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Capítulo 02 — Casa Nova, Silêncios Novos

A casa da Sandra fica em um bairro tranquilo chamado Hyde Park, arborizado, daqueles que parecem respirar mais devagar. Tudo ali é calmo, elegante, com um charme discreto. É um lugar que parece caro. Claro que, se fosse no Brasil, seria só para ricos. Aqui, é para quem teve oportunidades maiores.

Quando o carro estaciona em frente, fico alguns segundos olhando antes de descer. Não é uma casa grande, nem luxuosa, mas tem algo que me acalma. Talvez o fato de não carregar nenhuma memória minha ainda.

— Bem-vinda ao seu novo caos organizado — ela diz, abrindo o portão com um sorriso aberto.

Eu rio. O riso sai fácil. Estranho como, com ela, eu não preciso me explicar.

Sandra é dessas mulheres que a vida tentou dobrar algumas vezes… e falhou. Alta, cabelos lisos presos de qualquer jeito, olhar atento, meio irônico. Separada pela terceira vez, sem filhos, cheia de histórias que dariam um livro inteiro. A gente se conhece há anos, mas só agora podemos ser livres de verdade e viver muito do que sonhamos na adolescência. Na verdade, ela viveu. Eu escolhi me casar. Agora estamos aqui. E vamos morar juntas.

— Fica à vontade, Mariá. Aqui não tem regras rígidas. Só não mexe no meu café — brinca.

— Justo. Café é território sagrado.

Ela me mostra o quarto. Simples. Uma cama, uma poltrona, uma janela grande e um closet vazio, espaçoso, à espera.

Entro devagar, como se estivesse pedindo licença àquele espaço que, por enquanto, não sabe nada sobre mim.

— Esse espaço você pode colocar do seu jeito — ela diz. — Fica à vontade. Te espero na sala.

Fecho a porta.

Respiro.

É estranho perceber como o silêncio pode ser diferente. Não é aquele silêncio pesado de um casamento em ruínas, cheio de coisas não ditas. Aqui é um silêncio limpo. Um silêncio que não cobra explicações.

Sento na cama e passo a mão no colchão, como quem testa se pode confiar.

— Você tá bem? — a voz da Sandra vem do corredor.

— Tô… — respondo, e percebo que, pela primeira vez em muito tempo, não estou mentindo.

À noite, jantamos algo simples. Massa, vinho barato, conversa solta. Falamos de tudo e de nada. Rimos das nossas próprias escolhas erradas, sem autopiedade. Em algum momento, ela me olha com mais cuidado.

— Você sabe que isso aqui não é fuga, né?

Penso antes de responder.

— Sei. É escolha.

Ela assente, satisfeita.

— Vamos sair. Você precisa conhecer o mundo com o seu olhar. Viver só por viver. Se sentir realmente livre.

— Acho cedo — respondo.

Ela ri.

— Eu acho tarde.

Depois me observa com atenção.

— Olha pra você, Mariá. Uma mulher linda. Amanhã vamos ter um dia de princesa. Salão, dar uma geral.

— Você acha que eu devia alisar meu cabelo? — pergunto, meio séria, meio insegura.

— Tá louca? — ela dispara. — A única coisa que você não deve mexer é nisso. Pelo contrário, vamos colocar essas madeixas pra jogo. Deixar essa leoa sair daí.

Caímos na gargalhada.

Eu realmente preciso desse humor da Sandra.

Mais tarde, sozinha no quarto, pego o celular. Uma mensagem do Márcio.

Chegou bem?

Cheguei. A casa é ótima. Fica tranquilo.

Não digo mais nada. Não conto dos planos. Não conto da entrevista que será amanhã à tarde. Algumas decisões precisam amadurecer em silêncio antes de serem compartilhadas. Ele acha que me convenceu a desistir. Mas não. Agora, eu decido daqui.

Deito e encaro o teto escuro.

O medo ainda está ali.

Mas ele já não manda em mim.

No dia seguinte, acordo cedo. O fuso ainda bagunça meu corpo, mas a mente está desperta. Tomo café observando a rua pela janela. Pessoas caminhando, crianças indo para a escola. Até os condomínios aqui são diferentes. Lá fora, a vida acontece sem saber da minha existência.

É libertador.

A entrevista é à tarde. Passo o dia tentando não criar expectativas demais. Nós nos arrumamos. Fiz uma faxina completa — cabeça, barba e bigode, como dizem na minha cidade. Meu cabelo ficou lindo. Mesmo com todo o volume, bem tratado, bonito como nunca vi. Compramos algumas roupas, e a Sandra me fez experimentar um vestido. Fiquei diferente. Me vi bonita como não me via há tempos.

Me preparo mentalmente para a entrevista. Reviso meu inglês básico, repito frases, lembro a mim mesma que sei cuidar, sei ouvir, sei estar presente. Sempre soube.

Quando chega a hora, visto algo simples, mas elegante. Nada de tentar parecer quem não sou.

Sandra me leva até o endereço. Uma casa enorme. Uma mansão, na verdade. Moderna, cercada por árvores altas e um portão eletrônico que se abre em silêncio. Engulo em seco.

— Vai dar tudo certo — ela diz, antes de ir embora. — E, se não der, a gente inventa outra coisa.

Assinto.

Sou recebida por uma mulher elegante, postura firme, sorriso contido. A mãe. Conversamos. Ela faz perguntas objetivas. Quer saber da minha experiência, da minha disponibilidade, da minha paciência.

— Aqui chamamos de tutora — ela explica. — Mas, na prática, é alguém que esteja com eles. Que cuide.

Penso em quantas vezes cuidei de adultos emocionalmente quebrados e quase sorrio.

— Eu sei cuidar — respondo, simples. — Sou mãe. Tenho um filho já adulto.

Ela me olha surpresa.

— Tão nova?

Rio.

— Nem tanto. Tenho 45 anos.

As crianças aparecem no fim. Um casal de dez anos, curiosos, observando de longe. O menino sorri. A menina me analisa, como se estivesse decidindo se posso entrar no mundo deles.

Reconheço aquele olhar.

Eu também sempre observei antes de confiar.

Saio da casa com o coração acelerado. Não sei se vou ser escolhida. Mas sei que, pela primeira vez, não estou tentando provar nada para ninguém.

À noite, no quarto que começa a parecer meu, me olho no espelho.

— É isso, Mariá — digo em voz baixa. — Seja quem você é.

Estou linda. Um vestido midi, decote grande nas costas, discreto na frente. Meus cabelos soltos, com aquele volume que sempre me incomodou — e que o Marco Antônio dizia ser demais. Agora, eu adoro. E é assim que vou deixar sempre que me arrumar.

Olho de novo no espelho.

Sorrio.

E, pela primeira vez em muitos anos, isso parece suficiente.

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