Mundo ficciónIniciar sesiónMariá não chegou para ocupar um lugar. Chegou para sustentar o que já existe. Contratada como Babá de duas crianças que cresceram cedo demais, ela entra em uma casa marcada por ausência, organização rígida e silêncios bem administrados. Lucas e Lara não precisam de alguém que mande — precisam de alguém que escute. E Mariá escuta. Entre rotinas, pequenos gestos e decisões que parecem simples, algo começa a se reorganizar. As crianças ganham voz. A casa muda de ritmo. Limites passam a existir sem confronto. Autoridade deixa de ser imposta e passa a ser reconhecida. Ramon, o pai, observa à distância. Acostumado a controlar tudo sem se envolver, percebe que algo se move fora do seu alcance — não por desobediência, mas por maturidade. E isso o desconcerta. Nada em Mim é Tarde é um romance sobre o tempo interno das mulheres, descobertas, sobre cuidado sem posse, desejo sem pressa e o tipo de força que não precisa se explicar. Uma história onde pertencimento não é pedido — é construído em silêncio.
Leer másQuando o avião pousou naquele lugar até então desconhecido, meu coração carregava um misto de emoções. Eu estaria perto do meu filho, mas deixava para trás tudo o que um dia acreditei que seria para sempre — tudo o que, por muito tempo, foi a minha verdade.
Aqui estou. Começando de novo. Reconstruindo uma história que me realizou… e que, no fim, me destruiu de uma forma avassaladora. Respiro fundo. Endireito os ombros. Sigo de cabeça erguida em busca do meu filho. De longe, o vejo sorrindo. Ao lado dele, uma moça linda. — Filho… — minha voz sai embargada antes mesmo de eu perceber. Eu o abraço forte. Ele me envolve com a mesma intensidade e chega a me erguer do chão, rindo. — Bem-vinda a Tampa, mãe! Ele se afasta um pouco, ainda sorrindo. — Ah… deixa eu te apresentar. Essa é a Diana, minha namorada. Eu a cumprimento com um abraço espontâneo. — Prazer, Diana. Sou Mariá, mãe desse seu lindo namorado. Apesar de ele não ter me contado que estava namorando, fico muito feliz por ele. Ela ri, leve, à vontade. — Tem só uma semana que o seu filho me pediu em namoro, Mariá… ele estava me enrolando — diz, brincando, enquanto lança um olhar cúmplice para ele. Márcio levanta as mãos, teatral. — Já me rendo. Duas contra um é covardia. Melhor irmos… minha mãe deve estar cansada da viagem, e vocês vão ter muito tempo para trocar figurinhas. — Márcio… — repreendo, em tom de brincadeira. Seguimos rindo em direção ao apartamento dele. Já fizemos outras viagens juntos para fora do país. Mas, desta vez, enquanto o carro atravessa as ruas de Tampa, algo diferente me atravessa também. Um sentimento novo. Estranho. Ainda sem nome. Alguns minutos depois, chegamos a um prédio imponente, em um bairro movimentado e vibrante. Tudo ali parece moderno demais. E, de algum modo, distante da vida que deixei para trás. Sou Mariá. Tenho 45 anos e carrego no peito uma vida inteira de silêncios, renúncias e resistência. Sou mulher negra, filha de agricultores, criada no interior entre a poeira da estrada, o cheiro de terra molhada e o ensinamento de que a gente não desiste — mesmo quando dói. Sou a segunda filha de João e Sara. Cresci aprendendo a ser forte antes mesmo de aprender a ser frágil. Meu irmão mais velho, Júnior, sempre foi o primeiro. Eu fui a que se adapta, a que ajuda, a que aguenta. Casei jovem com Marco Antônio. Crescemos juntos. Construímos tudo lado a lado: a casa, o filho, os sonhos, as contas, os sacrifícios. Eu acreditava que amor era parceria — e fiz disso um voto silencioso, repetido todos os dias. Quando saímos do interior para a cidade grande, deixei para trás a família, o chão conhecido e uma parte de mim que nunca voltou inteira. Ainda assim, segui. Sempre segui. Sou falante, sorridente, boa ouvinte — talvez boa demais. Transformei minha sensibilidade em profissão e me tornei terapeuta. Não fiquei rica. Mas ajudei a sustentar uma casa, segurei dores que não eram minhas e aprendi a esconder as minhas. Ajudei pessoas a se reconstruírem enquanto, aos poucos, eu mesma começava a desmoronar em silêncio. Marco Antônio prosperou. Tornou-se um homem admirado, confiante, bonito. E cada vez mais distante. Nosso filho cresceu, formou-se, seguiu a própria vida. E, de repente, a casa ficou grande demais — e eu, pequena demais dentro dela. Fui ficando só. Mesmo ainda casada. Mesmo ainda amando. Mesmo ainda tentando. Até que a traição veio. Não apenas como ferida, mas como exposição. Espalhada pelas redes, pelos olhares, pelos comentários. Uma humilhação pública. Ele mentiu. Tentou justificar. Tentou voltar. Mas existe um ponto em que o amor deixa de ser laço e vira corte. Eu ultrapassei o limite da dor. Ele ultrapassou o limite do perdão. E agora estou aqui. Entre a mulher que fui — dedicada, paciente, invisível — e a mulher que talvez eu ainda possa ser. Porque, se tudo em mim parece ter demorado… nada em mim é tarde. Agora estou nos Estados Unidos. Com medo, sim. Mas com muito mais vontade do que receio. Ver o Márcio bem, realizado profissionalmente e emocionalmente, me traz alívio. Ele seguiu. Está bem. E isso me dá espaço para, finalmente, ser eu. Agora é a minha vez. De me olhar. De me priorizar. De seguir o que meu coração mandar. No divórcio, deixei para Marco Antônio tudo o que era concreto. Fiquei com o que era meu em dinheiro e um valor mensal referente à minha parte na oficina. O suficiente para começar sem depender de ninguém. O Márcio ainda não sabe, mas não vou morar com ele. Quero que ele continue vivendo a própria vida. Não quero um filho cuidando de mim. Já cuidei demais. Não o quero se anulando pra fazer o mesmo. Minha amiga Sandra mora aqui há mais de dez anos. Está solteira, separada do terceiro casamento, sem filhos. Me convidou para dividir despesas e companhia. Hoje, isso me parece o ideal. Ficarei apenas três dias com meu filho. Já tenho uma entrevista de emprego marcada. Não atravessei um país sem a intenção de me sustentar. Sandra me indicou para trabalhar como tutora de duas crianças de dez anos. Babá, no fundo. Gente rica gosta de nome sofisticado para coisas simples. Quando contei ao Márcio, ele não gostou. Disse que, com minha formação, eu deveria procurar algo melhor. Ele esquece que aqui sou estrangeira. Não sou uma menina. E recomeços, às vezes, pedem humildade. Quando falei do salário e dos benefícios, ele se assustou. Vou trabalhar para um milionário do ramo da tecnologia. Minhas despesas serão mínimas. Trabalho de segunda a sexta. Durmo na casa da família. Tudo pago. Tudo muito bem pago. Durante viagens do patrão, não posso sair nos dias de folga — mas também não preciso gastar nada. Confesso: estou gostando da ideia. É o que sei fazer. E sei fazer bem. E, talvez pela primeira vez na vida, terei tempo para mim. Eles têm muitas atividades. Nesse intervalo, posso estudar, cuidar de mim, aperfeiçoar meu inglês — que hoje ainda é básico. Vou ser paga para fazer o que gosto. E isso, por enquanto, é mais do que suficiente.Respiro fundo antes de sair do quarto.Não sei exatamente por quê, mas estou nervosa de vê-lo de novo.Caminho até a cozinha tentando parecer normal.É só café. Só mais um dia.Quando entro, ele já está lá.A mesma calça de ontem.Hoje, uma camiseta.Cabelo ainda úmido.Corpo relaxado.Como se nada tivesse acontecido.Ele levanta os olhos quando me vê.E para.Não é exagero.Ele realmente para.O olhar desce devagar.Quente. Avaliador.Sinto o calor subir pelo pescoço. Se minha pele fosse clara, estaria vermelha agora. Agradeço mentalmente por não ser.As crianças vêm correndo assim que me veem.— Bom dia, tia Mà!— Bom dia de novo, meus queridos.Respondo rápido. Preciso desse respiro.— Bom dia, Mariá.Meu nome na boca dele tem peso.Não é formal.Não é distante.Ele me olha como se estivesse confirmando alguma coisa.— Dormiu bem?Penso rápido demais.— Dormi.Mentira pequena. Não preciso confessar sonhos.Ele encosta no balcão, braços cruzados.— As crianças disseram que te acorda
Nada me preparou para o que vi assim que virei o corredor.Segui para a cozinha sem acender luz nenhuma. Nunca precisei. Conheço cada canto dessa casa. Moro aqui desde criança.Quando fiz vinte anos, fui morar em um apartamento pequeno que ganhei dos meus pais. Na época ainda estagiava, mas já ganhava bem. Sempre fui bom com tecnologia, me destaquei cedo.Quando meu pai morreu, eu já morava numa grande cobertura. Depois que as crianças nasceram, minha necessidade de uma casa e da minha mãe de morar em um lugar menor nos levou a trocar tudo. Reformamos. Adaptamos para a nossa vida.Então sim.Conheço essa casa no escuro.Vejo a luz acesa e imagino ser a nova senhora que cuida das crianças.Ela está na cozinha.A luz baixa bate no balcão.O vestido de linho claro marca o corpo dela com delicadeza.O cabelo solto, volumoso, meio selvagem. Dá vontade de enfiar os dedos e segurar.É bonito.Ela é bonita.Ela ainda não percebeu minha presença. Tomava seu chá tranquilamente .Eu observo.
A semana passou tão rápido e leve que eu tive certeza de que fiz a coisa certa.A nossa ligação foi crescendo natural. Às vezes isso até me assusta. Não foi forçado. Não teve esforço. Simplesmente foi.Hoje é sexta-feira.— Quero que umas fotos sejam tiradas aqui na casa do meu filho. Algo casual. Uma mulher comum — a Rose disse pela manhã, com aquele olhar que parece sempre saber mais do que fala.Ela segurou meu rosto com carinho e completou:— Mas você não tem nada de comum, Mariá. Nunca teve.Eu senti o peito aquecer. Não respondi. Só sorri de leve.Eu e a Cris somos as únicas funcionárias que circulamos o tempo todo pela casa. Ela já me explicou que o senhor Ramon prefere equipe de limpeza que venha dia sim, dia não. Discreto. Organizado.Eu cuido do meu quarto e das crianças. Mas, na verdade, quase não dá trabalho. Eles são muito organizados.O Lucas é ainda mais. Perfeccionista. Nem parece uma criança às vezes.— Ele é muito parecido com o pai — a Cris comentou uma vez.Eu apen
Amanda chegou no horário exato.Nem um minuto antes, nem depois.Entrou como quem já conhecia cada canto da casa — e conhecia. Caminhava apontando, comentando, lembrando detalhes antigos, como se o espaço ainda respondesse a ela.— O Ramon sempre gostou de tudo moderno e elegante — disse, passando a mão pela parede do corredor. — Nada carregado, mas marcante. Tons neutros. Madeira clara. Funcionalidade antes de tudo.Não olhou pra mim quando falou.Falava para o ar.Ou para a memória que fazia questão de manter viva.Lara e Lucas estavam sentados no sofá, atentos.— Mas o quarto vai ser nosso — Lara disse, simples, sem levantar a voz.Amanda sorriu. Um sorriso treinado.— Claro, querida. Mas a gente precisa pensar no conjunto da casa. O gosto do seu pai…— Eu já pensei — Lara interrompeu, segura. — Quero claro, com uma parede rosa e detalhes na mesma cor. Espaço pra desenhar, fazer minhas roupas de boneca, prateleiras, muitas gavetas. E uma parede pra colar coisas, igual vi numa revis
Ramon atendeu no segundo toque.— Fala, mãe.Do outro lado, Rose não perdeu tempo.— Liguei pra te contar uma decisão das crianças.Ele endireitou a postura automaticamente.— O que foi?— Elas conversaram e decidiram separar os quartos.Houve um silêncio curto. Não de surpresa total — ele já vinha tentando isso —, mas de atenção.— Decidiram… como foi isso? — perguntou.— Sugestão do Lucas na hora do café hoje. Conversaram entre si, pensaram, ele expôs as vantagens pra Lara e ela concordou — respondeu Rose. — Querem mais espaço. Mais autonomia.Ramon passou a mão pelo queixo, satisfeito.— Ótimo. Era algo que eu vinha tentando, você sabe. Forçar nunca funcionou com eles.— Pois é — disse a mãe. — Dessa vez veio deles.Mesmo concordando, algo incomodou. Ele sentiu antes de formular.— E essa mudança… — começou, escolhendo as palavras — …tem a ver com a nova babá?Rose não respondeu de imediato.— Tem a ver com a segurança que ela passa — disse por fim. — Com confiança. Elas estão tran
Passei o dia inteiro envolvida na rotina das crianças.Nos intervalos, me cuidando como nunca fiz.Às vezes me pergunto como pude me colocar tão de lado.Mas estou na luta para vencer minhas inseguranças.A todo momento lembro do convite que recebi.Liguei para a Sandra pra contar. Precisei rir da euforia da minha amiga. Acho que ela já me imagina virando modelo. Perguntei se ela estava esquecendo que tenho quarenta e cinco anos e não sou nenhuma menina.Como sempre, ela tinha resposta pra tudo.Disse que eu represento a melhor idade.A das gatas experientes.Ela é demais.Uma coisa que ela falou me fez concordar:o que eu tenho a perder?Ainda vou ganhar pra isso. E levar roupas lindas.“Banho de loja”, foi a frase que ela usou.No fim da tarde, o pai das crianças ligou. Enquanto eles conversavam, aproveitei pra falar com meu filho e com meus pais.Na hora de dormir, coloquei as crianças na cama de novo. Antes, a Lara me pediu pra ir ao shopping com ela comprar algumas roupas. Realm










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