Capítulo 04 — Ramon Diniz

Minha mãe é uma mulher incrível.

E definitivamente não se encaixa na ideia clássica de avó.

Ela gosta de viver a vida. Sempre gostou. Nunca foi — nem quis ser — a mulher que se anula para cuidar dos outros. Meu pai morreu há doze anos. Era um advogado renomado, respeitado. Eles tiveram um casamento bonito, intenso, de parceria real. Talvez por isso ela não aceite menos do que isso.

Antes dele, minha mãe foi modelo. Depois, apaixonada por moda, construiu uma carreira sólida no ramo de lojas de alto padrão. É realizada profissionalmente, mas mais ainda por viver nesse universo de beleza, criação e movimento. Vive viajando para eventos, semanas de moda, inaugurações. Está sempre em trânsito — por escolha.

Namorou algumas vezes depois da morte do meu pai. Duas, talvez três. Mas sempre diz a mesma coisa, com um sorriso meio irônico no canto da boca: não tem mais paciência para homens. Quer viver para si. Se aparecer um amor de verão, ótimo. Se não, tudo bem também.

Pensa bem: sessenta e dois anos com essa lucidez, esse desapego e essa vontade de viver. Ela é linda. De verdade. O corpo e a mente parecem pelo menos dez anos mais jovens. Mas ela não se ilude. Não brinca de ser menina. Ela é uma mulher inteira.

O curioso é que, apesar de tudo isso, vive dizendo que eu preciso viver um relacionamento sério. Um de verdade. Daqueles de parceria, cumplicidade, construção. Diz que é importante experimentar isso pelo menos uma vez na vida. Ela viveu com meu pai — e quer algo assim para mim.

Eu escuto. Respeito.

Mas não sei se concordo.

A verdade é que nunca amei de fato.

Tive paixões, sim. Intensidades passageiras. Histórias bonitas, algumas complicadas, outras fáceis demais. Mas nenhuma que me fizesse querer ficar. Nenhuma que me desse vontade de dividir rotina, silêncio, fragilidade.

E olha que mulheres nunca faltaram.

De todos os tipos. Lindas. Inteligentes. Desejáveis. Mas sempre faltava algo. Não sei explicar exatamente o quê. Só sei que faltava.

Sobre a mãe dos meus filhos… as pessoas falam muito. Inventam mais ainda.

A verdade é simples, mesmo que não seja romântica. Foi uma gravidez por descuido. Ela tomava anticoncepcional. Em um período de tratamento, o preservativo falhou. Bingo. Grávida.

Ela não queria.

Eu também não planejava.

Mas uma coisa eu sabia com clareza: eu jamais permitiria que meus filhos não viessem ao mundo. Nunca cogitei outra possibilidade. Propus um acordo direto, sem drama. Ela teria as crianças. Eu ficaria com eles. Assumiria tudo. Suporte financeiro, emocional, o que fosse necessário para que ela seguisse a vida dela sem prejuízos.

Foi assim.

Ela teve os meninos. Eu cumpri tudo o que prometi.

Depois de um tempo, ela casou com um homem árabe e foi viver a vida que sonhava ao lado dele, em outro país. Nunca impedi. Nunca julguei. Cada um fez o que pôde com a própria história.

Eu não me arrependo.

Nem por um minuto.

Meus filhos são meus presentes.

O que a vida me deu de mais inteiro, mais verdadeiro, mais definitivo.

Talvez seja por isso que eu nunca aceitei menos do que verdade também no resto.

A casa está em silêncio quando acordo.

Não é um silêncio vazio — é um silêncio habitado.

Antes mesmo de abrir os olhos, reconheço os sons: o ar-condicionado no automático, o leve estalo da madeira, um passo apressado no corredor. Eles sempre acordam antes do despertador. Sempre.

Ainda de olhos fechados, aguardo.

— Pai!

A voz vem junto com a porta se abrindo sem pedir licença.

Sorrio antes mesmo de responder.

Abro os olhos e o Lucas já está ao lado da cama, cabelo bagunçado, camiseta amassada, aquela energia que não cabe no corpo.

— Bom dia — digo, puxando-o para perto.

Logo atrás vem a Lara. Mais contida. Observadora. O mesmo olhar atento que me encara como se estivesse sempre tentando me decifrar. Ela não se j**a. Ela chega devagar.

— Bom dia, pai.

— Bom dia, princesa.

Eles sobem na cama como fazem desde pequenos. Já são grandes para isso, eu sei. Dez anos não são mais cinco. Mas aqui dentro, nesse quarto, ainda somos nós três contra o mundo.

— Café — digo. — Senão vocês vão se atrasar.

Na cozinha, a rotina acontece quase sozinha. Cereal, frutas, suco. Mochilas jogadas nas cadeiras. Perguntas sobre provas, trabalhos, quem senta ao lado de quem na sala.

Eu escuto tudo. Presto atenção de verdade.

Aprendi cedo que presença não é estar — é participar.

E, ultimamente, isso tem me consumido. O trabalho me deixa em falta com eles mais do que eu gostaria.

— Você vai trabalhar até tarde hoje? — Lucas pergunta, distraído.

— Talvez — respondo. — Mas estarei em casa para o jantar.

Lara me observa por cima do copo. Ela sempre percebe quando respondo no automático.

— Você promete ou só acha?

Paro. Me abaixo na altura dela.

— Prometo.

Ela assente. Confia.

Isso pesa mais do que qualquer contrato que já assinei.

Levo os dois até a escola. Não é sempre que consigo, mas faço sempre que posso. Como ainda estão sem uma tutora, sou eu quem leva — ou a avó.

No caminho, brigam por causa de música. Sempre a mesma discussão. Um quer pop, o outro quer qualquer coisa que eu não entenda. Rio sozinho enquanto dirijo.

Quando descem do carro, fico observando até entrarem. Só então sigo. Sempre faço isso. Só vou embora quando tenho certeza de que estão seguros.

Apesar dos seguranças — que seguem no carro de trás — nunca relaxo.

Uma das partes ruins de ter dinheiro e ser conhecido é essa insegurança constante. O medo de que alguém possa fazer algo a eles.

No trabalho, Ramon Diniz é outra pessoa.

Decisões rápidas. Reuniões longas. Gente que escuta quando falo. Gente que espera que eu nunca falhe.

Mas ninguém ali sabe o peso real da minha vida.

No meio da manhã, recebo uma mensagem da escola. Nada grave. Apenas informando sobre uma atividade especial na semana seguinte. Leio com atenção, respondo educadamente, salvo na agenda.

Paternidade também é isso: lembrar de tudo quando o mundo insiste em te distrair.

Preciso de alguém urgente para ajudar nessas coisas.

Será que um dia eles vão entender as escolhas que fiz por eles?

Eu não tive manual.

Não tive modelo.

Fui aprendendo no susto. Errando. Ajustando. Abrindo mão de coisas que muitos homens não abririam.

Nunca me senti menos homem por isso.

Pelo contrário.

Ser pai me colocou no eixo. Me obrigou a ser inteiro. Talvez seja por isso que nunca aceitei relações rasas. Depois que você ama assim, tudo o que é pouco fica impossível de sustentar.

Tenho meus casos longe deles.

Acho que é daí que vem a fama.

À noite, quando chego em casa, eles já estão me esperando. A mesa posta. A conversa solta. O riso fácil. É aqui que descanso.

— Pai — Lucas diz de repente — você dança?

Engasgo com a água.

— Como assim?

— É que hoje na escola falaram de dança — ele dá de ombros. — Todo mundo tem vergonha.

Lara sorri de canto.

— Ele dança sim — ela diz. — Só não assume.

Rio.

— Talvez — respondo. — Mas só quando ninguém está olhando.

Eles riem.

E eu penso, sem saber por quê, na mulher da boate.

Na forma como ela dançava sem pedir licença. Sem se explicar. Sem parecer precisar de aprovação.

Balanço a cabeça, afastando o pensamento.

Não é hora.

Depois que eles dormem, passo no quarto de cada um. Ajusto o cobertor. Observo por alguns segundos. Faço isso todas as noites.

No meu quarto, o silêncio volta.

Mas agora ele pesa diferente.

Sou um homem completo em muitos aspectos. Bem-sucedido. Pai presente. Seguro das minhas escolhas.

E ainda assim, às vezes, sinto que algo dorme em mim. Esperando.

Apago a luz.

Amanhã vou ficar com eles o dia todo, para compensar a semana ausente.

Eles precisam de mim.

E isso — mais do que qualquer coisa — sempre foi suficiente.

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