Mundo de ficçãoIniciar sessãoA casa da Sandra não tem cheiro de comida caseira todos os dias.
Não por descuido — por escolha. Ela gosta de restaurantes, de delivery bem escolhido, de mesas postas fora de casa. Cozinhar nunca foi um ritual. Adaptou-se bem ao estilo americano de viver. Ainda assim, é surpreendentemente bom estar assim ,vivendo o contrário. Trazendo lembranças à tona através de um momento simples. No almoço, algo diferente paira no ar. O cheiro vem da cozinha. Simples. Afetivo. — Faz anos que não sinto esse aroma — Sandra diz, encostada no batente da porta, observando Mariá mexer a panela com calma. — Me lembra meus pais. Minha mãe cantava enquanto cozinhava… meu pai ficava rondando a cozinha, beliscando tudo. Mariá sorri de leve, sem olhar. O movimento da colher é automático, ri com suas próprias lembranças. — Cozinhar sempre foi conversa pra mim — responde. — Era ali que a gente se encontrava. Sandra engole seco. Não esperava sentir aquilo. A amizade, às vezes, devolve coisas que a vida levou sem avisar. Quando Márcio chega com a namorada, a casa já está cheia de presença. Não de luxo — de vínculo. Eles se abraçam sem pressa. Há intimidade ali. Sandra é madrinha dele. Foi quem o acolheu quando chegou. Sempre esteve presente. — Que cheiro bom, mãe — Márcio diz, entrando na cozinha e beijando o rosto de Mariá. — Faz tempo que não como comida sua. — E eu fazia tempo que não cozinhava pra você — ela responde, com um sorriso que carrega mais do que saudade. — Aliás… — ele brinca, observando melhor. — Só de chegar aqui já nem parece mais minha mãe. Tá mais jovem. Até mais bonita ainda, se é que isso é possível. Mariá ri sem graça. O elogio alcança lugares que ela ainda está reaprendendo a ocupar. À mesa, o contraste se impõe sem precisar ser dito. Sandra observa. Aprende. Se permite sentir. Mariá respira fundo antes de falar. O coração pede coragem. — Eu tenho novidades — diz, pousando o garfo. — Comecei algo novo. Um projeto… comigo mesma. Márcio sorri na hora. Orgulho aberto. — Vou começar num novo emprego — ela continua. — Já me matriculei num curso de inglês. Quero ver como faço pra, no futuro, voltar pra minha profissão de verdade. E também me matriculei na academia. — Eu sabia — ele diz, firme. — Você precisava disso. — Fiquei feliz… mas também com medo — Mariá admite. — Medo de me perder de novo vivendo pros outros. O olhar dele muda. Fica sério. Presente. — É aí que eu entro como filho — ele diz, com cuidado. — Promete que não vai fazer isso de novo? Que não vai se anular por ninguém de novo? Ela segura a mão dele por cima da mesa. — Prometo tentar. Todos os dias. — Porque você fez isso por nós — ele continua. — Por mim. Pelo meu pai. E eu… — hesita. — Eu fui fraco. O silêncio pesa. Mas não machuca. Cura. — Eu vi o quanto ele te diminuía — Márcio diz. — Muitas vezes fiquei calado. Pior: ele alimentou suas inseguranças. Foi egoísta. Pensou só nele. E ainda te expôs… te humilhou. E eu não estava lá pra te defender como devia. Os olhos de Mariá ardem, mas ela não chora. Não ali. — Eu também não lutei por mim — diz, baixa. — Isso também foi um erro meu. — Eu amo meu pai — ele continua. — Mas discordo profundamente de como ele agiu. Ele quer recuperar o casamento. Mas, merece aprender… mas não às custas de você se perder de novo. Que isso sirva pra ele ser melhor… talvez pra próxima mulher. Ela respira fundo. Orgulho puro. — Filho — Mariá diz, firme e doce —, eu não quero que você rompa com seu pai por minha causa. Os erros dele precisam servir a ele. E os nossos… a nós. Pra sabermos o que nunca repetir. Ele assente. — Um relacionamento só funciona com dois inteiros — ela continua. — Com individualidade, respeito. Um ajudando o outro a se cuidar. Eu te criei pra ser um homem melhor do que vimos. Pra viver o que eu não vivi. Diana, a namorada, que até então observava em silêncio, se emociona. — Só você continuar sendo esse homem — diz, com a voz embargada —, não tenho dúvida nenhuma: ela te criou muito bem. Eu tinha receios… mas ver vocês assim me dá certeza. Sandra limpa discretamente os olhos. Mariá sente algo se encaixar por dentro. — Talvez — diz, pensativa — eu tenha ensinado tudo isso aos outros… e esquecido de viver pra mim. Sorri. Um sorriso novo. — Mas agora não. Agora é comigo. E isso… me faz feliz. Porque vejo que valeu a pena. Que conectados pela mesma verdade: quando o amor é inteiro, ele atravessa gerações. Do outro lado... O domingo começou cedo . Não por obrigação — por escolha. Ramon acorda com o som da bola quicando na quadra externa. Lucas já está lá, inquieto, esperando. Lara aparece logo depois, ainda com cara de sono, mas sorrindo só de estar ali. — Vai ficar olhando ou vai jogar? — Lucas provoca. Ramon ri, pega a bola e entra na quadra. A bola passa de um para o outro. Riem. Erram. Disputam como se o mundo coubesse naquele espaço. Lara corre menos, mas comemora mais. Quando faz um ponto, levanta os braços como se tivesse conquistado algo enorme. Depois de cansar do jogo, a piscina. O sol já era alto, a água fria no começo, os gritos inevitáveis. Ramon observa os dois nadando, brigando por bobeiras , rindo alto. Entra também. Molha o cabelo. Deixa o celular longe esquecido de propósito. O almoço é servido por Cristina — a Cris. Trabalha ali há anos. Conhece cada silêncio, cada rotina. E ninguém acha que é uma funcionária. — Hoje caprichei — diz, orgulhosa, colocando as travessas na mesa externa. — Sempre capricha, Cris — Lara responde, sincera. Comem juntos. Sem pressa. Sem telas. A mãe de Ramon passou o dia fora, com uma amiga. Domingo também é liberdade para ela. À tarde, o inevitável. — Pai… — Lara começa, com aquele tom que ele já conhece. — O que foi agora? — Eu preciso de uma mochila nova. Lucas revira os olhos. — A dela tá perfeita. — Não tá — ela rebate. — Tá fora da moda. É de criança pequena. — Isso é bobagem — Lucas insiste. — Pra você. Ramon suspira. Odeia shopping. Lucas também. No fim, ele cede. Sempre cede. O shopping está cheio, barulhento, excessivo. Ramon caminha atento e impaciente. Lucas arrasta os pés. Lara anda decidida, escolhendo algo que represente quem sente que está se tornando. Quando encontra a mochila, os olhos brilham. E isso basta. De volta à casa, estão exaustos. Banho rápido. Pijamas. Depois, no tapete da sala, contam tudo para a avó quando ela chega. Ela escuta sorrindo. Orgulhosa. Pouco depois, é só jantar e cama. A casa volta ao silêncio. Ramon se j**a no sofá. O corpo pesado. A mente, enfim, desacelerando. O celular vibra. Marcelo. — Onde você se enfiou hoje? — Em casa. Com os meus filhos. Tô morto. — Festa hoje. Boa. Gente bonita. Você precisa aparecer. — Não tô com cabeça. — É justamente por isso — ele ri. — A melhor forma de descansar é nos braços de uma linda mulher. Ramon fecha os olhos por um segundo. — Você não desiste nunca, né? — Nunca. Suspira. Vencido mais pela insistência do amigo do que pela vontade. — Meia hora estarei aí,manda a localização. Desliga. Levanta devagar. Ainda sem certeza. Mas vai. Alguma coisa nele ainda quer se mover. Mesmo cansado. Mesmo sem saber por quê. A festa é bonita. E previsível. Luzes , música alta demais, gente bem-vestida tentando parecer espontânea. Ramon circula com um copo na mão. Conversas repetidas. Risos automáticos. — Você tá com cara de quem quer ir embora — Marcelo provoca. — Porque eu quero. — Relaxa. A noite nem começou. Ramon pensa em discordar. Mas então acontece. Entre corpos em movimento, risos exagerados e vestidos curtos demais, ele vê ela. O impacto não vem do rosto inteiro. Vem do jeito. Do modo como ocupa o espaço sem pedir licença — mas sem a naturalidade da outra. O coração não dispara. Não é a mulher da boate. Ele sabe. Mas algo ali aciona a memória. O incômodo. O desejo mal resolvido que tentou empurrar para longe. Ela tenta chamar atenção. E é exatamente por isso que não chama da forma certa. Não falta beleza. Sobra intenção. Ramon observa. Analisa. Ela inclina o corpo de lado, o olhar jogado por cima do ombro — ensaiado demais. — Merda… — murmura. Marcelo segue o olhar. Eu investiria. Ramon bebe um gole. Não pra criar coragem. Ele não precisa disso. Passa a mão no rosto, ajeita o paletó, respira fundo. E vai. Não pergunta se deve. Não ensaia frases. Não espera sinal. A aproximação é direta. Calma. Segura. — Você dança — diz, ao parar ao lado dela. Não é pergunta. Ela vira o rosto devagar. Já o tinha visto. O olhar encontra o dele sem pudor. — Às vezes. Ramon sustenta o olhar. Não sorri de imediato. — Dá pra perceber quando alguém dança, porque gosta… e quando dança pra ser visto. Ela ergue a sobrancelha. Avalia. Não se afasta. — Você observa bastante. Agora ele sorri. Um meio sorriso discreto. Masculino. — Quando vale a pena. Silêncio curto. Elétrico. — Ramon. — Kelly. O nome fica entre eles um segundo a mais do que o necessário. — Poderíamos dançar com mais privacidade em outro lugar— ele diz, firme. — Não vai se arrepender. Ela cruza os braços devagar. — Você parece valer a pena. — Normalmente eu não perco tempo. — E por que ainda está aqui? Ele não desvia. — Porque espero o seu sim. Ela sustenta o olhar. Sente o peso daquela presença. O tipo de homem que não se explica. Não se desculpa . — Então vamos — diz, por fim. — Antes que você se arrependa. Ramon estende a mão. Vamos. Ela aceita. A música fica para trás. O corpo dele conduz sem dominar. Ele percebe cada reação, cada reação nela. No carro, o cheiro dela é intenso. O toque é rápido. Ela fecha os olhos. Ele também. Mas Ramon sabe. Não conhece aquela mulher — e não quer conhecer. Ela se parece com a outra apenas o suficiente para enganar seu corpo. Nunca a memória. Não será ela. Não será nenhuma como ela. E isso o irrita mais do que deveria.






