O domingo amanheceu com um céu limpo, como se a tempestade do dia anterior tivesse lavado todas as incertezas da mansão. Heitor acordou com uma resolução: ele não seria o "CEO distante" naquele dia. As palavras de Alice sobre crianças não se importarem com rachaduras ecoavam em sua mente como um desafio silencioso que ele precisava enfrentar.
Ele desceu para o café usando roupas esportivas e um tênis de corrida caro. Alice já estava no jardim, estendendo uma toalha sobre a grama para que Luna pudesse brincar livremente enquanto Léo corria ao redor.
— Hoje eu assumo o Léo — Heitor anunciou, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça de moletom.
Alice, que estava agachada ajudando Luna a se equilibrar na grama, olhou para cima. O sol batia em seu rosto, destacando a palidez de sua pele e a doçura do seu olhar.
— O senhor tem certeza, senhor Albuquerque? Pelo pouco que percebi nestes quatro dias, o Léo parece acumular toda a energia da semana para o domingo.
Heitor esboçou um sorriso de canto, embora houvesse uma pontada de insegurança em seu tom.
— Eu sou o pai dele, Alice. Acho que consigo lidar com uma criança de três anos por algumas horas. Pode focar na Luna.
Alice apenas assentiu, um brilho cauteloso passando rapidamente por seus olhos.
— Pois bem. Estarei com a bebê por aqui se precisar de qualquer coisa.
As primeiras duas horas foram um sucesso. Heitor jogou bola com Léo e correu pelo gramado, rindo de forma genuína pela primeira vez em muito tempo. Ele se sentia revigorado, sentindo que estava, finalmente, no controle de sua paternidade. No entanto, o controle de Heitor sempre foi baseado em lógica e ordens, e crianças são imprevisíveis por natureza.
Tudo mudou quando Léo, empolgado com a atenção rara do pai, tentou subir em um dos grandes vasos ornamentais do jardim para "caçar um dragão". O vaso virou, e embora o menino não tenha se machucado seriamente, ele caiu de mau jeito, ralando os joelhos e as palmas das mãos no cascalho grosso.
O grito de Léo cortou o silêncio do domingo como uma navalha.
Heitor correu até o filho, o coração disparado. Ele viu o sangue nos joelhos do menino e o rosto de Léo se transformar em uma máscara de pavor.
— Calma, Léo. Está tudo bem. É só um arranhão — Heitor disse, a voz saindo alta e tensa demais, revelando seu próprio susto. Ele tentou pegar o filho no colo, mas o menino recuou, chorando ainda mais alto, assustado com a reação nervosa do pai.
Heitor travou, paralisado pela própria impotência diante da dor do filho.
Alice chegou em segundos, trazendo Luna em um dos braços. Ela não correu de forma desesperada; sua presença trazia uma serenidade que parecia baixar a temperatura do ambiente. Ao ver a paralisia de Heitor e o estado de pânico de Léo, ela agiu com rapidez.
— Senhor Albuquerque, segure a Luna, por favor — Alice disse, com uma autoridade suave.
Antes que Heitor pudesse processar o pedido, ela transferiu o peso morno e pequeno da bebê para os braços dele. Heitor, pego de surpresa, aninhou a filha contra o peito por puro instinto. Luna, sentindo a tensão do pai, segurou firme na gola da camiseta dele, observando tudo com olhos arregalados.
Livre, Alice se ajoelhou na grama ao lado de Léo, ignorando as manchas de terra que surgiam em seu vestido simples.
— Olhem só... parece que o cavaleiro teve uma batalha de verdade contra o dragão de pedra hoje — ela disse, a voz num tom tão baixo e melódico que o choro de Léo diminuiu de volume instantaneamente para que ele pudesse ouvi-la.
— Dói, Alice! — Léo soluçou, esticando as mãos trêmulas para ela.
— Eu sei que dói, querido. Dói porque seu corpo é valente e está avisando que precisa de um pouquinho de cuidado — ela explicou, pegando-o no colo e trazendo-o para perto dela.
Heitor observava a cena de pé, com Luna em seus braços. A bebê agora tinha o rosto escondido em seu pescoço, e ele sentia o coraçãozinho dela batendo rápido contra o seu. Ele olhou para Alice, que comandava a situação com uma maestria emocional que ele não possuía.
— Senhor Albuquerque, por favor, leve a Luna para dentro e busque a maleta de primeiros socorros no armário do hall — Alice instruiu, sem tirar os olhos de Léo. — E traga um copo de suco. O Léo precisa de "combustível" de cavaleiro para se recuperar.
Heitor obedeceu sem questionar. Caminhar em direção à casa com a filha nos braços e uma missão clara fez com que ele se sentisse, pela primeira vez, parte da solução e não do problema.
Quando ele voltou, Alice já tinha limpado o rosto de Léo. Ela tratou os ralados com uma paciência infinita, soprando cada ferida antes de colocar o curativo. Heitor observava a cena de perto, fascinado. Ele viu Alice beijar o topo da cabeça de Léo e o menino, agora calmo, encostar o rosto no ombro dela.
— Ele confia em você — Heitor comentou baixinho, entregando o suco. Ele sentia uma pontada de profunda admiração.
— Crianças confiam em quem mantém a calma por elas, senhor — Alice respondeu, levantando os olhos para ele. — O senhor fez bem em brincar com ele. O acidente foi apenas um acidente.
Heitor sentou-se no degrau da varanda, passando a mão no cabelo e deixando-o bagunçado. A máscara de CEO tinha caído completamente.
— Eu me senti completamente inútil. Eu lido com crises de milhões, mas não soube o que fazer com um joelho ralado.
Alice deu um pequeno sorriso de canto. Era um sorriso breve, mas que carregava a profundidade de quem já enfrentara dores muito maiores que um arranhão.
— O senhor não é inútil. O senhor apenas se importa demais e tem medo de que eles se quebrem. Mas para o Léo, o senhor ainda é o herói. Ele só precisava de um curativo e de ver que o pai não estava bravo com ele.
Heitor olhou para o vaso de porcelana estraçalhado no chão. Ele nem tinha pensado no valor do objeto. Sua única preocupação era o bem-estar do filho. Ele olhou para Alice, que agora ajeitava Luna novamente no colo, mantendo o equilíbrio daquela pequena família.
— Como você consegue ser tão calma? — Heitor perguntou, a curiosidade vencendo a cautela.
Alice ficou tensa por um momento. A sombra voltou ao seu olhar, a lembrança da filha que ela não pôde salvar sempre presente em seu coração.
— Eu aprendi que o desespero não cura nada, senhor Albuquerque. A calma é a única coisa que nos resta quando as coisas fogem do nosso controle.
Ela se levantou com Léo no colo, percebendo que o sol estava ficando forte demais.
— Vou levar os dois para dentro. Léo precisa de um pouco de descanso agora.
Heitor ficou no jardim, observando-os entrar. O domingo de sol agora tinha um significado diferente. Ele percebeu que a presença de Alice naquela casa não era apenas eficiente; era vital. Mas, enquanto ele olhava para o lugar onde Alice estivera sentada, Heitor sentiu um medo novo. O medo de que, quando a semana de teste acabasse no dia seguinte, ele não conseguisse mais deixá-la ir embora.