O cheiro de hospital sempre seria, para Alice, o cheiro da despedida. O bip constante dos aparelhos, que por meses foi a trilha sonora de sua angústia, finalmente havia cessado. O silêncio que se seguiu era pior. Era ensurdecedor. Alice encarou o leito vazio. A pequena cama, agora arrumada com lençóis brancos e frios, não guardava mais o corpo frágil de sua filha. Ela passou a mão pelos próprios braços, sentindo o peso da ausência. Tinha vendido tudo — a casa, os móveis, até as lembranças mais queridas — para pagar um tratamento que, no fim, não conseguiu vencer a morte. Com uma única mala gasta na mão e os olhos amendoados nublados por uma tristeza profunda, ela atravessou o corredor da oncologia pela última vez. Ela não tinha para onde ir, não tinha um centavo no bolso e seu coração estava em frangalhos. Mas, enquanto caminhava para a saída, uma única certeza a mantinha de pé: ela precisava sobreviver. Nem que fosse para honrar a memória da pequena que se foi. ________________
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