Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarina nunca perdeu a fé nos sonhos, mesmo quando a vida insistiu em colocá-los em espera. Formada em Letras, ela enfrenta a frustração de não conseguir espaço no mercado de trabalho e, em meio à incerteza, aceita uma oportunidade inesperada: ser babá em uma charmosa mansão no Brasil, lar da tradicional família Albuquerque. Desde o primeiro dia, Marina envolve a casa com sua delicadeza. Seu jeito gentil conquista a matriarca da família e, principalmente, Sofia, uma menina de 11 anos que carrega no silêncio a saudade da mãe. Entre livros, risadas tímidas e momentos simples, nasce uma amizade feita de cuidado, confiança e afeto verdadeiro. Rafael Albuquerque, um arquiteto renomado e viúvo, observa tudo à distância. Marcado pela dor da perda e pela culpa que insiste em acompanhá-lo, ele acredita que o amor já cumpriu seu papel em sua vida. Marina, com sua luz serena e coração aberto, desperta nele sentimentos que ele julgava adormecidos. Aos poucos, a presença dela transforma os dias cinzentos em instantes de calma, esperança e calor. O que começa como gestos sutis — um olhar demorado, um sorriso trocado, mãos que quase se tocam — cresce em um sentimento profundo, construído na paciência e no respeito. Um amor que não exige pressa, apenas verdade. Um amor que cura feridas antigas e ensina que recomeçar não é esquecer, mas aprender a amar de novo. Será que dois corações machucados pelo passado conseguirão se reconhecer no presente? E permitir que esse amor doce, silencioso e intenso floresça onde antes só havia saudade?
Ler mais— Marina, você vai chegar atrasada para a entrevista.
Rosa arrumava a mesa do café da manhã, enquanto Ângela, a filha mais nova, terminava de preparar os ovos mexidos.
— Mamãe, a senhora esqueceu como essa garota demora horrores para se arrumar — provocou a menina. — Do jeito que ela é lenta, é capaz de chegar quando a entrevista já estiver acabando.
Marina surgiu na cozinha apressada. Para a entrevista, escolhera uma saia social preta, combinada com uma blusa de seda branca. Nos pés, salto médio. O longo cabelo castanho estava preso em um coque elegante.
Queria passar uma imagem de competência. Precisava provar que era capaz de ser a babá da filha de um viúvo milionário.
Ela conhecia Rafael Albuquerque pelas revistas e colunas sociais. A família do futuro patrão — se Deus permitisse — era dona de grandes construtoras no Brasil, com atuação internacional. Rafael era um dos arquitetos mais respeitados do país, conhecido por projetos modernos e premiados.
— Mãe, dá tempo de comer essa maçã ou vou me atrasar? A entrevista é às dez da manhã, e até chegar lá vai ficar em cima da hora.
Marina saiu apressada, mas antes deu um beijo carinhoso na mãe e na irmã, que lhe desejaram boa sorte.
— Deus permita que eu consiga esse trabalho — murmurou, já na calçada. — Prometo que não farei nada de errado. Vou me esforçar ao máximo, mesmo não tendo vocação alguma para ser babá.
A jovem havia estudado para ser professora porque era o curso universitário mais acessível que conseguiu pagar. Ter um diploma era essencial.
Sete anos antes, o pai falecera, deixando a família em uma situação financeira delicada. Muitas dificuldades surgiram desde então. Por isso, Marina optara pela faculdade mais viável e, recém-formada em Letras, seguia agora para sua primeira entrevista como babá de uma herdeira. Não era o emprego dos sonhos, mas pagaria as contas — e isso, para ela, era o mais importante.
Quase uma hora depois, Marina chegava à mansão dos Albuquerque, localizada em um dos bairros mais nobres de São Paulo.
— Bom dia!
Um senhor de bigode bem aparado e semblante simpático aproximou-se do portão. Marina entregou a ficha com seus dados.
— Pode entrar, senhorita. A entrevista está acontecendo no escritório. Vou acompanhá-la até a dona Francesca Albuquerque.
Francesca?
No anúncio da agência, dizia que Rafael era viúvo e morava apenas com a filha de onze anos.Será que é alguma namorada? — pensou Marina. — Não acredito que vou ter que lidar com uma daquelas mulheres difíceis para conseguir esse emprego.
Ao atravessar a ampla sala de estar, não deixou de notar uma menininha de cabelos negros brincando com um gatinho próximo à piscina.
— Será que ela é a filha do senhor Rafael?
O senhor de bigode conduziu Marina até um escritório localizado em uma das alas da mansão.
Ao entrar, deparou-se com uma mulher elegante, aparentando cerca de cinquenta e cinco anos, vestindo um belo vestido azul-claro.
A senhora aproximou-se com um sorriso acolhedor e estendeu a mão.
— Bom dia!
— Bom dia! — respondeu Marina, com um sorriso discreto.
Ela é a mãe, a namorada… ou a avó da menina? — questionou-se internamente.
— Você é a Marina? Prazer, sou Francesca Albuquerque, mãe de Rafael e avó da pequena Sofia. Meu filho precisou viajar a trabalho, mas me deu total autonomia para conduzir as entrevistas e escolher a funcionária. Vamos nos sentar? Vou pedir que tragam algo para beber. Você prefere chá, água ou café?
— Chá, por favor, senhora.
Marina acomodou-se na poltrona, observando discretamente o luxo do escritório e algumas fotografias espalhadas. Um porta-retrato chamou sua atenção, mas ela desviou o olhar, concentrando-se na conversa.
Francesca fez uma ligação rápida e pediu que trouxessem um lanche para ambas. Em seguida, indicou a poltrona posicionada de frente para a janela, de onde se via parte do jardim. Sofia ainda brincava lá fora.
Marina observou a menina e lembrou-se de quando tinha aquela idade, brincando com os gatos da rua. Como a irmã era alérgica a pelos, nunca puderam ter animais em casa.
Uma jovem sorridente entrou com uma bandeja, serviu-as e se retirou com um leve aceno de cabeça.
Francesca abriu a ficha de Marina e começou a conferir as informações.
Idade: 23 anos.
Formação: Letras, pela Universidade Federal São Paulo, concluída há um ano. Morava com a mãe e a irmã mais nova. Sem vícios. Fluente em inglês, bom domínio de alemão e em aprendizado de espanhol. Primeiro emprego formal. Possuía carteira de habilitação. Apaixonada por literatura e música clássica.Marina confirmava cada detalhe, receosa de ter cometido algum erro que pudesse custar-lhe a vaga.
Após cerca de trinta minutos de entrevista, Francesca explicou que Marina moraria na mansão e trabalharia de segunda a sexta, com fins de semana livres para visitar a família — exceto quando Rafael estivesse viajando. Na casa moravam Francesca, o marido Luciano, a neta Sofia e, eventualmente, o filho.
Em seguida, começou a falar sobre Sofia. A função seria de babá, já que a menina estudava pela manhã e, à tarde, precisava de auxílio com as tarefas escolares e atividades extracurriculares. Marina também ficaria responsável pela alimentação, organização do quarto e das roupas da criança.
Francesca detalhou cuidadosamente o que Sofia podia ou não comer, demonstrando confiança e deixando claro que Marina estava muito próxima de ser contratada. Confessou, inclusive, que a formação acadêmica e os cursos complementares da jovem foram decisivos.
Por fim, entregou-lhe o contrato e perguntou se aceitava todas as condições ali descritas.
Uma das cláusulas chamava atenção: era terminantemente proibido qualquer tipo de envolvimento pessoal com Rafael Albuquerque.
Nada de intimidades. Tudo deveria ser estritamente profissional. A vida pessoal da funcionária deveria permanecer fora da mansão.
O contrato teria duração de seis anos, até Sofia completar dezoito. A dedicação seria exclusiva à menina.
Francesca explicou que aquelas exigências vinham do próprio filho. Desde que perdera a esposa, Rafael deixara de acreditar no amor. Sua vida se resumia ao trabalho e à filha. Não pretendia se casar novamente e desejava uma funcionária sem planos de relacionamento.
Marina concordou. O salário, ao longo de seis anos, representava estabilidade, segurança e a chance de realizar o mestrado com que sempre sonhara. Não tinha planos de se apaixonar. Seu foco era trabalhar, ganhar dinheiro de forma honesta e cuidar da mãe sem passar necessidades.
Começaria em dois dias. Levaria seus pertences, a documentação necessária para assinatura do contrato, e Francesca informou que Rafael retornaria ao país em quinze dias — tempo suficiente para a adaptação da nova babá.
— Vamos conhecer a Sofia — disse Francesca, levantando-se. — Ela é um pouco tímida, mas quando ganhar confiança em você, vai se soltar. Meu filho trabalha muito e só consegue ficar com ela nos fins de semana. Qualquer problema, fale comigo. Estou sempre por perto.
Marina levantou-se e acompanhou Francesca até o jardim, sentindo que sua vida estava prestes a mudar para sempre.
Depois de se divertirem, Marina e Sofia subiram para tomar banho e trocar de roupa para o jantar.Os patrões iriam receber visitas: o irmão mais novo do senhor Luciano, a esposa, a filha e o cunhado jantariam com eles. Marina ainda não tinha tido a chance de conhecer o restante dos membros da família Albuquerque, mas sentia curiosidade em saber como eram o irmão do senhor Luciano e sua esposa.O senhor Rafael tinha saído assim que a babá chegou, dizendo ter um compromisso importante. Marina bem que ficou curiosa para saber que compromisso era esse.Depois de arrumar Sofia e deixar a menina aos cuidados de Lúcia, foi se arrumar e ficou pensando.Hum… o que o senhor estressado foi fazer?Será que ele tinha uma namorada escondida?Uma amante? Ou só queria mesmo ficar longe dela?Pelo jeito, dona Francesca sabia aonde ele ia, e Marina ficou com vontade de perguntar, mas preferiu ficar calada. Que ele ficasse longe mesmo; assim não atrapalharia o jantar com aquela cara fechada dele.Marina
Rafael e Sofia caminhavam pelo parque e pararam para alimentar os patinhos. Os dois sempre passavam um tempo observando os patinhos na lagoa que existia bem no centro de um dos parques da cidade. Havia uma parte gramada, e os dois gostavam de se deitar ali para olhar as nuvens no céu.Aquela época do ano era a estação favorita de Rafael. Os dois adoravam passar o sábado visitando pontos turísticos da cidade. Nos momentos ao lado da filha, o arquiteto se desligava do mundo, dos negócios, e tinha olhos apenas para sua pequena princesa. A mãe insistia tanto para que ele se casasse novamente e tivesse outros filhos, mas Rafael não pretendia se casar outra vez.Existia alguém na vida dele, mas não era nada sério, apenas uma companhia nos momentos em que precisava de um pouco de sossego. A experiência com o casamento não foi das melhores, então sua “amiga”, além de ser alguém independente, sabia das regras da relação dos dois, não exigindo nada e sendo apenas uma parceira de cama nos moment
— Eu… eu… — a voz falhou antes que ela respirasse fundo. — Sou Marina, a nova babá da Sofia.Rafael a analisou em silêncio, com aquele olhar calculista que fazia qualquer um se sentir avaliado além da superfície. Algo estava errado. Muito errado. Quando sua mãe avisara que a nova funcionária havia começado, omitira um detalhe essencial: ela era jovem demais. Jovem a ponto de parecer deslocada naquela mansão silenciosa, cercada por responsabilidades grandes demais para alguém com aparência tão frágil.Dezesseis? Dezessete anos?Não. Impossível.Ainda assim, o desconforto se instalou em seu peito.— Senhorita Marina — disse por fim, a voz controlada, mas fria —, creio que houve um equívoco.Ela franziu o cenho, confusa.— Acreditei ter contratado uma babá — continuou —, não uma amiguinha para a minha filha.As palavras atingiram Marina como um golpe. O rosto corou instantaneamente, misto de indignação e constrangimento. Só então ela percebeu o quanto sua aparência jogava contra si: pija
Duas semanas se passaram desde que Marina começou a trabalhar como babá. A mãe não aceitou de primeira, mas, depois de muita conversa, acabou sendo convencida pela filha. O pai da menina ligava duas vezes por dia; falava com Sofia por alguns minutos ou fazia uma videochamada. Marina ainda não tivera a chance de falar com o patrão. Rafael sabia que a filha tinha uma nova babá, mas não se interessou em saber quem ela era.Sofia, nos dois primeiros dias, ficou desconfiada com a presença da nova babá, mas depois acabou aceitando a jovem. O pai da menina continuava viajando, e Francesca comentou que as negociações com os clientes alemães estavam demorando bem mais do que o previsto.O pai de Rafael, o senhor Luciano Albuquerque, era um homem agradável, que gostava de contar histórias para as duas todas as noites depois do jantar. Ele havia construído tudo do zero, depois de desfazer a sociedade com um antigo amigo, mas Marina não sabia os detalhes. Sofia tinha uma avó chamada Catarina e um
— Marina, você vai chegar atrasada para a entrevista.Rosa arrumava a mesa do café da manhã, enquanto Ângela, a filha mais nova, terminava de preparar os ovos mexidos.— Mamãe, a senhora esqueceu como essa garota demora horrores para se arrumar — provocou a menina. — Do jeito que ela é lenta, é capaz de chegar quando a entrevista já estiver acabando.Marina surgiu na cozinha apressada. Para a entrevista, escolhera uma saia social preta, combinada com uma blusa de seda branca. Nos pés, salto médio. O longo cabelo castanho estava preso em um coque elegante.Queria passar uma imagem de competência. Precisava provar que era capaz de ser a babá da filha de um viúvo milionário.Ela conhecia Rafael Albuquerque pelas revistas e colunas sociais. A família do futuro patrão — se Deus permitisse — era dona de grandes construtoras no Brasil, com atuação internacional. Rafael era um dos arquitetos mais respeitados do país, conhecido por projetos modernos e premiados.— Mãe, dá tempo de comer essa m





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