Mundo de ficçãoIniciar sessãoA casa da Sandra fica em um bairro tranquilo chamado Hyde Park, arborizado, daqueles que parecem respirar mais devagar. Tudo ali é calmo, elegante, com um charme discreto. É um lugar que parece caro. Claro que, se fosse no Brasil, seria só para ricos. Aqui, é para quem teve oportunidades maiores.
Quando o carro estaciona em frente, fico alguns segundos olhando antes de descer. Não é uma casa grande, nem luxuosa, mas tem algo que me acalma. Talvez o fato de não carregar nenhuma memória minha ainda. — Bem-vinda ao seu novo caos organizado — ela diz, abrindo o portão com um sorriso aberto. Eu rio. O riso sai fácil. Estranho como, com ela, eu não preciso me explicar. Sandra é dessas mulheres que a vida tentou dobrar algumas vezes… e falhou. Alta, cabelos lisos presos de qualquer jeito, olhar atento, meio irônico. Separada pela terceira vez, sem filhos, cheia de histórias que dariam um livro inteiro. A gente se conhece há anos, mas só agora podemos ser livres de verdade e viver muito do que sonhamos na adolescência. Na verdade, ela viveu. Eu escolhi me casar. Agora estamos aqui. E vamos morar juntas. — Fica à vontade, Mariá. Aqui não tem regras rígidas. Só não mexe no meu café — brinca. — Justo. Café é território sagrado. Ela me mostra o quarto. Simples. Uma cama, uma poltrona, uma janela grande e um closet vazio, espaçoso, à espera. Entro devagar, como se estivesse pedindo licença àquele espaço que, por enquanto, não sabe nada sobre mim. — Esse espaço você pode colocar do seu jeito — ela diz. — Fica à vontade. Te espero na sala. Fecho a porta. Respiro. É estranho perceber como o silêncio pode ser diferente. Não é aquele silêncio pesado de um casamento em ruínas, cheio de coisas não ditas. Aqui é um silêncio limpo. Um silêncio que não cobra explicações. Sento na cama e passo a mão no colchão, como quem testa se pode confiar. — Você tá bem? — a voz da Sandra vem do corredor. — Tô… — respondo, e percebo que, pela primeira vez em muito tempo, não estou mentindo. À noite, jantamos algo simples. Massa, vinho barato, conversa solta. Falamos de tudo e de nada. Rimos das nossas próprias escolhas erradas, sem autopiedade. Em algum momento, ela me olha com mais cuidado. — Você sabe que isso aqui não é fuga, né? Penso antes de responder. — Sei. É escolha. Ela assente, satisfeita. — Vamos sair. Você precisa conhecer o mundo com o seu olhar. Viver só por viver. Se sentir realmente livre. — Acho cedo — respondo. Ela ri. — Eu acho tarde. Depois me observa com atenção. — Olha pra você, Mariá. Uma mulher linda. Amanhã vamos ter um dia de princesa. Salão, dar uma geral. — Você acha que eu devia alisar meu cabelo? — pergunto, meio séria, meio insegura. — Tá louca? — ela dispara. — A única coisa que você não deve mexer é nisso. Pelo contrário, vamos colocar essas madeixas pra jogo. Deixar essa leoa sair daí. Caímos na gargalhada. Eu realmente preciso desse humor da Sandra. Mais tarde, sozinha no quarto, pego o celular. Uma mensagem do Márcio. Chegou bem? Cheguei. A casa é ótima. Fica tranquilo. Não digo mais nada. Não conto dos planos. Não conto da entrevista que será amanhã à tarde. Algumas decisões precisam amadurecer em silêncio antes de serem compartilhadas. Ele acha que me convenceu a desistir. Mas não. Agora, eu decido daqui. Deito e encaro o teto escuro. O medo ainda está ali. Mas ele já não manda em mim. No dia seguinte, acordo cedo. O fuso ainda bagunça meu corpo, mas a mente está desperta. Tomo café observando a rua pela janela. Pessoas caminhando, crianças indo para a escola. Até os condomínios aqui são diferentes. Lá fora, a vida acontece sem saber da minha existência. É libertador. A entrevista é à tarde. Passo o dia tentando não criar expectativas demais. Nós nos arrumamos. Fiz uma faxina completa — cabeça, barba e bigode, como dizem na minha cidade. Meu cabelo ficou lindo. Mesmo com todo o volume, bem tratado, bonito como nunca vi. Compramos algumas roupas, e a Sandra me fez experimentar um vestido. Fiquei diferente. Me vi bonita como não me via há tempos. Me preparo mentalmente para a entrevista. Reviso meu inglês básico, repito frases, lembro a mim mesma que sei cuidar, sei ouvir, sei estar presente. Sempre soube. Quando chega a hora, visto algo simples, mas elegante. Nada de tentar parecer quem não sou. Sandra me leva até o endereço. Uma casa enorme. Uma mansão, na verdade. Moderna, cercada por árvores altas e um portão eletrônico que se abre em silêncio. Engulo em seco. — Vai dar tudo certo — ela diz, antes de ir embora. — E, se não der, a gente inventa outra coisa. Assinto. Sou recebida por uma mulher elegante, postura firme, sorriso contido. A mãe. Conversamos. Ela faz perguntas objetivas. Quer saber da minha experiência, da minha disponibilidade, da minha paciência. — Aqui chamamos de tutora — ela explica. — Mas, na prática, é alguém que esteja com eles. Que cuide. Penso em quantas vezes cuidei de adultos emocionalmente quebrados e quase sorrio. — Eu sei cuidar — respondo, simples. — Sou mãe. Tenho um filho já adulto. Ela me olha surpresa. — Tão nova? Rio. — Nem tanto. Tenho 45 anos. As crianças aparecem no fim. Um casal de dez anos, curiosos, observando de longe. O menino sorri. A menina me analisa, como se estivesse decidindo se posso entrar no mundo deles. Reconheço aquele olhar. Eu também sempre observei antes de confiar. Saio da casa com o coração acelerado. Não sei se vou ser escolhida. Mas sei que, pela primeira vez, não estou tentando provar nada para ninguém. À noite, no quarto que começa a parecer meu, me olho no espelho. — É isso, Mariá — digo em voz baixa. — Seja quem você é. Estou linda. Um vestido midi, decote grande nas costas, discreto na frente. Meus cabelos soltos, com aquele volume que sempre me incomodou — e que o Marco Antônio dizia ser demais. Agora, eu adoro. E é assim que vou deixar sempre que me arrumar. Olho de novo no espelho. Sorrio. E, pela primeira vez em muitos anos, isso parece suficiente.






