CAPÍTULO 06

Minha mãe me olha uma última vez, uma mistura de pena e raiva.

— Você está cometendo um grande erro filha. Olha a confusão que você está fazendo, vai se arrepender e acabar voltando... e eu vou estar te esperando.

Senti todo meu corpo queimar.

Erro? Ela acha que só porque ela fugiu de casa e se afundou nos seus vícios, eu vou também? Não... Não vou mesmo.

Eles saem. O silêncio que fica é pior que os gritos. Eu não consigo respirar.

Entro na adega sem olhar pra ninguém, pego a primeira garrafa de uísque que vejo e encho um copo até a borda.

Viro de uma vez, sentindo o fogo descer queimando tudo por dentro.

Puro, sem gelo.

Olho pro Malcon, que me observa da porta. O outro cara está parado no balcão, de costas, as mãos apoiadas na madeira, os ombros tensos.

— Põe na minha conta.

digo, a voz rouca.

— Malcon... por favor. Não me demite. Isso não vai acontecer de novo. Eu preciso disso aqui.

Ele suspira, passando a mão pelo rosto.

— Você disse que esse infeliz era um ex namorado.

O cara me olha com os olhos escuros, intensos.

— Eu não preciso me explicar. Não mesmo!

Malcon nega me olhando.

— Vai se recompor, garota. A gente abre em vinte minutos.

A Kely se aproxima, colocando a mão no meu ombro.

— Vem... eu te ajudo.

Eu entro com ela, mas sinto o olhar do cara queimando nas minhas costas.

Ele era um homem primitivo, bruto e egocêntrico, mas o jeito que ele me defendeu... aquele "não na minha frente" ainda ecoa na minha cabeça.

OLIVER:

A adrenalina ainda pulsa no meu pescoço, quente e irritante.

Olho para o Malcon, que me encara com aquela cara de quem sabe demais.

— Ela mentiu, caralho.

rosno, batendo com a mão no balcão.

— Tinha dito que o cara era um ex-namorado da primeira vez. Agora descubro que o infeliz é o padrasto?

Malcon cruza os braços, o semblante obscurecido.

— Você tem noção de que a gente pode estar lidando com um abusador aqui, Oliver?

Meu sangue gela e depois ferve.

A imagem daquele sujeito santarrão tocando naquela garota, faz minha visão escurecer.

Se eu puser as mãos nele de novo, não vai ser só um empurrão.

— A parada é séria.

Malcon continua.

— É um bom momento pra passar aquele contato do cartão pro Kauan. Ele é investigador, vai saber cavar o passado desse desgraçado.

— Vou fazer isso agora.

respondo, seco.

Tiro o cartão do cara do bolso, não consegui jogar fora aquela merda, porque sabia que não ia sossegar até saber o que trava pegando.

Escrevi o número pro Kauan e pedi pra ele rastrear aquele número, tentar encontrar a identidade do cara, que com certeza era um caso de abuso pra ele.

A mensagem é enviada, mas não é visualizada.

— Me serve um copo. Preciso baixar essa pressão.

O bar começa a lotar.

O som da banda de rock e o falatório deviam me distrair, mas meus olhos não saem dela.

Maya... esse era o nome dela.

Ela voltou pro salão, o rosto tenso, mas trabalhando como se nada tivesse acontecido. Atrevida. Teimosa.

— Libera o adiantamento do mês dela.

Malcon diz.

— Eu vou fazer isso.

Digo sem tirar os olhos da garota.

— Vai continuar com esse joguinho de não contar que você é o sócio do Kauan e quem manda na direção aqui?

Malcon pergunta com um sorriso de canto.

— Você viu o jeito que ela me trata? É divertido assim. Não quero ninguém babando meu ovo.

Malcon nega com a cabeça, rindo baixo.

— Brincadeira de gato e rato nunca acaba como a gente espera, irmão. Mas vou gostar de ver você amarrado.

— Amarrado?

solto uma risada irônica.

— Que conversa tosca, Malcon. Bebeu o estoque todo?

O turno vai chegando ao fim.

Estou falando com o Malcon sobre a carga de bebidas importadas quando vejo um sujeito no balcão inclinado demais pra cima da Maya.

Ele diz algo, oferece uma nota alta, uma proposta direta:

— Pode ser seu, se sair daqui comigo, gatinha.

A raiva sobe como um tiro. Quando ela entra na área interna pra deixar a bandeja, eu corto o caminho.

— Não deixa ninguém passar por aquela porta, ouviu?!

ordeno pro Malcon.

— Oliver? O que vai fazer?

Ha... O que eu vou fazer? Acabar com a hipocrisia dessa garota.

Entro com tudo no depósito. O lado controlador fala mais alto que o senso comum.

— Se prostituir, é sério?

a pergunta sai como um chicote.

Ela pula de susto, os olhos arregalados.

— O que você está fazendo aqui? Clientes não podem entrar!

— Eu te defendo de um louco de tarde pra você se jogar nas mãos de um qualquer por meia dúzia de notas à noite?

dou um passo à frente, invadindo o espaço dela.

— Isso não é da sua conta!

— É minha conta sim!

dou um sorriso carregado de veneno.

— Que tipo de garota você é? Diz que precisa desse trabalho pro Malcon pra quê? Pra bater poit?

O estalo do tapa dela ecoa no depósito. Meu rosto vira pro lado e o ardor é imediato.

Porra! Ela me bateu caralho!?

Olhei pra ela indgnado, e os olhos dela queimava.

— Você não sabe nada da minha vida!

ela vocifera, a voz embargada de fúria.

— Eu preciso de grana, mas nunca faria uma coisa dessas! Me deixa em paz, ouviu? A vida é minha!

Ela dá um passo pra trás, tremendo.

Mas vira com olhos negros, indignado.

— Eu posso não ter onde passar a noite, mas preferia dormir embaixo da ponte do que fazer o que você sugeriu. E quer saber? Vai se ferrar cara!

Ela passa por mim como um furacão, j**a o avental na bancada e sai disparada pelo salão.

Kely tenta chamar ela.

— Maya? Ei... Onde você vai!?

Mas ela sai atropelando quem estiver na frente.

— Puta que pariu, e ainda dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar...

Malcon diz negando, me olhando com repreensão.

— O que você fez!?

Não perco tempo dando satisfação.

— Que merda!

praguejo, saindo logo atrás.

Pego a moto e acelero. Nem sei pra que lado ir, mas busco o mais claro, ela não seria maluca de ir pelo escuro, nesse horário.

Vejo ela andando rápido pela calçada escura da estrada.

Emparelho a moto ao lado dela.

— Para garota! Me escuta!

— Me deixa em paz! Você é perturbado?

ela grita sem parar de andar.

— Eu vacilei, tá legal?

digo, desligando o motor e descendo.

— Eu ouvi aquele merda falar e pensei que você fosse aceitar. Foi mal.

— E você queria que eu fizesse o quê? Outra confusão? Eu preciso do trabalho, o Malcon vai acabar me demitindo por sua causa! Escuta aqui cara, não é porque me ajudou duas vezes que você tem algum direito de se meter na minha vida.

Beleza...

Caralho, ela tá certa.

Solto a respiração pesada.

—Ele não vai te demitir. Eu garanto.

— E como você sabe, gênio? Porque é amigo dele? Grande coisa!

ela para, me encarando com ódio.

— Você vai ferrar minha vida, e eu não tenho mais nada pra ser tirado.

Suspiro pesado, passando a mão no rosto.

— Eu sei porque eu sou o cara que dirige este lugar junto com o Malcon. Eu sou o sócio do dono.

O olhar dela muda na hora. O choque substitui a raiva.

— Você o quê?

...

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