Capítulo 7: O Contrato do Destino

​A manhã de segunda-feira na mansão Albuquerque tinha um peso diferente. Para Alice, era o dia da sentença. Enquanto preparava o café das crianças, ela se pegou olhando para o jardim, lembrando-se do vaso quebrado e da conversa na chuva. Ela sabia que tinha dado o seu melhor, mas o mundo de Heitor era regido por critérios que ela ainda não compreendia totalmente.

​Heitor, por outro lado, estava em seu escritório desde as seis da manhã. Ele não estava revisando balanços. Diante dele, na tela do computador, estava o contrato de Alice. Bastava um clique para que o departamento jurídico oficializasse a contratação por tempo indeterminado.

​Mas ele hesitou. Não por falta de competência dela — Alice era a melhor coisa que já acontecera àquela casa em um ano. O problema era o que ela causava nele. Heitor odiava se sentir vulnerável, e a presença dela, com aquele silêncio resiliente e os olhos que pareciam ler sua alma, era uma ameaça constante às suas defesas.

​Uma batida suave na porta o tirou de seus pensamentos.

​— Entre — ele disse, recuperando a postura rígida.

​Era Alice. Ela estava vestida de forma impecável, com o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo.

— Bom dia, senhor Albuquerque. Deixei as crianças com a Isabela na sala de brinquedos. Ela disse que ficaria com eles enquanto conversamos.

​— Bom dia, Alice. Sente-se — ele disse, indicando a cadeira de couro à frente da sua mesa monumental.

​Alice obedeceu, sentando-se com a postura ereta e as mãos cruzadas sobre o colo. Ela trazia consigo um pequeno envelope.

— Antes de qualquer decisão, eu preparei o relatório da semana, conforme o senhor solicitou no primeiro dia. Estão aí os horários da Luna, a evolução das refeições do Léo e algumas observações sobre o sono deles.

​Heitor pegou o envelope, mas não o abriu. Ele se levantou e caminhou até a janela, observando o movimento da cidade ao longe antes de se virar para ela.

— A semana de teste termina hoje. Eu observei seu trabalho. Vi como você lidou com a reunião de sexta e com o incidente de ontem no jardim. Isabela está impressionada com você, e Léo... bem, Léo pergunta por você antes mesmo de abrir os olhos.

​Alice permitiu-se um pequeno alívio, mas não sorriu. Ela ainda esperava o "mas" que costumava acompanhar frases elogiosas de homens como ele.

​— No entanto — Heitor continuou, aproximando-se da mesa — eu sou um homem que preza pela ordem. E você trouxe algo para esta casa que eu não consigo rotular. Uma humanidade que eu tinha me esforçado para esquecer.

​Alice levantou o olhar, encontrando os olhos castanhos dele. Não havia a frieza do CEO ali, apenas uma confusão honesta.

— Isso é um problema para o senhor?

​— Para a minha paz de espírito, talvez — ele admitiu, com um tom de voz que beirava a sinceridade. — Mas eu não seria capaz de privar meus filhos da única pessoa que os fez sentir seguros em meses.

​Heitor voltou para sua cadeira e pressionou uma tecla no computador.

— O contrato está oficializado, Alice. O salário foi reajustado em vinte por cento acima do que combinamos, devido à sua eficiência. Você terá suas folgas e o suporte necessário. Eu quero que você fique.

​Alice sentiu um nó na garganta. Aquela estabilidade significava que ela finalmente poderia começar a organizar sua vida após a perda da filha.

— Obrigada, senhor Albuquerque. Eu prometo que continuarei focada no bem-estar deles.

​— Eu sei que vai — ele disse, e por um momento, a tensão relaxou. — Mas tenho uma condição.

​Alice ficou alerta.

— Qual seria?

​— Quero que você pare de me olhar como se eu fosse um enigma insolúvel — ele disse, com um meio sorriso quase imperceptível. — Eu sei que falho como pai às vezes, e sei que meu estilo de vida lá fora pode parecer... questionável para alguém como você. Mas aqui dentro, eu só quero que esses dois cresçam bem. Podemos trabalhar com essa transparência?

​Alice sentiu o coração acelerar levemente. Ela não esperava aquela abertura.

— Eu não o vejo como um enigma, senhor. Eu o vejo como alguém que está tentando proteger o que restou de si mesmo. Eu entendo isso.

​Heitor sustentou o olhar dela por longos segundos. O silêncio no escritório tornou-se denso, carregado de uma compreensão mútua que ia além da relação patrão e empregada.

​— Ótimo — ele disse, limpando a garganta e voltando aos papéis para esconder o impacto das palavras dela. — Pode ir. Isabela deve estar perdendo a paciência com o "dragão" do Léo.

​Alice levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, ela parou e olhou para trás.

— Senhor Albuquerque? Obrigada pela confiança.

​Ela saiu, fechando a porta suavemente. Heitor soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. O contrato estava selado. Alice era, agora, parte oficial daquele castelo de gelo.

​No corredor, Alice encontrou Isabela saindo da sala de brinquedos com Luna no colo e Léo pendurado em sua perna.

— E então? — Isabela perguntou, arqueando uma sobrancelha idêntica à do irmão. — Ele foi sensato ou eu vou ter que dar uma bronca no meu gêmeo?

​— Eu fico — Alice respondeu, e um sorriso tímido finalmente surgiu em seu rosto.

​Isabela soltou uma gargalhada energética.

— Ainda bem! Porque eu já não aguentava mais o mau humor dele e o choro das crianças. Bem-vinda à família, Alice. Você vai precisar de muita paciência, mas acho que você é a única aqui que realmente tem de sobra.

​Alice pegou Luna no colo e sentiu o cheirinho de bebê. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que tinha um lugar para onde ir. Ela ainda tinha a tristeza no fundo dos olhos, mas agora, tinha um propósito claro.

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