lO sábado amanheceu preguiçoso na mansão Albuquerque. Pela primeira vez em meses, Heitor não acordou com o despertador. O silêncio da casa, que antes o incomodava, agora parecia preenchido por algo sutil. Ele se levantou, vestindo apenas uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta básica, deixando de lado a formalidade dos ternos que eram sua farda de guerra.
Ao descer para a cozinha, ele não encontrou a rigidez do dia anterior. Isabela tinha saído cedo para um compromisso, e os funcionários de serviço estavam reduzidos.
Alice estava de costas para a porta, batendo algo em uma tigela. Ela usava um short jeans e uma regata clara, e o cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, revelando a nuca delicada. Luna estava sentada em um cadeirão, batendo uma colher de plástico na bandeja, enquanto Léo tentava "ajudar" Alice a misturar a massa.
Heitor ficou parado na entrada, observando. Ele se sentia um intruso em sua própria casa.
— O segredo é não bater muito forte, Léo — Alice dizia, a voz suave e paciente. — Se você for gentil com a massa, o bolo cresce mais feliz.
— Bolo feliz! — Léo exclamou, rindo.
Heitor pigarreou, e Alice virou-se instantaneamente. O movimento fez com que uma pequena nuvem de farinha atingisse o rosto dela.
— Bom dia, senhor Albuquerque — ela disse, limpando o nariz com as costas da mão, deixando um rastro branco na pele.
— Bom dia — Heitor respondeu, aproximando-se. Ele notou que ela parecia mais relaxada, embora a tristeza habitual ainda estivesse lá, no fundo dos olhos amendoados. — Vejo que o café da manhã está sendo uma operação complexa hoje.
— Léo queria bolinhos de chuva — Alice explicou, voltando-se para a tigela para esconder um leve desconforto. — Eu achei que seria uma boa atividade para o sábado.
Heitor serviu-se de café e encostou-se no balcão, observando-os. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de uma observação mútua. Heitor reparou em como as mãos de Alice eram ágeis e como ela tratava Léo com uma mistura de firmeza e doçura que ele mesmo não conseguia replicar.
— Você cozinha bem? — Heitor perguntou, apenas para quebrar o silêncio.
Alice parou por um segundo, o olhar fixo na massa.
— Aprendi por necessidade, senhor. Minha vida nunca me deu o luxo de não saber fazer as coisas por conta própria.
Heitor sentiu o peso daquela frase. Ele sabia que ela tinha passado por dificuldades, embora não soubesse os detalhes. Ele queria perguntar, queria entender o que causava aquela sombra no olhar dela, mas lembrou-se de sua própria regra: não se envolver.
...
Mais tarde, o clima mudou. Nuvens carregadas tomaram conta do céu e uma chuva torrencial começou a cair, cancelando qualquer plano de ir ao jardim. Confinados dentro de casa, o humor das crianças começou a oscilar. Luna estava manhosa por causa dos dentes, e Léo estava frustrado por não poder correr lá fora.
Alice passou a tarde circulando entre os dois, mas Heitor notou que ela mesma parecia mais silenciosa do que o normal. Ela olhava para a chuva através das grandes janelas de vidro com uma expressão de dor profunda, como se a água caindo trouxesse lembranças que ela preferia esquecer.
Por volta das cinco da tarde, Luna finalmente adormeceu. Léo estava assistindo a um desenho animado na sala de TV. Heitor estava no escritório, mas a porta estava aberta. Ele viu Alice caminhar até a varanda coberta, abraçando o próprio corpo contra o frio súbito que a chuva trouxera.
Ele hesitou, mas acabou saindo do escritório e indo até ela.
— A chuva parece incomodar você — ele comentou, parando ao seu lado, mantendo uma distância segura.
Alice não se assustou desta vez. Ela apenas suspirou.
— Dias assim são... mais difíceis. O barulho da chuva abafa tudo, mas não abafa os pensamentos.
Heitor olhou para o perfil dela. Ela parecia tão pequena e frágil sob a luz cinzenta da tarde.
— Isabela me disse que você teve uma perda — ele começou, a voz mais baixa e menos autoritária. — Eu sei o que é perder alguém que deveria estar aqui. Minha ex-mulher não morreu, mas o abandono dela foi um tipo de luto para essa casa.
Alice virou-se para ele. Era a primeira vez que Heitor falava sobre Letícia de forma tão direta.
— É diferente, senhor Albuquerque. O abandono deixa a ferida da dúvida. A morte deixa apenas o silêncio.
Heitor sentiu um aperto no peito. Ele passou a mão no cabelo, arrumando-o para trás, um gesto de ansiedade.
— Você tem razão. O silêncio é pior.
Eles ficaram ali por alguns minutos, apenas observando a chuva cair sobre o gramado impecável. Heitor percebeu que, por baixo da casca de CEO durão e da casca de babá resiliente, ambos estavam apenas tentando não se afogar em suas próprias águas.
— O senhor é um bom pai, Heitor — ela disse subitamente, usando o nome dele pela primeira vez, sem o "senhor". — Só está com medo de que eles vejam que você também está quebrado. Mas crianças não se importam com rachaduras. Elas só querem saber se você vai segurar a mão delas.
Heitor travou. Ninguém nunca tinha falado com ele com aquela honestidade cortante. Ele olhou para ela, e por um instante, o abismo social entre eles desapareceu. Eram apenas duas almas feridas em uma varanda luxuosa.
Ele deu um passo na direção dela, impulsionado por uma necessidade de conexão que não sentia há anos. Alice não recuou. Ela olhou para ele, e Heitor viu, pela primeira vez, não apenas a babá, mas a mulher. Uma mulher que tinha uma força que ele não entendia.
O momento foi interrompido pelo choro de Luna vindo do andar de cima.
O feitiço se quebrou. Alice piscou, voltando à realidade.
— Eu... eu preciso ir. Luna acordou.
— Claro — Heitor respondeu, a voz saindo mais falha do que pretendia.
Alice entrou rapidamente na casa. Heitor ficou para trás, sentindo o ar frio da chuva. Ele tocou o parapeito de mármore e percebeu que suas mãos estavam tremendo levemente. Ele tinha saído na noite anterior para se convencer de que era o mesmo homem de sempre, mas aquela conversa de cinco minutos na chuva tinha feito mais estrago em suas defesas do que qualquer outra coisa.
Ele não estava apenas interessado nela. Ele estava começando a admirá-la. E, para um homem que construiu sua vida sobre o cinismo, a admiração era o sentimento mais perigoso de todos.