Mundo de ficçãoIniciar sessãoLuna sempre encontrou refúgio no mar. Foi entre ondas e sal que aprendeu a respirar, a silenciar medos herdados e a sobreviver às marcas deixadas por um passado que não escolheu viver. Filha de uma mulher que perdeu tudo — e ainda assim se manteve de pé —, Luna cresceu rápido demais, carregando responsabilidades, inseguranças e um desejo profundo de nunca perder a própria voz. Quando uma proposta irrecusável surge e a leva do Havaí para a Califórnia, Luna se vê diante da maior decisão de sua vida: aceitar a chance de construir uma carreira no surf profissional ou permanecer no único lugar onde se sente verdadeiramente segura. A Surf House promete estrutura, reconhecimento e futuro — mas também rivalidades silenciosas, disputas de território e a constante pressão de se provar em um ambiente que não perdoa falhas. Determinada a não repetir a história da mãe, Luna impõe a si mesma uma única regra: foco absoluto. Nada de distrações. Nada de envolvimentos. Nada que possa tirá-la do caminho que escolheu. Mas, mesmo tentando fugir, ela logo descobre que há sentimentos dos quais não se escapa facilmente — e que o amor pode surgir justamente quando não há espaço para ele.
Ler maisA primeira luz do dia surgia lentamente no horizonte, pintando o céu com camadas de laranja e dourado, que refletiam sobre a superfície do oceano. A água, antes escura, agora cintilava, como se guardasse pequenas estrelas em seu interior.
Luna estava deitada em sua prancha, com os pés dentro da água, deixando a ondulação suave do mar balançar o corpo. Ao redor, não havia mais ninguém. Só se ouvia o som discreto das ondas quebrando na areia distante e o canto dos pássaros que saíram para dar os primeiros mergulhos da manhã.
O sol ainda era tímido, mas bastava para aquecer a pele de Luna. Ela respirava devagar, os olhos fechados, quase como se dormisse. A mente, no entanto, não lhe dava descanso. Pensamentos se atropelavam, formando um turbilhão difícil de organizar.
O mar, sempre presente em sua vida, era a única constante. Ali, Luna sentia que podia existir sem máscaras. Parecia que o oceano falava com ela de uma maneira que ninguém mais conseguia entender. O mar não julgava, não questionava, não cobrava. Apenas acolhia. E, naquele momento, isso bastava para ela.
Por um instante, Luna sentiu-se em paz, mas a paz em sua vida tendia a se desfazer rápido. Assim como as ondas retornavam à costa, o medo também sempre voltava. E ali, no mar, sozinha, ela permitia-se ouvir o próprio medo, sem tentar escondê-lo, como sempre fazia.
— Luna?
A voz suave de sua mãe, Alice, cortou o silêncio.
Luna abriu os olhos, virou a cabeça devagar e viu sua mãe remando tranquilamente para perto dela, sobre sua própria prancha. O rosto de Alice, que já começava a mostrar um pouco do passar dos anos, ainda carregava o cansaço do início da manhã, mas havia ternura em seu sorriso.
Parando próxima a Luna, Alice se sentou em sua prancha, uma perna de cada lado e os pés dentro da água fria, e estendeu a mão para pegar a mão de Luna.
— Alguém caiu da cama hoje? – Alice perguntou levantando as sobrancelhas com um sorriso brincalhão.
Luna não respondeu.
— O que você está pensando, meu amor? — insistiu Alice, apertando levemente a mão de Luna.
A mãe de Luna, brasileira, sempre usava palavras em português quando estava muito brava ou queria transmitir seus sentimentos com clareza.
Luna respirou fundo, sentindo o peso que carregava no peito, escolhendo cuidadosamente que palavras usar.
— Estou com medo, mãe — admitiu Luna, com a voz trêmula — Eu amo o surf, amo o mar... Sei que esta é uma oportunidade que talvez nunca mais apareça. Mas pensar em deixar você e Noah aqui... sozinhos... – sua voz falhou – dá um aperto no peito.
Alice se aproximou mais e envolveu a cintura da filha em um abraço protetor.
— O medo é só de nos deixar aqui, Luna? — perguntou Alice, fitando os olhos verdes da filha, tão parecidos com os seus.
Quem não as conhecia poderia confundi-las com irmãs. Alice ainda mantinha um corpo forte e definido pelo surf, sua paixão de uma vida inteira. Tinha os mesmos cabelos longos e loiros da filha, e a pele morena de sol. Mas a sua pele, diferente da de sua filha, apresentava as cicatrizes silenciosas de um passado difícil.
A pergunta de sua mãe fez com que um peso antigo subisse à superfície da mente de Luna. Uma confissão estava pronta a ser feita.
— Tenho medo de que o que aconteceu com você... aconteça comigo também. Tenho medo de deixar o único lugar em que me senti segura, em toda minha vida. — respondeu Luna, com a voz embargada. — Mas, ao mesmo tempo, eu sinto medo de não aproveitar essa chance, de não correr atrás do que eu amo, de ficar presa aqui, sem saber o que poderia ter sido.
Alice a abraçou com mais força, olhando-a com ternura, compreendendo o peso de cada palavra.
— Filha... eu sinto muito que o que aconteceu comigo te afete tanto até hoje. — disse Alice, com a voz cheia de compreensão. — Mas você é tão diferente de mim! O que passamos fez com que você amadurecesse tão rápido. Você é muito mais inteligente que eu! Você é mais forte, mais atenta, do que eu jamais fui.
— Ah mãe, não fala assim! Você é a pessoa mais inteligente e corajosa que eu conheço! Você nos salvou de todos os perigos todos estes anos, sozinha. – Luna sentiu as lágrimas escorrendo pelas bochechas, tocando seus lábios, misturando-se com a água salgada do mar.
As duas permaneceram em silêncio por um tempo, apenas se abraçando, enquanto o som do mar preenchia o espaço entre elas.
— Luna, olha pra mim — pediu Alice, segurando o rosto da filha com as mãos molhadas. — Não deixe que o meu passado impeça você de viver os seus sonhos. Você não está nos abandonando, você está correndo atrás do seu futuro. Eu e seu irmão estaremos aqui, sempre torcendo por você, sempre te amando, mesmo que de longe.
Luna manteve os olhos no horizonte, observando o sol subir lentamente.
— Meu amor, eu não te peço nada, além de correr atrás do que você ama, de viver a sua vida plenamente. Se você correr atrás de seus sonhos e as coisas não derem certo, eu estarei aqui, esperando, sempre. Mas pelo menos você terá tentado, terá aprendido, terá vivido. E isso é melhor do que viver escondida e com medo.
Luna deixou aquelas palavras se acomodarem dentro de si.
— Está bem… — disse por fim, respirando fundo. — Eu vou aceitar a proposta. Seja o que tiver que ser.
Alice sorriu e a puxou para mais um abraço apertado.
— Ótimo. Porque eu não acordei tão cedo só para conversar e chorar — disse, já se virando para remar. — Vamos pegar umas ondas! A última a chegar na praia faz o café!
Luna riu e seguiu a mãe, como havia feito tantas outras vezes, para fazer aquilo que ambas mais amavam.
Ethan fechou a porta do quarto com cuidado.Quando se virou, Luna estava ali, envolta em sua toalha, rosto corado, lábios entreabertos, cabelos úmidos, e um olhar intenso de luxúria que o fez estremecer.Ele se aproximou em silêncio, como se qualquer palavra pudesse quebrar o momento. Tocou-lhe os braços com delicadeza, como quem tenta confirmar que ela era real, e deixou que a toalha escorresse lentamente até o chão.Olhou para Luna como quem encara algo raro, frágil e poderoso ao mesmo tempo. Como se olhasse para uma obra prima esculpida pelo artista mais talentoso.Passou a mão pelo seu pescoço, seus braços, e tocou a sua cintura, puxando-a para mais próximo de si, aproximando seus lábios dos dela, de forma delicada, reverente. O beijo se aprofundou, se transformando em uma dança de línguas e sensações.Luna recuou devagar até a cama, guiando-o com a mão entrelaçada à dele.Ethan sentiu o coração disparar.Ela se deitou no centro da cama, ainda segurando sua mão e o puxou delicadam
O retorno ao hotel foi em silêncio absoluto.Meg foi a primeira a quebrar o silêncio quando entraram no saguão do hotel.— Hoje… — ela respirou fundo, dramatizando só o suficiente para arrancar um sorriso — …eu definitivamente preciso me afundar naquela jacuzzi.Jordan arqueou a sobrancelha.— Isso é um convite ou um comunicado?— Um convite oficial para a minha festa de autopiedade — respondeu Meg, sorrindo de lado. — Aberta a todos que quiserem participar.Fez uma pausa breve.— Menos a Kira.Luna soltou um riso curto, cúmplice. Ethan apenas assentiu, como se aquela exclusão fosse óbvia demais para precisar ser discutida.Antes que pudessem seguir para os quartos, Harris os chamou para uma reunião rápida em uma das salas de reunião do hotel. Curtíssima, segundo ele. Apenas o necessário.O treinador falou com o grupo inteiro, analisou o dia, pontuou ajustes técnicos, reforçou o cronograma do dia seguinte. Objetivo. Direto como sempre.Quando terminou, guardou o tablet… e olhou para K
O dia amanheceu exatamente como havia sido prometido.Céu limpo, sol firme já despontando no horizonte e vento terral soprando na medida certa — aquele tipo de vento que ajeita as ondas, que desenha as linhas e deixa o mar com cara de espetáculo. As bandeiras ao redor da praia tremulavam leves, e os ombros das ondas quebravam redondos, convidativos.Condições perfeitas.O café da manhã tinha sido... barulhento — Jordan falava sem parar sobre absolutamente tudo e nada ao mesmo tempo, gesticulando com a caneca na mão enquanto Meg tentava acompanhar o raciocínio com um sorriso paciente.Luna e Ethan trocaram apenas alguns olhares rápidos durante o café. Apesar de não trocarem nenhuma palavra, havia algo ali. Uma espécie de acordo silencioso. Presença. Apoio.Quando chegaram à área de aquecimento dos atletas, a movimentação já era intensa.O técnico Harris reuniu o grupo com a prancheta na mão.— A primeira bateria da equipe hoje é Kira e Meg — anunciou, direto.Luna sentiu o estômago dar
Luna praticamente correu para seu quarto. Largou a mochila perto da cama, tirou a roupa com movimentos automáticos e foi direto para o banho.Sentindo a água quente escorrendo pelas costas, fechou os olhos, deixou a testa encostar no azulejo e respirou fundo. Pensou no mar, na bateria, no que tinha funcionado… e no que não tinha. Pensou em Ethan, claro. Ele sempre dava um jeito de invadir a sua mente.Quando saiu do banho, vestiu um moletom largo e um short confortável, os cabelos ainda úmidos presos de qualquer jeito. Estava pegando seu laptop na mochila quando ouviu alguém bater na porta.Seu coração disparou.— Ethan — murmurou sozinha, já indo abrir a porta quase correndo.Escancarou com um sorriso pronto.E deu de cara com Jordan e Meg.— …ah.— Emergência — anunciou Jordan, entrando sem pedir licença. — Reunião de garotas. Nível crítico.— O quê? Agora? — Luna perguntou, olhando para as duas, claramente frustrada.— Confia em mim. Você vai querer ouvir isso.Luna suspirou, rendi





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