Capítulo 5: As Frestas da Armadura

l​O sábado amanheceu preguiçoso na mansão Albuquerque. Pela primeira vez em meses, Heitor não acordou com o despertador. O silêncio da casa, que antes o incomodava, agora parecia preenchido por algo sutil. Ele se levantou, vestindo apenas uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta básica, deixando de lado a formalidade dos ternos que eram sua farda de guerra.

​Ao descer para a cozinha, ele não encontrou a rigidez do dia anterior. Isabela tinha saído cedo para um compromisso, e os funcionários de serviço estavam reduzidos.

​Alice estava de costas para a porta, batendo algo em uma tigela. Ela usava um short jeans e uma regata clara, e o cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, revelando a nuca delicada. Luna estava sentada em um cadeirão, batendo uma colher de plástico na bandeja, enquanto Léo tentava "ajudar" Alice a misturar a massa.

​Heitor ficou parado na entrada, observando. Ele se sentia um intruso em sua própria casa.

​— O segredo é não bater muito forte, Léo — Alice dizia, a voz suave e paciente. — Se você for gentil com a massa, o bolo cresce mais feliz.

​— Bolo feliz! — Léo exclamou, rindo.

​Heitor pigarreou, e Alice virou-se instantaneamente. O movimento fez com que uma pequena nuvem de farinha atingisse o rosto dela.

​— Bom dia, senhor Albuquerque — ela disse, limpando o nariz com as costas da mão, deixando um rastro branco na pele.

​— Bom dia — Heitor respondeu, aproximando-se. Ele notou que ela parecia mais relaxada, embora a tristeza habitual ainda estivesse lá, no fundo dos olhos amendoados. — Vejo que o café da manhã está sendo uma operação complexa hoje.

​— Léo queria bolinhos de chuva — Alice explicou, voltando-se para a tigela para esconder um leve desconforto. — Eu achei que seria uma boa atividade para o sábado.

​Heitor serviu-se de café e encostou-se no balcão, observando-os. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de uma observação mútua. Heitor reparou em como as mãos de Alice eram ágeis e como ela tratava Léo com uma mistura de firmeza e doçura que ele mesmo não conseguia replicar.

​— Você cozinha bem? — Heitor perguntou, apenas para quebrar o silêncio.

​Alice parou por um segundo, o olhar fixo na massa.

— Aprendi por necessidade, senhor. Minha vida nunca me deu o luxo de não saber fazer as coisas por conta própria.

​Heitor sentiu o peso daquela frase. Ele sabia que ela tinha passado por dificuldades, embora não soubesse os detalhes. Ele queria perguntar, queria entender o que causava aquela sombra no olhar dela, mas lembrou-se de sua própria regra: não se envolver.

​...

​Mais tarde, o clima mudou. Nuvens carregadas tomaram conta do céu e uma chuva torrencial começou a cair, cancelando qualquer plano de ir ao jardim. Confinados dentro de casa, o humor das crianças começou a oscilar. Luna estava manhosa por causa dos dentes, e Léo estava frustrado por não poder correr lá fora.

​Alice passou a tarde circulando entre os dois, mas Heitor notou que ela mesma parecia mais silenciosa do que o normal. Ela olhava para a chuva através das grandes janelas de vidro com uma expressão de dor profunda, como se a água caindo trouxesse lembranças que ela preferia esquecer.

​Por volta das cinco da tarde, Luna finalmente adormeceu. Léo estava assistindo a um desenho animado na sala de TV. Heitor estava no escritório, mas a porta estava aberta. Ele viu Alice caminhar até a varanda coberta, abraçando o próprio corpo contra o frio súbito que a chuva trouxera.

​Ele hesitou, mas acabou saindo do escritório e indo até ela.

​— A chuva parece incomodar você — ele comentou, parando ao seu lado, mantendo uma distância segura.

​Alice não se assustou desta vez. Ela apenas suspirou.

— Dias assim são... mais difíceis. O barulho da chuva abafa tudo, mas não abafa os pensamentos.

​Heitor olhou para o perfil dela. Ela parecia tão pequena e frágil sob a luz cinzenta da tarde.

— Isabela me disse que você teve uma perda — ele começou, a voz mais baixa e menos autoritária. — Eu sei o que é perder alguém que deveria estar aqui. Minha ex-mulher não morreu, mas o abandono dela foi um tipo de luto para essa casa.

​Alice virou-se para ele. Era a primeira vez que Heitor falava sobre Letícia de forma tão direta.

— É diferente, senhor Albuquerque. O abandono deixa a ferida da dúvida. A morte deixa apenas o silêncio.

​Heitor sentiu um aperto no peito. Ele passou a mão no cabelo, arrumando-o para trás, um gesto de ansiedade.

— Você tem razão. O silêncio é pior.

​Eles ficaram ali por alguns minutos, apenas observando a chuva cair sobre o gramado impecável. Heitor percebeu que, por baixo da casca de CEO durão e da casca de babá resiliente, ambos estavam apenas tentando não se afogar em suas próprias águas.

​— O senhor é um bom pai, Heitor — ela disse subitamente, usando o nome dele pela primeira vez, sem o "senhor". — Só está com medo de que eles vejam que você também está quebrado. Mas crianças não se importam com rachaduras. Elas só querem saber se você vai segurar a mão delas.

​Heitor travou. Ninguém nunca tinha falado com ele com aquela honestidade cortante. Ele olhou para ela, e por um instante, o abismo social entre eles desapareceu. Eram apenas duas almas feridas em uma varanda luxuosa.

​Ele deu um passo na direção dela, impulsionado por uma necessidade de conexão que não sentia há anos. Alice não recuou. Ela olhou para ele, e Heitor viu, pela primeira vez, não apenas a babá, mas a mulher. Uma mulher que tinha uma força que ele não entendia.

​O momento foi interrompido pelo choro de Luna vindo do andar de cima.

​O feitiço se quebrou. Alice piscou, voltando à realidade.

— Eu... eu preciso ir. Luna acordou.

​— Claro — Heitor respondeu, a voz saindo mais falha do que pretendia.

​Alice entrou rapidamente na casa. Heitor ficou para trás, sentindo o ar frio da chuva. Ele tocou o parapeito de mármore e percebeu que suas mãos estavam tremendo levemente. Ele tinha saído na noite anterior para se convencer de que era o mesmo homem de sempre, mas aquela conversa de cinco minutos na chuva tinha feito mais estrago em suas defesas do que qualquer outra coisa.

​Ele não estava apenas interessado nela. Ele estava começando a admirá-la. E, para um homem que construiu sua vida sobre o cinismo, a admiração era o sentimento mais perigoso de todos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App