Início / Romance / Nada em Mim é TARDE - depois 40 / Capítulo 06- Conhecendo o Território
Capítulo 06- Conhecendo o Território

No quarto de hotel, Ramon acorda já quase pela manhã.

Levanta com cuidado, troca de roupa e sai.

Não se despede.

Nunca o faz.

Na recepção, todos já o conhecem. Está tudo pago. A moça pode ficar até o café da manhã — mesmo que seja mais tarde.

É isso que ele oferece. Nada além.

Sem culpa.

Ele não é homem de promessas.

Na porta, o segurança o aguarda. Ramon entra no carro e seguem para casa.

Assim que chega, vai direto ao quarto dos filhos. Sempre começa por ali. É um hábito. Um jeito de acalmar o coração.

Só depois toma banho e dorme por algumas horas.

Pela manhã, a rotina é a de sempre com eles. O café fica por conta da sua fiel Cris.

Hoje ele viaja no fim da manhã.

Deitado, de olhos fechados, apenas espera seus despertadores favoritos.

O silêncio é quebrado por passos apressados.

A porta se abre.

— Bom dia, papai!

Lucas já está ao lado da cama. O sorriso vem no automático.

— Bom dia, filho.

Menos de um minuto depois, ela aparece.

— Bom dia, papai!

— Bom dia, minha linda. Como vocês dormiram?

— Bem — respondem juntos.

Lara se adianta.

— Papai, eu quero chegar uns minutos mais cedo hoje.

Ramon abre os olhos de vez.

— E posso saber o porquê? — pergunta, atento.

— Minhas amigas vão querer ver minha mochila nova.

Lucas revira os olhos.

— Coisa chata de menina. Pra quê isso? Quando você chegar, elas já vão ver, Lara.

Ramon ri, mas o repreende de imediato.

— Lucas… se isso é importante pra sua irmã, você não questiona. Como irmão, você apoia. E ela deve fazer o mesmo por você quando for preciso.

Olha para os dois, sério e afetuoso ao mesmo tempo.

— Irmãos se apoiam. Sempre.

Lara sorri, satisfeita.

Lucas bufa, mas concorda com a cabeça.

Ramon fecha os olhos por um segundo.

É nisso que ele acredita.

É assim que ele ensina.

Mariá...

Acordo cedo.

Muito cedo.

As coisas já estão arrumadas desde a noite anterior. Roupa separada. Bolsa pronta. Tudo no lugar.

Mesmo assim, não consigo ficar parada.

O corpo está aqui.

A cabeça, não.

A senhora Diniz foi clara na mensagem, sem rodeios, como quem está acostumada a organizar vidas:

— O motorista passa para te buscar assim que deixar o Ramon no hangar.

Eu ainda não o conheço.

E, pelo visto, não vou conhecer tão cedo.

Ele ficará fora a semana inteira. Quem estará na casa é a senhora Diniz… e a cozinheira. Cristina.

É ela quem vai me apresentar a rotina das crianças.

Isso deveria me tranquilizar.

Mas só me deixa mais atenta.

Às oito em ponto, Sandra se despede. O abraço dura mais do que o normal. O olhar diz tudo o que não precisa ser dito.

Me pediram para tirar a folga só na próxima semana.

Claro que concordo.

Faz sentido.

Por dentro, sinto aquele misto que sempre aparece quando algo importante começa: responsabilidade… e expectativa.

A casa dos Diniz me recebe em silêncio.

Mas não é um silêncio frio.

É um silêncio que funciona.

— Pode me chamar de Cris — diz ela, surgindo da cozinha, sorrindo, como quem não gosta de cerimônia.

Cristina deve ter uns sessenta e cinco anos. Falante, mas observadora. Daquelas presenças que não precisam se impor — já mandam naturalmente.

Ela me mostra a casa com orgulho: meu quarto que será próximo do quarto das crianças, os horários, manias, regras. Fala bastante, mas me observa o tempo todo. Avalia enquanto ensina.

Na cozinha, o tom muda.

— Aqui é meu território— avisa, sem perder o sorriso. — Cada coisa no seu lugar e tempo. Horários são horários.

Assinto. Respeito imediato.

Ela me observa mais uma vez, com calma.

— Mas eu abro exceção quando sinto confiança. E gostei de você.

Sinto o peito aliviar. Um pouco.

— Fique à vontade pra ajudar, sugerir, criar para eles— continua. — Desde que respeite o que já funciona.

— Claro — respondo. — Gosto de aprender primeiro.

Ela sorri. Daqueles sorrisos que aprovam.

Enquanto caminhamos, comenta quase como quem fala de um filho:

— Eu ajudei a criar o Ramon. Desde pequeno.

E diz isso com um orgulho que não tenta esconder.

Eu escuto. Não pergunto.

Ainda não o conheço.

Mas começo a entender que ele tem uma ótima rede de apoio.

E, sem saber explicar por quê, sinto que essa semana vai me exigir mais do que imagino.

Respiro fundo.

Ainda estou na cozinha com a Cris quando escuto passos leves descendo a escada.

Não preciso virar pra saber.

Criança anda diferente.

Segundo a Cris, assim que chegam do colégio eles já sobem, se trocam, lavam as mãos e vêm direto almoçar. Ela deixa tudo pronto, esperando. Chegam esfomeados.

— Essa idade é assim mesmo — eu lhe disse.

— Bom dia — digo primeiro, pra não assustar.

Lucas aparece antes. Me observa de cima a baixo, curioso, sem disfarçar.

Depois vem Lara, com aquele olhar que mede tudo e decide rápido.

— Bom dia — ela responde, sorrindo.

— Bom dia — Lucas completa, mais sério.

Cris se antecipa, como quem apresenta algo precioso.

— Essa é a Mariá. Ela vai ficar com vocês a partir de hoje.

Lara inclina a cabeça, me analisa mais um pouco.

— Você não é velha — diz, direta.

Eu rio. Não consigo evitar.

— Obrigada… eu acho.

Lucas franze a testa.

— As outras eram. Você é bonita também.

Cris solta uma gargalhada curta.

— Lucas!

— Ué, vó Cris, eram mesmo.

Eu me abaixo um pouco, fico na altura deles.

— Quantos anos vocês acham que eu tenho?

Lara sorri, cúmplice.

— Uns trinta… e poucos.

— Quarenta e cinco — digo, sem drama.

Lucas arregala os olhos.

— Sério? Minha professora tem trinta e parece mais velha.

Dou de ombros.

— A vida trata cada um de um jeito.

Lara se aproxima mais.

— Você é brasileira, né?

— Sou.

— Eu sabia! — ela vibra. — A outra falava estranho. Era espanhola.

Lucas concorda com a cabeça.

— Ela não deixava a gente conversar muito.

— Nem rir alto — Lara completa.

Respiro antes de responder.

— Aqui a gente conversa. Ri. Aprende. Mas também respeita combinado. Pode ser?

Eles se olham. Trocam aquele acordo silencioso de irmãos.

— Pode — respondem juntos.

Cris observa de longe. Sorriso discreto. Avaliando.

— O pai de vocês prefere tutoras mais velhas — comenta, casual. — Pra não confundir as coisas.

Lucas dá de ombros.

— Confundir o quê?

Cris lança um olhar rápido pra mim e muda o tom.

— Nada que criança precise se preocupar.

Lara me puxa pela mão.

— Você vai ficar pra dormir, né?

— Por enquanto, sim.

— Pena — ela diz, sincera demais pra ser ensaiada.

Lucas completa, sem olhar pra mim:

— Você é diferente.

— Diferente como?

Ele pensa um pouco.

— Normal.

Eu sorrio.

Porque sei exatamente o que isso significa.

Mais tarde, enquanto eles almoçam, penso no homem que escolheu tutoras mais velhas pra evitar confusão.

Penso que ele fez tudo certo.

Dentro do controle que conhece.

E que é bom eu ser exatamente o padrão de limite que ele coloca.

Aos quarenta e cinco.

E, sem saber ainda, penso que essa casa também não contava comigo.

Mas eu estou aqui. Tentando ficar.

Inteira.

E me dando novas oportunidades. Pela primeira vez, tenho tempo pra mim. Aqui eu tenho funções e horários. Não sou eu quem decide tudo, administra tudo. E ainda ganho pra isso — diga-se de passagem, ganho muito bem.

A Cris disse que não preciso usar uniforme. Só estar sempre alinhada.

Falou que sou elegante no simples. Acho que foi um elogio genuíno. Eu sou simples mesmo.

As crianças estão com a professora de música agora. Depois ainda terão aula de língua estrangeira.

Lara faz francês e português do Brasil. Combinei de treinar com ela: ela me ensina inglês, eu ensino português.

Lucas estuda italiano e alemão. Disse que também quer participar do combinado e aprender português. Com ele, — optei por italiano. Ideia minha...

Já acho difícil o inglês.

A Cris me disse que muitas coisas que falo ela ainda não entende. Vamos falar uma com a outra mais devagar. Eu tenho boa escuta. A fala… nem tanto.

Ah, a casa tem uma academia completa. A Cris disse que posso usar. Eu tinha me matriculado pra três vezes na semana, mas deixei pra quando for pra casa. Aqui, vou malhar antes das crianças acordarem pro colégio.

Fiquei sabendo que ninguém os acorda. Eles mesmos despertam.

Tão diferente do Márcio, que sempre deu trabalho quando estudava de manhã.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App