Nada  em Mim é TARDE - depois 40
Nada em Mim é TARDE - depois 40
Por: Katia Bastos
capítulo 01- Recomeço

Quando o avião pousou naquele lugar até então desconhecido, meu coração carregava um misto de emoções. Eu estaria perto do meu filho, mas deixava para trás tudo o que um dia acreditei que seria para sempre — tudo o que, por muito tempo, foi a minha verdade.

Aqui estou.

Começando de novo.

Reconstruindo uma história que me realizou… e que, no fim, me destruiu de uma forma avassaladora.

Respiro fundo. Endireito os ombros. Sigo de cabeça erguida em busca do meu filho.

De longe, o vejo sorrindo. Ao lado dele, uma moça linda.

— Filho… — minha voz sai embargada antes mesmo de eu perceber.

Eu o abraço forte. Ele me envolve com a mesma intensidade e chega a me erguer do chão, rindo.

— Bem-vinda a Tampa, mãe!

Ele se afasta um pouco, ainda sorrindo.

— Ah… deixa eu te apresentar. Essa é a Diana, minha namorada.

Eu a cumprimento com um abraço espontâneo.

— Prazer, Diana. Sou Mariá, mãe desse seu lindo namorado. Apesar de ele não ter me contado que estava namorando, fico muito feliz por ele.

Ela ri, leve, à vontade.

— Tem só uma semana que o seu filho me pediu em namoro, Mariá… ele estava me enrolando — diz, brincando, enquanto lança um olhar cúmplice para ele.

Márcio levanta as mãos, teatral.

— Já me rendo. Duas contra um é covardia. Melhor irmos… minha mãe deve estar cansada da viagem, e vocês vão ter muito tempo para trocar figurinhas.

— Márcio… — repreendo, em tom de brincadeira.

Seguimos rindo em direção ao apartamento dele.

Já fizemos outras viagens juntos para fora do país. Mas, desta vez, enquanto o carro atravessa as ruas de Tampa, algo diferente me atravessa também. Um sentimento novo. Estranho. Ainda sem nome.

Alguns minutos depois, chegamos a um prédio imponente, em um bairro movimentado e vibrante.

Tudo ali parece moderno demais.

E, de algum modo, distante da vida que deixei para trás.

Sou Mariá.

Tenho 45 anos e carrego no peito uma vida inteira de silêncios, renúncias e resistência. Sou mulher negra, filha de agricultores, criada no interior entre a poeira da estrada, o cheiro de terra molhada e o ensinamento de que a gente não desiste — mesmo quando dói.

Sou a segunda filha de João e Sara. Cresci aprendendo a ser forte antes mesmo de aprender a ser frágil. Meu irmão mais velho, Júnior, sempre foi o primeiro. Eu fui a que se adapta, a que ajuda, a que aguenta.

Casei jovem com Marco Antônio. Crescemos juntos. Construímos tudo lado a lado: a casa, o filho, os sonhos, as contas, os sacrifícios. Eu acreditava que amor era parceria — e fiz disso um voto silencioso, repetido todos os dias.

Quando saímos do interior para a cidade grande, deixei para trás a família, o chão conhecido e uma parte de mim que nunca voltou inteira. Ainda assim, segui. Sempre segui.

Sou falante, sorridente, boa ouvinte — talvez boa demais. Transformei minha sensibilidade em profissão e me tornei terapeuta. Não fiquei rica. Mas ajudei a sustentar uma casa, segurei dores que não eram minhas e aprendi a esconder as minhas. Ajudei pessoas a se reconstruírem enquanto, aos poucos, eu mesma começava a desmoronar em silêncio.

Marco Antônio prosperou. Tornou-se um homem admirado, confiante, bonito.

E cada vez mais distante.

Nosso filho cresceu, formou-se, seguiu a própria vida.

E, de repente, a casa ficou grande demais — e eu, pequena demais dentro dela.

Fui ficando só.

Mesmo ainda casada.

Mesmo ainda amando.

Mesmo ainda tentando.

Até que a traição veio. Não apenas como ferida, mas como exposição. Espalhada pelas redes, pelos olhares, pelos comentários. Uma humilhação pública.

Ele mentiu.

Tentou justificar.

Tentou voltar.

Mas existe um ponto em que o amor deixa de ser laço e vira corte.

Eu ultrapassei o limite da dor.

Ele ultrapassou o limite do perdão.

E agora estou aqui.

Entre a mulher que fui — dedicada, paciente, invisível —

e a mulher que talvez eu ainda possa ser.

Porque, se tudo em mim parece ter demorado…

nada em mim é tarde.

Agora estou nos Estados Unidos.

Com medo, sim.

Mas com muito mais vontade do que receio.

Ver o Márcio bem, realizado profissionalmente e emocionalmente, me traz alívio. Ele seguiu. Está bem.

E isso me dá espaço para, finalmente, ser eu.

Agora é a minha vez.

De me olhar.

De me priorizar.

De seguir o que meu coração mandar.

No divórcio, deixei para Marco Antônio tudo o que era concreto. Fiquei com o que era meu em dinheiro e um valor mensal referente à minha parte na oficina. O suficiente para começar sem depender de ninguém.

O Márcio ainda não sabe, mas não vou morar com ele. Quero que ele continue vivendo a própria vida. Não quero um filho cuidando de mim. Já cuidei demais.

Não o quero se anulando pra fazer o mesmo.

Minha amiga Sandra mora aqui há mais de dez anos. Está solteira, separada do terceiro casamento, sem filhos. Me convidou para dividir despesas e companhia. Hoje, isso me parece o ideal.

Ficarei apenas três dias com meu filho. Já tenho uma entrevista de emprego marcada. Não atravessei um país sem a intenção de me sustentar.

Sandra me indicou para trabalhar como tutora de duas crianças de dez anos. Babá, no fundo. Gente rica gosta de nome sofisticado para coisas simples.

Quando contei ao Márcio, ele não gostou. Disse que, com minha formação, eu deveria procurar algo melhor. Ele esquece que aqui sou estrangeira. Não sou uma menina. E recomeços, às vezes, pedem humildade.

Quando falei do salário e dos benefícios, ele se assustou. Vou trabalhar para um milionário do ramo da tecnologia.

Minhas despesas serão mínimas. Trabalho de segunda a sexta. Durmo na casa da família. Tudo pago. Tudo muito bem pago. Durante viagens do patrão, não posso sair nos dias de folga — mas também não preciso gastar nada.

Confesso: estou gostando da ideia.

É o que sei fazer. E sei fazer bem.

E, talvez pela primeira vez na vida, terei tempo para mim. Eles têm muitas atividades. Nesse intervalo, posso estudar, cuidar de mim, aperfeiçoar meu inglês — que hoje ainda é básico.

Vou ser paga para fazer o que gosto.

E isso, por enquanto, é mais do que suficiente.

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