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Capítulo 03 — Quando o Corpo Lembra

Sandra não me deu muita escolha.

— Hoje você vai sair — decretou, já com o celular na mão, finalizando tudo. — Chega de casa, chega de silêncio. Você precisa sentir o mundo de novo.

— Sandra, eu acabei de chegar… — tentei argumentar, mas sem muita convicção.

— Justamente. É agora ou você se encolhe outra vez.

Ela escolhe a roupa comigo como quem cumpre uma missão. Um vestido que marca o corpo sem pedir permissão, mas também sem exagero. Me olho no espelho e sinto um misto de estranhamento e curiosidade. Estou linda. Um vestido midi, decote grande nas costas, discreto na frente. Meus cabelos soltos, com aquele volume que sempre me incomodou — e que Marco Antônio dizia ser demais. Agora, eu adoro. E é assim que vou deixar sempre que me arrumar.

— Faz quanto tempo que você não entra numa boate? — ela pergunta.

Penso.

— Acho que desde as matinês da adolescência… com você. — rio sem jeito. — Depois disso, nunca mais. Anos.

Sandra me olha com um misto de reprovação e carinho.

— Não dá pra acreditar que você, em todos esses anos, não viveu. Só se dedicou ao marido, depois ao filho, aos estudos, à casa e, por fim, ao trabalho. Tem razão de ter se esquecido. Mas, a partir de agora, vamos viver. Vamos, mulher linda. Duas poderosas pra noite.

Eu vou rindo, lembrando por que sempre fomos amigas, mesmo com a distância.

A boate é moderna, luz baixa, gente bonita, perfume no ar. A cidade vibra diferente à noite. Quando entramos, sinto o primeiro impacto: olhares. Alguns discretos. Outros nem tanto.

Meu corpo reage antes da cabeça. Endireito a postura, mas o coração acelera.

— Relaxa — Sandra cochicha. — Eles estão olhando porque você chama atenção e é uma gostosa no ponto certo. Acostuma.

Acostumar.

Essa palavra ainda parece distante.

Do outro lado do espaço, em uma área VIP elevada, Ramon Diniz observa. Não está caçando nada. Conversa, ri, copo na mão. Até que a vê.

Não é imediato. Não é aquele olhar rápido que percorre o corpo. É pausa. É curiosidade. É encantamento sem pressa. Ele observa como quem reconhece algo raro: uma mulher que não está tentando aparecer. Nem disponível. Nem desesperada.

Uma mulher viva, não é o tipo que está acostumado, porém,mexe com cada parte do seu corpo de uma forma...

— Quem é ela? — pergunta a Marcelo Ferraz, ao seu lado.

Marcelo segue o olhar.

— Não sei. Mas não parece daqui.

Ramon continua olhando. Não sorri. Não chama. Apenas observa.

Na pista, ainda me sinto deslocada. Sandra dança com facilidade, como se o mundo sempre tivesse sido gentil com ela. Eu fico alguns segundos parada, sentindo o som vibrar no chão, subir pelas pernas.

Vergonha.

Vontade de ir embora.

E, junto disso… algo mais.

Um calor antigo.

Fecho os olhos por um instante. Quando abro, deixo o corpo ir. Sem pensar em como pareço. Sem coreografia. Danço como sempre dancei. Como dançava antes de aprender a me conter.

E algo muda.

Os olhares se intensificam. Alguns homens se aproximam, tentam conversa. Eu sorrio, agradeço, mas não avanço. Não é sobre eles.

É sobre mim.

Meu corpo lembra.

Lembra que existe.

Lembra que sente prazer em ocupar espaço.

— Tá vendo? — Sandra grita perto do meu ouvido. — Você ainda encanta sem esforço nenhum.

Rio. Um riso solto. Verdadeiro.

Na área VIP, Ramon não tira os olhos dela. Não é a mais ousada da pista. Mas existe uma maturidade no jeito de dançar que não pede aprovação.

— Ela dança como quem se conhece — diz, mais para si do que para os outros.

Seu corpo reage ao dela de um jeito que até o desconcerta.

Marcelo ergue a sobrancelha, rindo.

— Interessante você reparar nisso. Essa mulher mexeu com você, hein?

Olha mais uma vez para a pista.

— É linda. Corpo curvilíneo, pernas torneadas, cintura fina… corpo violão. Pelo jeito, tocou você.

Ramon dá de ombros, mas continua olhando.

Mais tarde, já em casa, exausta e elétrica ao mesmo tempo, meu celular vibra.

Número desconhecido.

Boa noite, Mariá. Aqui é a Sra. Diniz.

As crianças gostaram muito de você.

Esse foi o fator decisivo.

Se ainda tiver interesse, gostaríamos que começasse na próxima semana.

Leio duas vezes.

Depois uma terceira.

Respondo na hora.

— Sandra! — grito do quarto.

Ela aparece na porta, sorrindo antes mesmo de eu falar.

— Você foi escolhida.

— Fui.

A gente se abraça. Não pulamos. Não gritamos. É um abraço firme, de quem sabe o peso disso.

— Te falei — ela diz. — Criança não mente quando sente confiança.

Sentamos na sala, ainda com a energia da noite grudada na pele, com nosso café companheiro.

— Me conta direito — peço. — Como é esse seu patrão… que em breve vai ser o meu também?

Sandra cruza as pernas, muda o tom.

— Rico. Muito. A empresa é do ramo de tecnologia. Visionário. Aos 25 anos já estava à frente do tempo. Reservado. Inteligente. Um pouco mulherengo. Nunca casou. Os filhos não são fruto de casamento. Dizem que a namorada engravidou e depois sumiu, deixando as crianças. Ele é exigente, mas justo.

— Ele chama Ramon, né?

Ela me olha com atenção.

— Ramon Diniz — confirma. — O cara que eu trabalho diretamente, o vice-presidente da empresa, é muito amigo dele.

— Então, eles circulam nesse mundo de poder… onde mulheres caem aos seus pés e ele nunca deixa ninguém se aproximar demais — sorrio de canto. — Um lindo e gostoso perigo ambulante. Rico, 39 anos, o chamado bom partido. Cuidado, amiga.

Sandra ri.

Sinto um arrepio leve. Não de expectativa. De consciência.

— Não estou procurando nada — digo.

— Eu sei — ela responde. — É justamente por isso que as coisas perigosas costumam acontecer.

Vou para o quarto ainda com a música da boate ecoando no corpo. Tomo um banho e deito sem apagar a luz. Penso no que Sandra disse e quase rio sozinha. Eu não preciso me preocupar. Ele é jovem. Eu não sou mulher pra ele. Isso me alivia. Não penso em outro relacionamento.

Hoje eu dancei.

Hoje fui escolhida.

Hoje fui vista.

Não por quem eu fui.

Mas por quem eu sou agora.

E, pela primeira vez, isso não me assusta.

Uma nova vida começa a se desenhar.

E eu vou me fortalecer.

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