Mundo de ficçãoIniciar sessãoA luz da manhã de sexta-feira entrou pelas imensas janelas da mansão Albuquerque com uma claridade impiedosa. Para Heitor, as poucas horas de sono após a madrugada agitada foram apenas um borrão. Quando o despertador tocou, ele se levantou com a disciplina de um soldado. Tomou um banho frio para afastar os vestígios da noite anterior e, em menos de trinta minutos, já estava vestindo um terno sob medida cinza-carvão.
Enquanto ajustava a gravata de seda diante do espelho, ele observou o próprio reflexo. O maxilar estava rígido, a barba feita com perfeição. Ele era, novamente, o CEO que o mercado temia. Mas, ao passar a mão no cabelo para arrumá-lo para trás, a imagem de Alice sentada na cozinha escura cruzou sua mente. Ele balançou a cabeça, afastando o pensamento. Precisava de foco; aquela fusão era o ápice de meses de trabalho exaustivo. No andar de baixo, o cenário já era de preparação. Isabela orientava os funcionários sobre o almoço que ocorreria em poucas horas. — Heitor, os alemães são pontuais — Isabela disse assim que o viu descer. Ela estava impecável em um conjunto de alfaiataria. — É sexta-feira, eles querem fechar isso e ir para o aeroporto. Garantiu que não teremos interrupções? — Alice já foi avisada — Heitor respondeu, a voz profunda e estável. — Ela sabe o que fazer. Nesse momento, Alice passou pelo corredor carregando Luna no colo, enquanto Léo segurava a barra de seu vestido simples. Ela usava uma roupa discreta, mas seus cabelos ondulados, com aqueles fios dourados pelo sol, pareciam iluminar o ambiente. Ao ver Heitor e Isabela, ela parou e fez um breve aceno com a cabeça. — Bom dia, senhor Albuquerque. Bom dia, Isabela. — Bom dia, Alice — Isabela respondeu. — Consegue manter essas ferinhas longe do escritório e da sala de jantar até as três da tarde? — Faremos um acampamento no jardim dos fundos — Alice disse, olhando para Léo, que sorriu animado. — Já preparei os lanches e as atividades. Eles não serão um problema. Heitor apenas assentiu, mantendo a distância profissional. Ele notou que, apesar do cansaço que ele sabia que ela sentia, Alice exalava uma calma constante. Ela não parecia intimidada pela movimentação da casa ou pelos homens de terno que começavam a chegar. ... A reunião começou às dez da manhã. O escritório de Heitor era um santuário de tecnologia e sobriedade, mas o clima lá dentro estava tenso. Os investidores eram exigentes. Heitor liderava a conversa com a precisão de um cirurgião, mas, por volta do meio-dia, sua atenção vacilou por um segundo. Pela parede de vidro que dava para o jardim, ele viu um movimento. Alice estava sentada na grama, cercada por lápis de cor e papéis. Léo estava concentrado em um desenho, enquanto Luna tentava engatinhar em direção a uma borboleta. Heitor observou a forma como Alice se inclinava para falar com Léo, gesticulando com as mãos pequenas e rindo de algo que o menino dizia. Não havia som através do vidro duplo, mas Heitor podia quase sentir a leveza daquela cena. Era um contraste bizarro: dentro do escritório, homens discutiam milhões de dólares com rostos fechados; lá fora, a babá ensinava seu filho a desenhar o mundo. — Senhor Albuquerque? O senhor concorda com a cláusula de exclusividade? — um dos alemães perguntou. Heitor pigarreou, forçando-se a desviar o olhar do jardim. — Sim. Mas queremos o controle total sobre a distribuição na América Latina. ... O almoço foi servido na sala de jantar formal. A comida era sofisticada, o vinho era caro, mas o ambiente continuava estritamente profissional. Heitor estava no comando, respondendo perguntas técnicas, até que um som baixo e rítmico começou a ecoar. Era uma canção de ninar. Alice estava passando pelo corredor lateral, voltando do jardim com as crianças porque o sol ficara forte demais. Ela cantava baixinho para ninar Luna, sem saber que as portas da sala de jantar estavam entreabertas. A voz dela era doce, carregada de uma ternura que parecia não pertencer àquela casa de mármore. Um dos investidores parou de falar, escutando. Heitor sentiu um nó na garganta, esperando uma reclamação, mas o homem mais velho apenas sorriu. — Uma voz bonita — comentou o investidor em inglês. — Faz muito tempo que não ouço algo tão... pacífico em uma reunião de negócios. Heitor passou a mão no cabelo, um gesto de nervosismo que ele raramente demonstrava. — É a babá das crianças. Eu pedi que não houvesse interrupções. — Não foi uma interrupção, Albuquerque. Foi um lembrete de por que trabalhamos tanto. Para proteger o que está lá fora — o homem concluiu. Heitor olhou para a fresta da porta. Ele viu o vulto de Alice desaparecendo na escada. Pela primeira vez, ele não a viu apenas como uma funcionária. Ele a viu como um escudo que protegia seus filhos da frieza que ele próprio trazia para aquela casa. ... Quando os investidores finalmente partiram, às cinco da tarde, Heitor sentia-se exausto. Ele afrouxou a gravata e caminhou até a sala de estar. Léo estava sentado no tapete, terminando o desenho. — Papai! Olha! — O menino correu até ele, estendendo um papel cheio de rabiscos amarelos e verdes. — É a nossa casa. A Alice disse que eu sou o cavaleiro que cuida do castelo. Heitor pegou o desenho, sentindo uma pontada de culpa. — Ficou muito bom, Léo. Cadê ela? — Ela está dando banho na Luna. Ela disse que eu podia te mostrar o desenho se eu fosse um cavaleiro bem comportado. Heitor sentou-se no sofá, segurando o desenho do filho. Ele olhou para as mãos e depois para a obra inocente em sua mão. Alice desceu as escadas pouco depois, com Luna já de pijama, cheirando a talco. Ao ver Heitor na sala, ela parou. — Desculpe, senhor Albuquerque. Eu só vim buscar o estojo de lápis que o Léo esqueceu. — Tudo bem, Alice — Heitor disse, a voz menos rígida. Ele se levantou e caminhou até ela. — A reunião foi um sucesso. Os investidores... eles gostaram da sua música. Alice sentiu uma leve surpresa, mas manteve a compostura profissional. — Eu sinto muito. Eu não achei que eles pudessem ouvir. — Não peça desculpas — Heitor a interrompeu, observando-a de perto. Ele notou uma pequena mancha de tinta verde na bochecha dela, perto da orelha. — Foi o melhor momento do almoço, segundo eles. Ele estendeu a mão, o instinto falando mais alto que o protocolo, e usou o polegar para limpar a mancha de tinta da pele dela. O contato durou apenas dois segundos. A pele de Alice era macia, e ela congelou sob o toque dele, os olhos amendoados fixos nos dele com uma mistura de surpresa e confusão. Heitor recuou imediatamente, fechando a mão. — Você estava suja de tinta — ele justificou, a voz ficando fria novamente. — Obrigada, senhor — ela respondeu, a voz baixa. Ela pegou o estojo e, chamando o menino, subiu as escadas. Heitor ficou parado na sala. Ele passou a mão no cabelo, bagunçando o penteado. Ele não deveria ter feito aquilo. Mas, enquanto o sol se punha naquela sexta-feira, ele percebeu que Alice estava tornando impossível ignorar que, por trás do CEO de ferro, ainda existia um homem que sentia falta de uma casa com vida.






