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Capítulo 05 — O Contraste dos Dois Mundos

A casa da Sandra não tem cheiro de comida caseira todos os dias.

Não por descuido — por escolha.

Ela gosta de restaurantes, de delivery bem escolhido, de mesas postas fora de casa. Cozinhar nunca foi um ritual. Adaptou-se bem ao estilo americano de viver.

Ainda assim, é surpreendentemente bom estar assim ,vivendo o contrário.

Trazendo lembranças à tona através de um momento simples.

No almoço, algo diferente paira no ar.

O cheiro vem da cozinha. Simples. Afetivo.

— Faz anos que não sinto esse aroma — Sandra diz, encostada no batente da porta, observando Mariá mexer a panela com calma. — Me lembra meus pais. Minha mãe cantava enquanto cozinhava… meu pai ficava rondando a cozinha, beliscando tudo.

Mariá sorri de leve, sem olhar. O movimento da colher é automático, ri com suas próprias lembranças.

— Cozinhar sempre foi conversa pra mim — responde. — Era ali que a gente se encontrava.

Sandra engole seco. Não esperava sentir aquilo.

A amizade, às vezes, devolve coisas que a vida levou sem avisar.

Quando Márcio chega com a namorada, a casa já está cheia de presença.

Não de luxo — de vínculo.

Eles se abraçam sem pressa. Há intimidade ali.

Sandra é madrinha dele. Foi quem o acolheu quando chegou. Sempre esteve presente.

— Que cheiro bom, mãe — Márcio diz, entrando na cozinha e beijando o rosto de Mariá. — Faz tempo que não como comida sua.

— E eu fazia tempo que não cozinhava pra você — ela responde, com um sorriso que carrega mais do que saudade.

— Aliás… — ele brinca, observando melhor. — Só de chegar aqui já nem parece mais minha mãe. Tá mais jovem. Até mais bonita ainda, se é que isso é possível.

Mariá ri sem graça. O elogio alcança lugares que ela ainda está reaprendendo a ocupar.

À mesa, o contraste se impõe sem precisar ser dito.

Sandra observa. Aprende. Se permite sentir.

Mariá respira fundo antes de falar. O coração pede coragem.

— Eu tenho novidades — diz, pousando o garfo. — Comecei algo novo. Um projeto… comigo mesma.

Márcio sorri na hora. Orgulho aberto.

— Vou começar num novo emprego — ela continua. — Já me matriculei num curso de inglês. Quero ver como faço pra, no futuro, voltar pra minha profissão de verdade. E também me matriculei na academia.

— Eu sabia — ele diz, firme. — Você precisava disso.

— Fiquei feliz… mas também com medo — Mariá admite. — Medo de me perder de novo vivendo pros outros.

O olhar dele muda. Fica sério. Presente.

— É aí que eu entro como filho — ele diz, com cuidado. — Promete que não vai fazer isso de novo? Que não vai se anular por ninguém de novo?

Ela segura a mão dele por cima da mesa.

— Prometo tentar. Todos os dias.

— Porque você fez isso por nós — ele continua. — Por mim. Pelo meu pai. E eu… — hesita. — Eu fui fraco.

O silêncio pesa. Mas não machuca. Cura.

— Eu vi o quanto ele te diminuía — Márcio diz. — Muitas vezes fiquei calado. Pior: ele alimentou suas inseguranças. Foi egoísta. Pensou só nele. E ainda te expôs… te humilhou. E eu não estava lá pra te defender como devia.

Os olhos de Mariá ardem, mas ela não chora. Não ali.

— Eu também não lutei por mim — diz, baixa. — Isso também foi um erro meu.

— Eu amo meu pai — ele continua. — Mas discordo profundamente de como ele agiu. Ele quer recuperar o casamento. Mas, merece aprender… mas não às custas de você se perder de novo. Que isso sirva pra ele ser melhor… talvez pra próxima mulher.

Ela respira fundo. Orgulho puro.

— Filho — Mariá diz, firme e doce —, eu não quero que você rompa com seu pai por minha causa. Os erros dele precisam servir a ele. E os nossos… a nós. Pra sabermos o que nunca repetir.

Ele assente.

— Um relacionamento só funciona com dois inteiros — ela continua. — Com individualidade, respeito. Um ajudando o outro a se cuidar. Eu te criei pra ser um homem melhor do que vimos. Pra viver o que eu não vivi.

Diana, a namorada, que até então observava em silêncio, se emociona.

— Só você continuar sendo esse homem — diz, com a voz embargada —, não tenho dúvida nenhuma: ela te criou muito bem.

Eu tinha receios… mas ver vocês assim me dá certeza.

Sandra limpa discretamente os olhos.

Mariá sente algo se encaixar por dentro.

— Talvez — diz, pensativa — eu tenha ensinado tudo isso aos outros… e esquecido de viver pra mim.

Sorri. Um sorriso novo.

— Mas agora não. Agora é comigo.

E isso… me faz feliz. Porque vejo que valeu a pena.

Que conectados pela mesma verdade: quando o amor é inteiro, ele atravessa gerações.

Do outro lado...

O domingo começou cedo .

Não por obrigação — por escolha.

Ramon acorda com o som da bola quicando na quadra externa. Lucas já está lá, inquieto, esperando. Lara aparece logo depois, ainda com cara de sono, mas sorrindo só de estar ali.

— Vai ficar olhando ou vai jogar? — Lucas provoca.

Ramon ri, pega a bola e entra na quadra.

A bola passa de um para o outro. Riem. Erram. Disputam como se o mundo coubesse naquele espaço. Lara corre menos, mas comemora mais. Quando faz um ponto, levanta os braços como se tivesse conquistado algo enorme.

Depois de cansar do jogo, a piscina.

O sol já era alto, a água fria no começo, os gritos inevitáveis.

Ramon observa os dois nadando, brigando por bobeiras , rindo alto. Entra também. Molha o cabelo. Deixa o celular longe esquecido de propósito.

O almoço é servido por Cristina — a Cris.

Trabalha ali há anos. Conhece cada silêncio, cada rotina. E ninguém acha que é uma funcionária.

— Hoje caprichei — diz, orgulhosa, colocando as travessas na mesa externa.

— Sempre capricha, Cris — Lara responde, sincera.

Comem juntos. Sem pressa. Sem telas.

A mãe de Ramon passou o dia fora, com uma amiga. Domingo também é liberdade para ela.

À tarde, o inevitável.

— Pai… — Lara começa, com aquele tom que ele já conhece.

— O que foi agora?

— Eu preciso de uma mochila nova.

Lucas revira os olhos.

— A dela tá perfeita.

— Não tá — ela rebate. — Tá fora da moda. É de criança pequena.

— Isso é bobagem — Lucas insiste.

— Pra você.

Ramon suspira. Odeia shopping. Lucas também.

No fim, ele cede. Sempre cede.

O shopping está cheio, barulhento, excessivo. Ramon caminha atento e impaciente. Lucas arrasta os pés. Lara anda decidida, escolhendo algo que represente quem sente que está se tornando.

Quando encontra a mochila, os olhos brilham.

E isso basta.

De volta à casa, estão exaustos. Banho rápido. Pijamas.

Depois, no tapete da sala, contam tudo para a avó quando ela chega.

Ela escuta sorrindo. Orgulhosa.

Pouco depois, é só jantar e cama.

A casa volta ao silêncio.

Ramon se j**a no sofá. O corpo pesado. A mente, enfim, desacelerando. O celular vibra.

Marcelo.

— Onde você se enfiou hoje?

— Em casa. Com os meus filhos. Tô morto.

— Festa hoje. Boa. Gente bonita. Você precisa aparecer.

— Não tô com cabeça.

— É justamente por isso — ele ri. — A melhor forma de descansar é nos braços de uma linda mulher.

Ramon fecha os olhos por um segundo.

— Você não desiste nunca, né?

— Nunca.

Suspira. Vencido mais pela insistência do amigo do que pela vontade.

— Meia hora estarei aí,manda a localização.

Desliga. Levanta devagar. Ainda sem certeza.

Mas vai.

Alguma coisa nele ainda quer se mover.

Mesmo cansado. Mesmo sem saber por quê.

A festa é bonita.

E previsível.

Luzes , música alta demais, gente bem-vestida tentando parecer espontânea. Ramon circula com um copo na mão. Conversas repetidas. Risos automáticos.

— Você tá com cara de quem quer ir embora — Marcelo provoca.

— Porque eu quero.

— Relaxa. A noite nem começou.

Ramon pensa em discordar. Mas então acontece.

Entre corpos em movimento, risos exagerados e vestidos curtos demais, ele vê ela.

O impacto não vem do rosto inteiro. Vem do jeito. Do modo como ocupa o espaço sem pedir licença — mas sem a naturalidade da outra.

O coração não dispara.

Não é a mulher da boate. Ele sabe.

Mas algo ali aciona a memória. O incômodo. O desejo mal resolvido que tentou empurrar para longe.

Ela tenta chamar atenção.

E é exatamente por isso que não chama da forma certa.

Não falta beleza.

Sobra intenção.

Ramon observa. Analisa.

Ela inclina o corpo de lado, o olhar jogado por cima do ombro — ensaiado demais.

— Merda… — murmura.

Marcelo segue o olhar.

Eu investiria.

Ramon bebe um gole. Não pra criar coragem. Ele não precisa disso.

Passa a mão no rosto, ajeita o paletó, respira fundo.

E vai.

Não pergunta se deve.

Não ensaia frases.

Não espera sinal.

A aproximação é direta. Calma. Segura.

— Você dança — diz, ao parar ao lado dela.

Não é pergunta.

Ela vira o rosto devagar. Já o tinha visto. O olhar encontra o dele sem pudor.

— Às vezes.

Ramon sustenta o olhar. Não sorri de imediato.

— Dá pra perceber quando alguém dança, porque gosta… e quando dança pra ser visto.

Ela ergue a sobrancelha. Avalia. Não se afasta.

— Você observa bastante.

Agora ele sorri. Um meio sorriso discreto. Masculino.

— Quando vale a pena.

Silêncio curto. Elétrico.

— Ramon.

— Kelly.

O nome fica entre eles um segundo a mais do que o necessário.

— Poderíamos dançar com mais privacidade em outro lugar— ele diz, firme. — Não vai se arrepender.

Ela cruza os braços devagar.

— Você parece valer a pena.

— Normalmente eu não perco tempo.

— E por que ainda está aqui?

Ele não desvia.

— Porque espero o seu sim.

Ela sustenta o olhar. Sente o peso daquela presença.

O tipo de homem que não se explica. Não se desculpa .

— Então vamos — diz, por fim. — Antes que você se arrependa.

Ramon estende a mão. Vamos.

Ela aceita.

A música fica para trás. O corpo dele conduz sem dominar. Ele percebe cada reação, cada reação nela.

No carro, o cheiro dela é intenso. O toque é rápido.

Ela fecha os olhos.

Ele também.

Mas Ramon sabe.

Não conhece aquela mulher — e não quer conhecer.

Ela se parece com a outra apenas o suficiente para enganar seu corpo.

Nunca a memória.

Não será ela.

Não será nenhuma como ela.

E isso o irrita mais do que deveria.

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