Mundo de ficçãoIniciar sessãoAté onde você correria para deixar o passado para trás? Maya não tem para onde ir. Com apenas cem dólares na mochila, os pulmões ardendo e o peso de um segredo "feio demais" para ser dito em voz alta, ela encontra refúgio no único lugar que as luzes da estrada oferecem: um pub de beira de estrada. Escondida atrás do balcão, ela ouve os passos de seu pior pesadelo. E sle está à sua procura, usando a máscara de "família preocupada" para caçá-la. Mas, naquela noite, o destino decide jogar a favor de Maya. Protegida pelo silêncio de estranhos e pela hospitalidade bruta de Malcon, ela consegue um emprego e um teto temporário. O que ela não esperava era despertar a curiosidade de Oliver. Cético, implacável e gestor do local, Oliver não acredita em coincidências e muito menos em histórias mal contadas. Ele vê através da agilidade de Maya e da sua resistência em ser ajudada. Para ele, ela é um problema em potencial; para ela, ele é um perigo que pode devolvê-la ao seu algoz com um simples telefonema. Entre copos de vodka, segredos guardados a sete chaves e a proteção vigilante de uma equipe que conhece bem o peso da opressão, Maya terá que decidir se pode confiar em Oliver, um homem que detesta desconfiança, mas que adora o controle. Em um mundo de sombras e mentiras, a verdade pode ser a única coisa capaz de salvá-la... ou de destruí-la.
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Eu corria... Corria com tudo que tinha, trazendo tudo que tenho. Já não aguentava mais aquilo, esconder algo tão feio, que nunca podia ter acontecido. Fugindo, porque era tudo que eu podia fazer agora. Era a única forma de escapar. O ar rasga meus pulmões, as lágrimas embaralham a rua à minha frente, e cada passo parece alto demais para alguém que precisa desaparecer. A mochila pesa nas costas, como se carregasse não só minhas coisas, mas tudo o que eu tentei deixar para trás. Olho para trás, não vejo nada. Mesmo assim, o medo continua ali, colado na pele, me empurrando para frente. Porque eu sei que ele esta atrás de mim. Quando vejo o bar, naquela estrada, não penso. A luz fraca piscando acima da porta parece um convite silencioso. Ou uma última chance. Empurro a porta e entro. O cheiro me invade, madeira, desinfetante recém passado e algo amargo no ar. Não penso, só entro com tudo pra trás da bancada, tinha pessoas ali, umas limpando mesas, algumas no balcão. — Ei… um homem atrás da bancada me olha confuso. — O que você tá fazendo garota, não pode ficar aqui! Não respondo. Me agacho atrás do balcão, o coração batendo tão forte que tenho certeza de que podem ouvir. — Anda garota, você não ouviu ele? alguém diz, grosseiro. Não consigo ver, estava com o coração na boca, escondida atrás daquela bancada. — Por favor, me ajuda!! Ele não pode saber que eu estou aqui. Antes que eles consigam falar, a porta se abre. O som corta o ambiente. Eu prendo a respiração. Reconheço os passos antes mesmo de vê-lo. O jeito como o silêncio se ajeita em volta dele. O peso da presença. Fecho meus olhos sentindo tanto medo. — Ei cara, estamos fechados. O homem da bancada diz com uma voz firme. Escuto os passos se aproximarem mais. — Vocês viram uma garota passar por aqui? Um metro e sessenta, cabelos escuros? Meu corpo inteiro enrijece. Os segundos se esticam e com eles o meu maior medo exposto. Ser encontrada. — Não. responde o outro, num tom grave. — Se tivesse alguma garota assim aqui, acha que não teriamos visto? O silêncio que vem depois é insuportável. Ouço algo deslizar sobre a madeira. — Essa é ela... Não conseguia ver, mas sei que ele estava mostrando uma foto minha. — Se ela aparecer… a voz dele é baixa, controlada. — Me mandem uma mensagem, a família dela está preocupada. A porta fecha. Só então o ar volta para os meus pulmões. Solto um suspiro trêmulo, sentindo as pernas fraquejarem. — Vamos garota, saia... Ele já foi. Me levanto devagar. Um dos homens me encara, sério. — Que foi aquilo? Meu olhar corre até a porta, esperando vê-la se abrir de novo. — Quem era ele? ele pergunta. — Por que estava atrás de você? Balanço a cabeça, negando. E então olho pro cliente do outro lado da bancada, que me encarava com intensidade. — Ninguém importante, eu só precisava despistar ele. Obrigada! Dou um passo para sair, tudo que menos preciso são pessoas agora me perguntando o que eu estava fazendo. — Ô, garota. Meu corpo congela. — Acho melhor você falar. ele continua. — Ou vou precisar mesmo mandar uma mensagem pra ele? Viro devagar, olhando o cartão que está na mão dele. Meu coração dispara, violento. Porque conheço aquele cartão de vistas. Era dele... Da oficina daquele infeliz. Aquele mentiroso. Dizendo que minha família estava preocupada, só pra manipular as pessoas. — Minha família não está preocupada, é mentira dele! Ele olha pro homem na bancada que me olha desconfiado. — Você bebe? o outro pergunta, já pegando um copo. — Vou pegar uma bebida, relaxa. Você tá segura aqui, ele ainda pode está lá fora. Ele se afasta, desvio o olhar daquele homem bruto. — E então? Mas ele insiste. — Vou precisar ligar pra ele? Nego com a cabeça e me aproximo, sentindo as mãos tremerem. O copo desliza pela bancada. Pego e viro de uma vez, o álcool queimando a garganta, mas não o medo. Os dois me observam agora. — Por que ele estava atrás de você? Ai meu Deus... Eu não quero falar disso, não quero. — É um ex seu? O da bancada pergunta. Assinto, mentirosa. É mais fácil assim. Talvez eles me deixem sair sem me perguntarem a vida toda. — Ele te bateu, foi isso? Nego rápido. — Eu só precisava despistar ele… Eu não quero mais nada, é só isso! minha voz sai baixa, mas firme. — E eu já consegui, Obrigado! Não espero resposta. Tento sair de perto deles, mas aquele cara segura minha mão, e aquilo me causou um grande choque. — Não encosta em mim, cara! puxei rápido o braço, olhando pra ele de olhos arregalados. — Calma ai garota, a gente só queria ajudar! — Eu não preciso da sua ajuda! Quem ele pensa que é pra me tocar assim? Eu não quero! Não.. não preciso de ninguém, principalmente de homem. Saio do bar com o coração ainda disparado, engolida novamente pela noite. Saio do bar com as pernas fracas. O frio da madrugada me alcança rápido demais. Encosto na parede e abro a mochila, os dedos tremendo enquanto conto o dinheiro outra vez, como se o número pudesse mudar. Cem dólares. Só isso. Não dá mais pra quartos de estrada. Não dá pra fingir que ainda estou no controle. Ou eu pago pra dormir… ou pago pra comer nos próximos dias. Fecho a mochila devagar. Olho para o beco ao lado do bar. Ele dá saída para o outro lado da rua, escuro, estreito, cheirando a lixo e perigo. Não é seguro. Eu sei disso. Mas é o mais perto que tenho agora. Fico ali, parada, esperando. Vejo um dos homens de dentro sair. Aquele mesmo que quase ligou pro tirano do Mário pra me entregar. Ele sobe numa moto, coloca o capacete e vai embora. O ronco do motor some na rua vazia. ...— Quero ver se é tão boa sem olhar. Toquei a venda sobre os olhos, não conseguia ver nada. Nem mesmo as luzes vermelhas do lugar. — Vem, senta aqui. Manda eu sentar no banco de couro da mesa de canto. — Malcon, trás uma dose de cada. Kauan diz e senta do outro lado, assistindo ao show. Sinto a presença do Oliver ao meu lado, o calor do corpo dele colando no meu. Malcon chega com as garrafas, o som do vidro batendo na madeira soa como tambores de guerra. — O que vai rolar aqui? Malcon pergunta. — Ela está abusando da marra dela. Oliver responde, a voz vibrando perto do meu pescoço. — Essa eu não perco por nada. Malcon completa. Eu vou adorar pisar nesses caras... To pronta pra ganhar o carro, mas fácil da minha vida. Escuto tudo com uma atenção sobrenatural. O som dos gelos estalando, o clique das tampas abrindo, a respiração pesada do Oliver ao meu lado. Até ouvir a voz da Kelly aparecer, confusa. — O que é isso? Por que ela está vendada? —
Caminho até o pub sentindo o vento frio da noite tentar limpar o rastro daquelas mãos em mim. Quando entro, a luz baixa do bar me atinge. E lá está ele. Oliver. Ele está parado perto do balcão, conversando com o Malcon. No momento em que meus pés pisam no piso de madeira, ele vira. Um sinal claro do olhar do Malcon. Os olhos dele, intensos e escuros, cravam nos meus. É um olhar que quer me desvendar, que quer quebrar meus muros. Eu sinto o magnetismo. Sinto aquela segurança absurda que ele emana. Mas junto com ela, vem o medo. Se ele souber... se ele for mesmo como a Kelly fala, esse seu código de honra inabalável, ele vai destruir o mundo da minha mãe. E eu vou ter que recolher os cacos do corpo dela no chão. Engulo o nó na garganta e coloco minha máscara de gelo. Eu preciso odiar esse cara. Preciso que ele me ache uma ingrata, uma delinquente, qualquer coisa. Porque se eu deixar ele chegar perto, ele vai descobrir a verdade. E a verdade é uma senten
MAYA Aluguei a diária em um Hotel qualquer de estrada, precisava de tempo pra procurar um lugar fixo. O quarto cheira a mofo e desinfetante barato, o oposto do loft tecnológico daquele cara. Mas é aqui que eu pertenço. Essa aqui era minha realidade. Jogo a mochila num canto, abro a garrafa de uísque que comprei no caminho e bebo direto no gargalo, sentindo o fogo descer anestesiando o que sobrou do meu juízo. Que vida de merda. Acendo um cigarro, deixo a fumaça invadir meus pulmões e ligo o rádio no volume máximo. Preciso de barulho para não ouvir meus próprios pensamentos. Começo a dançar sozinha, balançando o corpo de um jeito desleixado, tentando sacudir o nojo que sinto da minha própria pele. Aquele cara... ele acha que é o salvador da pátria? Ele é igual a todos os outros. Canalha, tava me olhando dormir... E que merda, eu gostei. Eu provoquei aquele movimento, me expondo. Eu quis sentir mais, porque eu sou uma merda de uma doente que se atraiu pelo
OLIVER: Bato na porta da varanda com tanta força que o vidro vibra. — porra! Travo a mandíbula até sentir os dentes estalarem. Aquela garota é impossível. Ofereço a mão e ela me cospe no rosto com uma história de ninar sobre vício da mãe. Ela não quer ajuda? Pego o celular com as mãos ainda trêmulas de raiva. Nunca vi isso. Alguém passar por um abuso evidente, ter a chance de justiça e preferir mentir para proteger o agressor ou para se proteger de uma verdade que ela não aguenta dizer em voz alta. Sei lá cara... Ela vai me deixar louco. Estava confuso pra caralho, e explodir. A notificação do Kauan brilha na tela, com uma atualização que me deixa ainda confuso: "Jorge Almeida. Ficha limpa. Nada no sistema." — Mais que droga! jogo o celular no sofá. Ficha limpa não significa nada. O diabo costuma ser um bom vizinho. Ou ela era uma mentirosa nata. De todos forma, preciso tirar a porra dessa mulher da minha cabeça. As horas passam, mas o silêncio do
Meu Deus, eu estou horrível. tomo o banho mais rápido da vida e improviso: passo a pasta de dente dele com o dedo mesmo e capricho no enxaguante bucal. Saio arrumada, tentando recuperar pelo menos um pouco da dignidade que perdi olhando para a toalha dele. Ou melhor pro volume que ela escondia. O encontro na está na cozinha, vestido. Me abomino por me frustrar ao não ver aquele corpo exposto de novo. Que loucura é essa? Aquilo estava me incomodando, nunca fiquei assim Perto de ninguém, droga... Tenho que fazer isso parar. Aquele cara era um troglodita, egocêntrico, bruto e mais desalmado que já vi. Ele me ameaçou contar pro Mário que eu estava naquele bar. Acorda Maya! Olhei pra tudo que ele estava fazendo, tinha coisas prontas em cima do balcão e ele faz um sinal com a cabeça para eu levar os itens para a varanda. Eu obedeço em silêncio. Sentamos de frente para aquela vista incrível, mas o clima está pesado. — Come. ele ordena. Curto e grosso.
"Maldito tesão matinal. Porra, não fode". resmunguei para mim mesmo, enquanto sentia meu corpo reagir à provocação silenciosa que ela nem sabia que tinha feito. Maldita garota. Esperei meu corpo adormecer de novo e saí do banheiro apenas com uma toalha na cintura, escovando os dentes com a escova elétrica, quando os bips suaves do sistema inteligente soaram. O mecanismo das cortinas começou a girar. O apartamento, programado. É um mecanismo de relógio: às 6h as cortinas da varanda deslizam em um silêncio. A cafeteira range na cozinha, começando a moer os grãos, e o ar-condicionado dá seu último suspiro antes de desligar. — Merda! praguejei, a boca cheia de espuma. Cuspir rápido, lavando a boca e sair do quarto pra desativar as cortinas. Ainda meio molhado, catei o controle na mesa de cabeceira para abortar o comando. Tarde demais. A claridade já tinha invadido o quarto e ela estava se espreguiçando, os olhos abrindo devagar. Fechei as cortinas manualmente,
Último capítulo