Mundo de ficçãoIniciar sessãoO relógio de parede do hall de entrada marcava nove horas da noite quando Heitor desceu as escadas. Ele estava pronto para a noite: a camisa de linho azul-marinho tinha os primeiros botões abertos e as mangas levemente dobradas, revelando um relógio de pulso que valia mais do que Alice veria em anos. O perfume amadeirado que ele exalava era forte, marcando sua presença antes mesmo de ele atingir o último degrau.
Alice estava sentada no degrau da escada, concentrada em uma lista de reposição de itens para a higiene das crianças. Ela não se levantou de imediato, terminando de anotar a necessidade de novas fraldas para Luna antes de fechar o caderno e olhar para o patrão. — As crianças já dormiram, senhor Albuquerque — ela informou, o tom de voz neutro e eficiente. — Léo jantou sem protestos e a bebê está tranquila. Heitor parou diante dela, terminando de ajustar os punhos da camisa. Ele a observou. Alice usava um pijama de flanela largo e o cabelo estava preso em um coque apressado, com alguns fios ondulados escapando. Para ele, ela era uma peça funcional da engrenagem de sua casa. Uma funcionária que, até agora, provava ser competente, mas tinha algo mais. — Ótimo. Isabela está no andar de cima, mas evite incomodá-la. Ela teve um dia longo — ele disse, a voz grave. — Tenho as chaves. Não precisa se preocupar com a tranca da porta. — Sim, senhor. Boa noite — Alice respondeu, voltando sua atenção para o caderno assim que ele passou por ela. Não havia curiosidade em seu olhar. Para Alice, Heitor era um homem de um mundo inalcançável, cujas saídas noturnas eram apenas parte de uma rotina que não lhe dizia respeito. Ela tinha preocupações reais, como a conta bancária quase zerada e o vazio constante em seu peito. O fato de ele ser um homem de beleza imponente era apenas um detalhe irrelevante diante da sua necessidade de sobrevivência. Heitor atravessou a porta e, segundos depois, o motor da Ferrari rugiu do lado de fora, desaparecendo pela estrada particular. Alice soltou um suspiro longo, sentindo o silêncio da mansão pesar. Ela subiu para o quarto, esperando que o cansaço físico fosse o suficiente para silenciar as lembranças do hospital que teimavam em surgir no escuro. ... A boate na zona sul era um redemoinho de luzes neon e batidas eletrônicas que faziam o chão vibrar. No camarote VIP, Heitor ocupava o sofá de couro com a postura de quem era dono do lugar. Ele girava o gelo em seu copo de uísque, observando o movimento com um desapego calculado. Ao seu lado, uma modelo loira, de traços finos e vestido curto, mantinha uma conversa fútil sobre uma festa em Ibiza. Heitor não estava interessado no conteúdo, apenas na distração. — Você parece distante, Heitor — ela comentou, deslizando a mão pelo braço musculoso dele. — Apenas o cansaço de uma semana longa — ele respondeu, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos. Ele não buscava conexão. Buscava o que sempre buscava: uma noite que preenchesse o tempo sem exigir nada de sua alma. Foram para o apartamento dela pouco depois da meia-noite. Foi um encontro técnico, intenso e sem promessas, exatamente dentro das regras que ele estabelecera para si mesmo desde que Letícia partira. No auge da noite, ele pensou em Alice, mas logo tentou apagar da cabeça; ele apenas tinha que seguir o roteiro de um homem que usava o prazer para manter o controle sobre o próprio isolamento. ... Às quatro e meia da manhã, Heitor abriu a porta da mansão. O ar condicionado do hall o atingiu, trazendo o cheiro de limpeza da casa, que contrastava com o cheiro de álcool e fumaça que ele carregava na roupa. Ele caminhou em direção às escadas, mas uma luz suave vinda da cozinha chamou sua atenção. Ao entrar no ambiente, encontrou Alice sentada à mesa. Ela tinha um copo de água à sua frente e olhava fixamente para a parede oposta, com uma expressão de quem estava a quilômetros de distância. Ela não parecia estar à espera de ninguém; parecia apenas incapaz de lidar com o próprio silêncio. Ao notar a presença dele, ela se levantou prontamente, recuperando a postura profissional. — Senhor Albuquerque. Desculpe, eu perdi a noção do tempo. Heitor a encarou. Sua camisa estava amassada e o cabelo, que ele costumava arrumar para trás com a mão, estava desgrenhado. Ele notou que o olhar de Alice passou brevemente pela mancha de batom em sua gola, mas a expressão dela não mudou. Não houve julgamento, nem surpresa. Apenas uma aceitação passiva da realidade dele. — Beber água no escuro não parece o melhor descanso para quem precisa acordar cedo com duas crianças — ele observou, a voz rouca, sem grosseria, apenas constatando um fato. — Eu tive dificuldade para pegar no sono, senhor. Só vim buscar água. Já estou subindo — ela explicou, a voz baixa. Heitor se aproximou da bancada para deixar as chaves, ficando a poucos passos dela. O cheiro da noite dele — uísque e um perfume feminino doce — ocupou o espaço entre eles. Alice sentiu o odor, mas não reagiu. Ela apenas deu um passo para o lado, cedendo espaço. — Alice — ele chamou, quando ela já se encaminhava para a saída. Ela parou e se virou, aguardando a instrução. Heitor passou a mão no cabelo, um gesto de cansaço, e a observou sob a luz fraca. — Amanhã temos investidores em casa para um almoço. Isabela vai lhe dar os detalhes. Certifique-se de que as crianças fiquem em uma parte reservada da casa. É um negócio importante. — Sim, senhor. Vou garantir que tudo corra bem — ela respondeu de forma objetiva. — Boa noite, então. — Boa noite, senhor Albuquerque. Ela subiu as escadas com passos leves. Heitor ficou para trás, sozinho na cozinha. Ele pegou um copo, serviu-se de água e olhou para a cadeira onde ela estava sentada segundos antes. Ele tinha tido a noite que queria, tinha reafirmado seu estilo de vida, mas a presença silenciosa daquela mulher em sua casa trazia uma estranha sensação de que as coisas estavam mudando, quer ele quisesse ou não. Ele subiu para o quarto, focado apenas nas três horas de sono que teria antes de voltar a ser o CEO de ferro.






