Capítulo 6: O Domingo de Sol e Sombras

​O domingo amanheceu com um céu limpo, como se a tempestade do dia anterior tivesse lavado todas as incertezas da mansão. Heitor acordou com uma resolução: ele não seria o "CEO distante" naquele dia. As palavras de Alice sobre crianças não se importarem com rachaduras ecoavam em sua mente como um desafio silencioso que ele precisava enfrentar.

​Ele desceu para o café usando roupas esportivas e um tênis de corrida caro. Alice já estava no jardim, estendendo uma toalha sobre a grama para que Luna pudesse brincar livremente enquanto Léo corria ao redor.

​— Hoje eu assumo o Léo — Heitor anunciou, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça de moletom.

​Alice, que estava agachada ajudando Luna a se equilibrar na grama, olhou para cima. O sol batia em seu rosto, destacando a palidez de sua pele e a doçura do seu olhar.

— O senhor tem certeza, senhor Albuquerque? Pelo pouco que percebi nestes quatro dias, o Léo parece acumular toda a energia da semana para o domingo.

​Heitor esboçou um sorriso de canto, embora houvesse uma pontada de insegurança em seu tom.

— Eu sou o pai dele, Alice. Acho que consigo lidar com uma criança de três anos por algumas horas. Pode focar na Luna.

​Alice apenas assentiu, um brilho cauteloso passando rapidamente por seus olhos.

— Pois bem. Estarei com a bebê por aqui se precisar de qualquer coisa.

​As primeiras duas horas foram um sucesso. Heitor jogou bola com Léo e correu pelo gramado, rindo de forma genuína pela primeira vez em muito tempo. Ele se sentia revigorado, sentindo que estava, finalmente, no controle de sua paternidade. No entanto, o controle de Heitor sempre foi baseado em lógica e ordens, e crianças são imprevisíveis por natureza.

​Tudo mudou quando Léo, empolgado com a atenção rara do pai, tentou subir em um dos grandes vasos ornamentais do jardim para "caçar um dragão". O vaso virou, e embora o menino não tenha se machucado seriamente, ele caiu de mau jeito, ralando os joelhos e as palmas das mãos no cascalho grosso.

​O grito de Léo cortou o silêncio do domingo como uma navalha.

​Heitor correu até o filho, o coração disparado. Ele viu o sangue nos joelhos do menino e o rosto de Léo se transformar em uma máscara de pavor.

— Calma, Léo. Está tudo bem. É só um arranhão — Heitor disse, a voz saindo alta e tensa demais, revelando seu próprio susto. Ele tentou pegar o filho no colo, mas o menino recuou, chorando ainda mais alto, assustado com a reação nervosa do pai.

​Heitor travou, paralisado pela própria impotência diante da dor do filho.

​Alice chegou em segundos, trazendo Luna em um dos braços. Ela não correu de forma desesperada; sua presença trazia uma serenidade que parecia baixar a temperatura do ambiente. Ao ver a paralisia de Heitor e o estado de pânico de Léo, ela agiu com rapidez.

​— Senhor Albuquerque, segure a Luna, por favor — Alice disse, com uma autoridade suave.

​Antes que Heitor pudesse processar o pedido, ela transferiu o peso morno e pequeno da bebê para os braços dele. Heitor, pego de surpresa, aninhou a filha contra o peito por puro instinto. Luna, sentindo a tensão do pai, segurou firme na gola da camiseta dele, observando tudo com olhos arregalados.

​Livre, Alice se ajoelhou na grama ao lado de Léo, ignorando as manchas de terra que surgiam em seu vestido simples.

​— Olhem só... parece que o cavaleiro teve uma batalha de verdade contra o dragão de pedra hoje — ela disse, a voz num tom tão baixo e melódico que o choro de Léo diminuiu de volume instantaneamente para que ele pudesse ouvi-la.

​— Dói, Alice! — Léo soluçou, esticando as mãos trêmulas para ela.

​— Eu sei que dói, querido. Dói porque seu corpo é valente e está avisando que precisa de um pouquinho de cuidado — ela explicou, pegando-o no colo e trazendo-o para perto dela.

​Heitor observava a cena de pé, com Luna em seus braços. A bebê agora tinha o rosto escondido em seu pescoço, e ele sentia o coraçãozinho dela batendo rápido contra o seu. Ele olhou para Alice, que comandava a situação com uma maestria emocional que ele não possuía.

​— Senhor Albuquerque, por favor, leve a Luna para dentro e busque a maleta de primeiros socorros no armário do hall — Alice instruiu, sem tirar os olhos de Léo. — E traga um copo de suco. O Léo precisa de "combustível" de cavaleiro para se recuperar.

​Heitor obedeceu sem questionar. Caminhar em direção à casa com a filha nos braços e uma missão clara fez com que ele se sentisse, pela primeira vez, parte da solução e não do problema.

​Quando ele voltou, Alice já tinha limpado o rosto de Léo. Ela tratou os ralados com uma paciência infinita, soprando cada ferida antes de colocar o curativo. Heitor observava a cena de perto, fascinado. Ele viu Alice beijar o topo da cabeça de Léo e o menino, agora calmo, encostar o rosto no ombro dela.

​— Ele confia em você — Heitor comentou baixinho, entregando o suco. Ele sentia uma pontada de profunda admiração.

​— Crianças confiam em quem mantém a calma por elas, senhor — Alice respondeu, levantando os olhos para ele. — O senhor fez bem em brincar com ele. O acidente foi apenas um acidente.

​Heitor sentou-se no degrau da varanda, passando a mão no cabelo e deixando-o bagunçado. A máscara de CEO tinha caído completamente.

— Eu me senti completamente inútil. Eu lido com crises de milhões, mas não soube o que fazer com um joelho ralado.

​Alice deu um pequeno sorriso de canto. Era um sorriso breve, mas que carregava a profundidade de quem já enfrentara dores muito maiores que um arranhão.

— O senhor não é inútil. O senhor apenas se importa demais e tem medo de que eles se quebrem. Mas para o Léo, o senhor ainda é o herói. Ele só precisava de um curativo e de ver que o pai não estava bravo com ele.

​Heitor olhou para o vaso de porcelana estraçalhado no chão. Ele nem tinha pensado no valor do objeto. Sua única preocupação era o bem-estar do filho. Ele olhou para Alice, que agora ajeitava Luna novamente no colo, mantendo o equilíbrio daquela pequena família.

​— Como você consegue ser tão calma? — Heitor perguntou, a curiosidade vencendo a cautela.

​Alice ficou tensa por um momento. A sombra voltou ao seu olhar, a lembrança da filha que ela não pôde salvar sempre presente em seu coração.

— Eu aprendi que o desespero não cura nada, senhor Albuquerque. A calma é a única coisa que nos resta quando as coisas fogem do nosso controle.

​Ela se levantou com Léo no colo, percebendo que o sol estava ficando forte demais.

— Vou levar os dois para dentro. Léo precisa de um pouco de descanso agora.

​Heitor ficou no jardim, observando-os entrar. O domingo de sol agora tinha um significado diferente. Ele percebeu que a presença de Alice naquela casa não era apenas eficiente; era vital. Mas, enquanto ele olhava para o lugar onde Alice estivera sentada, Heitor sentiu um medo novo. O medo de que, quando a semana de teste acabasse no dia seguinte, ele não conseguisse mais deixá-la ir embora.

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