Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira noite de Alice na mansão Albuquerque foi preenchida por um silêncio que ela não conhecia. No hospital, havia o som dos monitores; em sua antiga casa, havia o eco das lembranças. Ali, naquele quarto de hóspedes impecável e frio que Isabela lhe mostrara, só havia o som do próprio coração. Ela mal dormiu, sentindo o peso do luxo ao seu redor como se fosse uma armadura pesada demais para carregar.
Às seis da manhã, Alice já estava de pé. Ela lavou o rosto, observando no espelho as olheiras que nem mesmo a iluminação perfeita do banheiro conseguia esconder. Seus olhos amendoados estavam opacos, mas havia uma chama de determinação neles. Ela precisava que aquele dia funcionasse. Quando desceu para a cozinha, encontrou uma equipe de funcionários que se movia com a precisão de um relógio suíço. Ninguém falava alto. Ninguém sorria. Era como se a alegria fosse proibida sob o teto de Heitor Albuquerque. — Café preto. Sem açúcar. A voz grave e potente de Heitor ecoou pela cozinha, fazendo Alice sobressaltar-se. Ele estava de pé junto à bancada de mármore, terminando de abotoar os punhos de uma camisa branca social que parecia moldada em seu corpo forte. A barba estava feita, mas os olhos castanhos pareciam mais escuros do que no dia anterior. — Bom dia, senhor Albuquerque — disse Alice, aproximando-se com cautela. Heitor virou-se lentamente. A diferença de altura era quase cômica; ela precisava inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Ele a mediu de cima a baixo, notando que ela usava uma calça jeans simples e uma blusa de malha, os cabelos longos e ondulados presos em um coque frouxo que deixava alguns fios dourados caírem sobre o rosto. — Achei que tivesse desistido durante a noite — ele comentou, a voz desprovida de emoção, antes de levar a xícara aos lábios. — Muitas desistem quando percebem que esta casa não é um conto de fadas. — Eu não desisto fácil, senhor. E não vim em busca de contos de fadas. Vim para trabalhar — Alice respondeu, sustentando o olhar. Heitor arqueou uma sobrancelha. Ele não estava acostumado com respostas diretas. A maioria das pessoas gaguejava diante dele. — Luna acordou há dez minutos. Isabela está tentando vesti-la, mas a bebê parece ter herdado o temperamento da família. Léo ainda está dormindo, mas não se engane: quando ele acordar, será o seu maior desafio. Ele testa limites, Alice. E eu não tolero falhas. — Eu não vejo crianças como "desafios" ou "falhas", senhor Albuquerque. Eu vejo pessoas que precisam ser ouvidas — Alice disse, já se retirando em direção às escadas. Heitor ficou parado, a xícara de café no ar. Ele sentiu aquela mesma irritação — ou seria fascínio? — do dia anterior. Ele passou a mão no cabelo, arrumando-o para trás em um gesto brusco. Havia algo naquela mulher que o tirava do centro, e ele odiava perder o controle. ... O quarto de Luna era um palácio em tons de creme e rosa, mas o clima lá dentro era de tempestade. Isabela estava com o rosto vermelho, tentando colocar uma meia na bebê que chutava com uma energia impressionante. — Me deixe ajudar — Alice disse baixinho, entrando no quarto. Isabela suspirou, entregando a meia como quem entrega uma bandeira branca. — Ela é impossível hoje. Acho que é a gengiva. Alice pegou Luna no colo e, em vez de lutar com as roupas, começou a fazer pequenas cócegas na barriga da bebê. O som da risada de Luna, um som puro e cristalino, pareceu quebrar a rigidez do quarto. — Você tem mãos de fada ou o quê? — Isabela perguntou, cruzando os braços e sorrindo pela primeira vez. — É apenas paciência — mentiu Alice. Na verdade, cada vez que Luna sorria, Alice sentia uma pontada de dor. Luna tinha quase a mesma idade que sua filha tinha quando os primeiros sintomas apareceram. Cuidar de Luna era como abraçar um fantasma, mas um fantasma que ela amava proteger. O dia seguiu como um campo minado. Léo acordou de mau humor, recusando-se a tomar o café preparado pela cozinheira. Ele jogou um pedaço de torrada no chão e cruzou os braços, desafiando Alice com o olhar. — Eu quero ir ao parque! — ele exigiu. — Vamos ao parque — Alice concordou calmamente. — Assim que você terminar o seu suco. Caso contrário, não terá energia para o escorregador. — Você não manda em mim! — Léo gritou. Heitor, que passava pelo corredor a caminho do escritório, parou na porta da sala de jantar. Ele observou a cena, esperando que Alice perdesse a paciência ou começasse a chorar, como as outras. Em vez disso, Alice se sentou à mesa, na altura de Léo. — Sabe, Léo, eu conheci um cavaleiro uma vez que também não gostava de suco de laranja. Mas ele descobriu que, se não bebesse, sua armadura ficava pesada demais e ele não conseguia correr. Você quer ser um cavaleiro ou quer ficar sentado aqui enquanto o dia passa? Léo piscou, surpreso. Ele olhou para o suco e depois para Alice. Lentamente, pegou o copo e bebeu tudo de uma vez. Heitor, escondido na sombra do batente, sentiu um aperto estranho no peito. Ver o filho obedecer com um sorriso era algo novo. Ele sentiu uma vontade súbita de entrar na sala e falar com ela, de perguntar como ela fazia aquilo, mas o medo da proximidade falou mais alto. Ele deu meia volta e seguiu para sua reunião, mas a imagem de Alice agachada ao lado de seu filho não saía de sua cabeça. ... Ao entardecer, Heitor retornou do escritório mais cedo do que o habitual. Ele justificou para si mesmo que precisava conferir se as crianças ainda estavam inteiras, mas a verdade era que ele queria ver Alice. Ele a encontrou no jardim dos fundos. O sol estava se pondo, banhando tudo em um tom alaranjado que combinava perfeitamente com os reflexos no cabelo de Alice. Ela estava sentada na grama, com Luna engatinhando sobre ela e Léo correndo em círculos, rindo. Alice estava sem sapatos, os pés pequenos tocando a grama, e parecia mais jovem, quase livre daquela melancolia que a perseguia. Ela começou a cantar uma música baixinha, uma canção de ninar que falava sobre estrelas e sonhos. Heitor parou a poucos metros, hipnotizado. A luz do sol realçava as curvas suaves do rosto dela, a boca carnuda que se movia com a letra da música. Por um momento, ele esqueceu que era o CEO implacável. Ele esqueceu o abandono de Letícia. Ele era apenas um homem atraído por uma mulher que parecia carregar o sol dentro de si, apesar da tristeza nos olhos. Léo viu o pai e correu em sua direção. — Papai! A Alice disse que eu sou um cavaleiro! Heitor pegou o filho no colo, mas seus olhos não saíram de Alice. Ela se levantou rapidamente, limpando a grama do vestido e pegando Luna. A máscara de "babá profissional" voltou instantaneamente, apagando o brilho que ele vira segundos antes. — Senhor Albuquerque. Não o ouvi chegar — ela disse, a voz voltando a ser formal e distante. — Notei — ele respondeu, sua voz saindo mais profunda. Ele se aproximou dela, o cheiro de lavanda e bebê que emanava dela atingindo seus sentidos. — Você sobreviveu ao primeiro dia. — Eu disse que não desistiria — ela lembrou, a voz firme. Heitor olhou para Luna, que agora esticava os bracinhos para ele. Ele pegou a filha, mas ao fazer a troca, seus dedos roçaram nos de Alice. Foi um toque rápido, quase acidental, mas uma faísca elétrica percorreu o braço de Heitor. Ele recuou um passo, como se tivesse se queimado. Alice também pareceu sentir, pois baixou o olhar e começou a brincar com as próprias mãos. — Vá descansar, Alice — Heitor disse, a voz ficando fria novamente para esconder o que sentia. — Amanhã o dia será mais longo. Alice assentiu e entrou na casa sem dizer mais nada. Heitor ficou sozinho no jardim com as crianças. Ele olhou para a porta por onde ela passara e depois para suas próprias mãos. Ele não podia repetir aquele erro. Ele não saía com mulheres como Alice. Ele não se envolvia com funcionárias. Ele não se envolvia com ninguém que pudesse fazê-lo sentir algo. Mas, enquanto o sol sumia no horizonte, Heitor soube que aquela semana de teste seria o maior desafio de sua vida. Não por causa das crianças, mas por causa da mulher que estava, pouco a pouco, derretendo o gelo que ele levou um ano para construir.






