 1,88m fazendo-a parecer ainda menor. Ele parou a poucos centímetros dela, sentindo um aroma leve de lavanda vindo de seus cabelos. — Mas minha irmã está certa. Você tem jeito. Ele passou a mão no cabelo, arrumando-o para trás, e fixou os olhos nos dela. — Vou te dar uma semana de teste. Se você sobreviver ao Léo e a Luna por sete dias sem pedir demissão, discutiremos um contrato permanente. Alice sustentou o olhar dele. Ela via o homem quebrado por trás do terno caro. — Eu não vou desistir, senhor Albuquerque. Eu preciso deste emprego tanto quanto seus filhos precisam de alguém que realmente os veja. Heitor sentiu um calafrio com a audácia dela. Ninguém falava com ele daquela forma. Ele estava acostumado a mulheres que tentavam agradá-lo ou que fugiam de sua intensidade. Alice não fez nenhum dos dois. — Veremos — ele disse de forma curta. — Isabela vai te mostrar seus aposentos. Começamos agora. Enquanto Isabela guiava Alice escada acima, Heitor ficou parado no meio da sala silenciosa. Ele tocou o próprio peito, onde o coração parecia bater em um ritmo diferente. Ele odiava a vulnerabilidade, e aquela mulher, com seu olhar triste e mãos gentis, parecia ser a definição de perigo para o seu mundo de gelo. Ele não sabia ainda, mas as paredes da sua fortaleza estavam começando a rachar.O sol já havia se despedido da mansão Albuquerque, deixando para trás um rastro de sombras longas e um frio que parecia emanar do próprio mármore das paredes. Heitor estacionou seu carro na garagem com um suspiro pesado que pareceu ecoar no espaço vazio do veículo de luxo. Ele passara o dia inteiro em reuniões, soterrado por gráficos, projeções de lucro e discussões sobre a fusão com os alemães, mas sua mente não parava de projetar a imagem de Alice na biblioteca na noite anterior.Ele fechou os olhos por um segundo antes de sair do carro, tentando expulsar a sensação da pele dela contra a sua. O cheiro de Alice — uma mistura de lavanda e algo que ele só conseguia descrever como "casa" — ainda parecia impregnado em seus sentidos. A cada vez que ele tentava focar em um contrato, a voz rouca dela despertando do sono voltava para assombrá-lo. Heitor era um homem que construíra sua vida sobre o pilar do controle absoluto, e sentir que uma mulher de 1,65m de altura estava abalando seus a
A manhã seguinte à gala beneficente nasceu sob um céu de um azul pálido, quase translúcido. Na mansão Albuquerque, o silêncio matinal já não era mais absoluto. Havia o som suave do vapor da máquina de café, o tilintar de louças e, ocasionalmente, o balbucio animado de Luna. Três meses haviam se passado desde que Alice começara a trabalhar ali, o que significava que faziam apenas sete meses que o mundo dela tinha desmoronado por completo.Alice estava na cozinha, concentrada em amassar uma porção de abóbora cozida no vapor. Ela preparava o almoço de Luna, que agora, aos um ano e três meses, já aceitava pequenas texturas e sabores novos. Enquanto movia o garfo ritmicamente, seus pensamentos divagavam. Ela sentia o peso da noite anterior; a presença de Heitor na biblioteca tinha sido intensa demais, um lembrete de que ela ainda possuía sentidos, apesar de se sentir morta por dentro na maior parte do tempo.Heitor saíra antes do sol nascer. O bilhete seco deixado para Isabela sobre "re
A noite da gala beneficente chegou trazendo uma brisa fria que cortava os jardins da mansão. No andar de cima, Heitor terminava de dar o nó em sua gravata borboleta diante do espelho. O smoking preto, de corte impecável, acentuava seus ombros largos e sua postura imponente, mas seu rosto não refletia a confiança de costume. As palavras de Letícia no telefone ainda ecoavam como um zumbido incômodo.Ele desceu as escadas e encontrou Alice no hall. Ela estava ajudando Léo a calçar os sapatos, pois o menino insistira que queria ver o pai "vestido de rei" antes de ele sair.Alice levantou-se e, por um instante, o tempo pareceu parar. Ela usava um cardigã simples sobre um vestido de algodão, mas ao olhar para Heitor, seus olhos se arregalaram levemente.— O senhor... o senhor está muito elegante, senhor Albuquerque — ela disse, a voz quase um sussurro.Heitor a observou. A simplicidade dela era o oposto de tudo o que ele encontraria naquela festa, e era exatamente por isso que ele sent
Três meses haviam se passado desde que o contrato de Alice fora assinado, e a mansão Albuquerque já não parecia o mesmo mausoléu de mármore de antes. Havia flores frescas nos vasos, o som de risadas infantis ecoava com mais frequência e, o mais notável, o CEO de ferro parecia estar, lentamente, derretendo. Heitor desceu as escadas naquela manhã de quarta-feira e parou por um instante para observar a cena na sala de jantar. Léo estava sentado à mesa, tentando usar o garfo sozinho sob o olhar atento de Alice. Luna, agora muito mais ativa, estava em um andador, explorando os limites do tapete persa. Alice usava um vestido floral leve, os cabelos presos em uma trança lateral que deixava alguns fios dourados soltos emoldurando seu rosto. Ela parecia mais saudável; a palidez extrema dera lugar a um viço suave, embora a tristeza em seus olhos ainda aparecesse quando ela achava que ninguém estava olhando. — Bom dia — Heitor disse, a voz gr
A manhã de segunda-feira na mansão Albuquerque tinha um peso diferente. Para Alice, era o dia da sentença. Enquanto preparava o café das crianças, ela se pegou olhando para o jardim, lembrando-se do vaso quebrado e da conversa na chuva. Ela sabia que tinha dado o seu melhor, mas o mundo de Heitor era regido por critérios que ela ainda não compreendia totalmente. Heitor, por outro lado, estava em seu escritório desde as seis da manhã. Ele não estava revisando balanços. Diante dele, na tela do computador, estava o contrato de Alice. Bastava um clique para que o departamento jurídico oficializasse a contratação por tempo indeterminado. Mas ele hesitou. Não por falta de competência dela — Alice era a melhor coisa que já acontecera àquela casa em um ano. O problema era o que ela causava nele. Heitor odiava se sentir vulnerável, e a presença dela, com aquele silêncio resiliente e os olhos que pareciam ler sua alma, era uma ameaça constante às suas defesas.
O domingo amanheceu com um céu limpo, como se a tempestade do dia anterior tivesse lavado todas as incertezas da mansão. Heitor acordou com uma resolução: ele não seria o "CEO distante" naquele dia. As palavras de Alice sobre crianças não se importarem com rachaduras ecoavam em sua mente como um desafio silencioso que ele precisava enfrentar. Ele desceu para o café usando roupas esportivas e um tênis de corrida caro. Alice já estava no jardim, estendendo uma toalha sobre a grama para que Luna pudesse brincar livremente enquanto Léo corria ao redor. — Hoje eu assumo o Léo — Heitor anunciou, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça de moletom. Alice, que estava agachada ajudando Luna a se equilibrar na grama, olhou para cima. O sol batia em seu rosto, destacando a palidez de sua pele e a doçura do seu olhar. — O senhor tem certeza, senhor Albuquerque? Pelo pouco que percebi nestes quatro dias, o Léo parece acumular toda a en
Último capítulo