CAPÍTULO 02

Minutos depois, o bar muda.

A música começa alta, gente entra rindo, empurrando, homens e mulheres ocupam o espaço como se nada no mundo pudesse alcançar eles ali dentro.

Entro de novo, baixando a cabeça, não quero que ninguém me reconheça.

Escolho uma mesa no canto mais escuro, onde a luz quase não chega.

Sei como esses lugares funcionam. Sempre existe um ponto morto. Um canto esquecido. Um lugar seguro o bastante para quem só precisa desaparecer por algumas horas.

Meu plano era simples: me esconder e passar a noite.

Banheiro. Depósito. Qualquer coisa.

Quando o movimento começa a diminuir, espero. Conto o tempo pelos sons. Risadas mais raras. Música mais baixa. Passos arrastados.

Levanto fingindo ir ao banheiro.

E não volto.

Me enfio por um corredor estreito, passo por uma porta que ninguém parece usar e encontro um canto afastado.

— Só por hoje... Só hoje.

Deslizo na porta e fica sentada no chão, os braços agarrando as pernas e espero pacientemente com a cabeça abaixada.

Quando o bar finalmente silencia, me movo com cuidado, o coração na garganta.

Abro a porta de vagar, sorrateira e vejo tudo fechado, procuro algum depósito, eu sei que sempre tem um quarto de descanso, e assim que acho solto o ar aliviada.

— Finalmente.

Há uma cama ali.

Simples. Estreita. Mas é uma cama.

Não penso em nads. Só deito.

O cansaço me apaga antes mesmo de eu conseguir fechar os olhos direito.

Adormeci, sabendo que precisaria acordar cedo no outro dia.

Não posso ser pega.

...

MANHÃ SEGUINTE..

O som da porta abrindo não me despertou, estava tão cansada que não conseguir acordar antes de ser descoberta, e só soube, quando ouvir:

— Que porra?!

Acordo num pulo.

Meu coração dispara como se tivesse sido puxado de um abismo.

— O que você tá fazendo aqui, garota?

O homem, aquele mesmo da bancada está parado à minha frente. O rosto fechado, os olhos atentos demais.

Levanto rápido, pegando a mochila.

— Desculpa!

as palavras saem atropeladas.

— Eu só precisava de um lugar pra passar a noite.

— Porra… aqui?

ele olha em volta.

— Como você entrou?

— Eu… eu fiquei a noite toda. Não invadi nada!

Minha voz falha.

— Eu não quero problemas...

me apresso.

— Só precisava dormir. Só isso.

Tento passar por ele, mas ele bloqueia o caminho.

— Você tá em perigo, é isso?

pergunta sério.

— O que tá acontecendo?

— Não está acontecendo nada.

nego rápido.

— Não, não… só tô com a grana curta.

Ele me encara em silêncio.

Não acredita no que eu digo. Droga!

— Curta pra quê? Não tem casa?

Olhei pra minha mochila, e senti meu coração acelerar.

— Para de mentir, garota. Tô falando sério. Ou eu chamo a polícia ou aquele cara que disse que tua família te procura.

Meu estômago afunda.

— Por favor…

começo, a voz trêmula.

Antes que eu diga mais alguma coisa, outra voz surge atrás dele.

— O que é isso, Malcon?

Uma mulher entra pela mesma porta. Cabelo preso, olhar firme, claramente alguém que manda nele ali.

Ela tinha tatuagens no braço, um piercing na boca.

— É o que eu quero saber.

ele responde.

— Essa garota tava aqui.

Ela me olha de cima a baixo.

— Desculpa.

digo rápido.

— Eu só precisava de um lugar pra dormir.

— Invadiu o bar?

— Não!

respondo na hora.

Aquele cara, o tal Malcon vira pra ela.

— Ela tá sendo perseguida, esteve aqui ontem, tinha um cara atrás dela.

— Não estou!

nego, quase suplicando.

Ele balança a cabeça.

— Tá na cara que você tá em apuros, oh garota, já vi coisa assim.

— Perseguida por quem?

a mulher pergunta, agora olhando direto pra mim.

Engulo em seco.

— Eu só precisava de uma dormida...

repito.

— Tô sem dinheiro, só isso.

Dou um passo à frente, tentando sair, mas O cara fala antes:

— Escuta… você disse que a grana tá curta?

Paro olhando pra eles dois.

— Não sei pelo que você está passando, mas se te ajuda tem uma vaga aqui.

ele continua e olha pra mulher, e ela me olha com um olhar diferente.

— Se você quiser.

Olho pros dois, o coração batendo forte demais.

— A gente paga diária, se você quiser meter o pé depois.

a mulher completa.

Fico ali, dividida entre o medo de ficar…

e o pavor de sair.

Porque, no fundo, eu sei:

Às vezes, o lugar que parece ser o mais perigoso é também o único que te mantém viva.

E era o único que eu tinha agora.

...

OLIVER:

Quando Kauan me mandou dirigir aquele pub, eu pulei de cabeça.

Virei praticamente sócio dele, ele investia e eu dava conta de tudo.

O cara era meu amigo e aquele lugar era a vida dele, mas estava ocupado de mais pra dar conta de tudo.

Filha pequena, rotina pesada, investigações pilhada.

Dei essa força.

Eu gostava daqui, não seria sacrifício algum. E eu não tinha nada melhor pra fazer, abandonei o cargo de gerente logista da empresa Vasco (pai do Kauan) e assumir aquele trabalho.

Na noite que aquela garota apareceu, estava fechando as contas com o Malcon.

Carga de bebida atrasada, fornecedor novo querendo vantagem, dois funcionários pedindo adiantamento. Nada fora do normal.

Tudo o que mantém aquele bar de pé passa por mim, estoque, pagamento, contrato, funcionário. Malcon bota ordem ali dentro, segura o salão. Mas o resto… sou eu.

...

Na manhã seguinte, acordo cedo demais para alguém que dormiu pouco.

O café está quente na xícara, em minha cafeteira, a cidade ainda lenta lá embaixo.

Encosto no parapeito da varanda do apartamento e tomo o primeiro gole quando o celular vibra.

Era o Malcon.

— Fala.

atendo, sem cerimônia.

— A garota apareceu de novo.

Franzi o cenho confuso.

— Que garota?

— A de ontem. A que o cara tava procurando.

Apoio a xícara na mesinha da varanda.

— E?

— Ela dormiu aqui.

Passo a mão no rosto.

— Como assim dormiu aí? Ela invadiu o bar?

— Não.

A voz dele vem firme.

— Ela ficou a noite toda. Se escondeu. Não mexeu em nada.

Fico em silêncio por alguns segundos, processando.

— Você tá brincando comigo, né?

— Não.

— E o que você fez?

— Contratei ela.

Solto um riso curto, incrédulo.

— Você enlouqueceu, Malcon?

digo, sem rodeios.

— A garota aparece fugindo, passa a noite no bar… e você contrata?

— Tem coisa errada acontecendo com ela.

ele responde.

— E vou te dizer mais: se fosse o Kauan, ele faria o mesmo. Por instinto.

— Não mistura as coisas.

Aperto a mandíbula.

— Um caso não faz regra.

— A mulher do Kauan não era exatamente uma garota sem problemas quando começou aqui.

ele rebate.

— Não era uma fugitiva dormindo no bar!

retruco.

Do outro lado da linha, ele suspira.

— Se você tem dúvida, liga pra ele.

A voz de Malcon endurece.

— Ele confiou em você pra dirigir isso tudo enquanto tá fora. Agora faz o teste. Eu vou botar ela pra trabalhar hoje. Se você não aprovar, pago só a diária dela e vida que segue.

A ligação cai.

Fico parado, encarando a cidade como se ela pudesse me dar alguma resposta.

Merda.

Disco o número do Kauan.

— Fala Oliver.

ele atende, direto.

— Preciso da tua posição numa coisa...

digo.

— Problemas no Pub?

— Uma garota apareceu ontem no bar. Tinha um cara atrás dela. O Malcon deu trabalho pra ela.

— Você acha que ela tá sendo perseguida por ex?

ele pergunta, atento.

— Não sei.

Passo a mão na nuca.

...

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