Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinutos depois, o bar muda.
A música começa alta, gente entra rindo, empurrando, homens e mulheres ocupam o espaço como se nada no mundo pudesse alcançar eles ali dentro. Entro de novo, baixando a cabeça, não quero que ninguém me reconheça. Escolho uma mesa no canto mais escuro, onde a luz quase não chega. Sei como esses lugares funcionam. Sempre existe um ponto morto. Um canto esquecido. Um lugar seguro o bastante para quem só precisa desaparecer por algumas horas. Meu plano era simples: me esconder e passar a noite. Banheiro. Depósito. Qualquer coisa. Quando o movimento começa a diminuir, espero. Conto o tempo pelos sons. Risadas mais raras. Música mais baixa. Passos arrastados. Levanto fingindo ir ao banheiro. E não volto. Me enfio por um corredor estreito, passo por uma porta que ninguém parece usar e encontro um canto afastado. — Só por hoje... Só hoje. Deslizo na porta e fica sentada no chão, os braços agarrando as pernas e espero pacientemente com a cabeça abaixada. Quando o bar finalmente silencia, me movo com cuidado, o coração na garganta. Abro a porta de vagar, sorrateira e vejo tudo fechado, procuro algum depósito, eu sei que sempre tem um quarto de descanso, e assim que acho solto o ar aliviada. — Finalmente. Há uma cama ali. Simples. Estreita. Mas é uma cama. Não penso em nads. Só deito. O cansaço me apaga antes mesmo de eu conseguir fechar os olhos direito. Adormeci, sabendo que precisaria acordar cedo no outro dia. Não posso ser pega. ... MANHÃ SEGUINTE.. O som da porta abrindo não me despertou, estava tão cansada que não conseguir acordar antes de ser descoberta, e só soube, quando ouvir: — Que porra?! Acordo num pulo. Meu coração dispara como se tivesse sido puxado de um abismo. — O que você tá fazendo aqui, garota? O homem, aquele mesmo da bancada está parado à minha frente. O rosto fechado, os olhos atentos demais. Levanto rápido, pegando a mochila. — Desculpa! as palavras saem atropeladas. — Eu só precisava de um lugar pra passar a noite. — Porra… aqui? ele olha em volta. — Como você entrou? — Eu… eu fiquei a noite toda. Não invadi nada! Minha voz falha. — Eu não quero problemas... me apresso. — Só precisava dormir. Só isso. Tento passar por ele, mas ele bloqueia o caminho. — Você tá em perigo, é isso? pergunta sério. — O que tá acontecendo? — Não está acontecendo nada. nego rápido. — Não, não… só tô com a grana curta. Ele me encara em silêncio. Não acredita no que eu digo. Droga! — Curta pra quê? Não tem casa? Olhei pra minha mochila, e senti meu coração acelerar. — Para de mentir, garota. Tô falando sério. Ou eu chamo a polícia ou aquele cara que disse que tua família te procura. Meu estômago afunda. — Por favor… começo, a voz trêmula. Antes que eu diga mais alguma coisa, outra voz surge atrás dele. — O que é isso, Malcon? Uma mulher entra pela mesma porta. Cabelo preso, olhar firme, claramente alguém que manda nele ali. Ela tinha tatuagens no braço, um piercing na boca. — É o que eu quero saber. ele responde. — Essa garota tava aqui. Ela me olha de cima a baixo. — Desculpa. digo rápido. — Eu só precisava de um lugar pra dormir. — Invadiu o bar? — Não! respondo na hora. Aquele cara, o tal Malcon vira pra ela. — Ela tá sendo perseguida, esteve aqui ontem, tinha um cara atrás dela. — Não estou! nego, quase suplicando. Ele balança a cabeça. — Tá na cara que você tá em apuros, oh garota, já vi coisa assim. — Perseguida por quem? a mulher pergunta, agora olhando direto pra mim. Engulo em seco. — Eu só precisava de uma dormida... repito. — Tô sem dinheiro, só isso. Dou um passo à frente, tentando sair, mas O cara fala antes: — Escuta… você disse que a grana tá curta? Paro olhando pra eles dois. — Não sei pelo que você está passando, mas se te ajuda tem uma vaga aqui. ele continua e olha pra mulher, e ela me olha com um olhar diferente. — Se você quiser. Olho pros dois, o coração batendo forte demais. — A gente paga diária, se você quiser meter o pé depois. a mulher completa. Fico ali, dividida entre o medo de ficar… e o pavor de sair. Porque, no fundo, eu sei: Às vezes, o lugar que parece ser o mais perigoso é também o único que te mantém viva. E era o único que eu tinha agora. ... OLIVER: Quando Kauan me mandou dirigir aquele pub, eu pulei de cabeça. Virei praticamente sócio dele, ele investia e eu dava conta de tudo. O cara era meu amigo e aquele lugar era a vida dele, mas estava ocupado de mais pra dar conta de tudo. Filha pequena, rotina pesada, investigações pilhada. Dei essa força. Eu gostava daqui, não seria sacrifício algum. E eu não tinha nada melhor pra fazer, abandonei o cargo de gerente logista da empresa Vasco (pai do Kauan) e assumir aquele trabalho. Na noite que aquela garota apareceu, estava fechando as contas com o Malcon. Carga de bebida atrasada, fornecedor novo querendo vantagem, dois funcionários pedindo adiantamento. Nada fora do normal. Tudo o que mantém aquele bar de pé passa por mim, estoque, pagamento, contrato, funcionário. Malcon bota ordem ali dentro, segura o salão. Mas o resto… sou eu. ... Na manhã seguinte, acordo cedo demais para alguém que dormiu pouco. O café está quente na xícara, em minha cafeteira, a cidade ainda lenta lá embaixo. Encosto no parapeito da varanda do apartamento e tomo o primeiro gole quando o celular vibra. Era o Malcon. — Fala. atendo, sem cerimônia. — A garota apareceu de novo. Franzi o cenho confuso. — Que garota? — A de ontem. A que o cara tava procurando. Apoio a xícara na mesinha da varanda. — E? — Ela dormiu aqui. Passo a mão no rosto. — Como assim dormiu aí? Ela invadiu o bar? — Não. A voz dele vem firme. — Ela ficou a noite toda. Se escondeu. Não mexeu em nada. Fico em silêncio por alguns segundos, processando. — Você tá brincando comigo, né? — Não. — E o que você fez? — Contratei ela. Solto um riso curto, incrédulo. — Você enlouqueceu, Malcon? digo, sem rodeios. — A garota aparece fugindo, passa a noite no bar… e você contrata? — Tem coisa errada acontecendo com ela. ele responde. — E vou te dizer mais: se fosse o Kauan, ele faria o mesmo. Por instinto. — Não mistura as coisas. Aperto a mandíbula. — Um caso não faz regra. — A mulher do Kauan não era exatamente uma garota sem problemas quando começou aqui. ele rebate. — Não era uma fugitiva dormindo no bar! retruco. Do outro lado da linha, ele suspira. — Se você tem dúvida, liga pra ele. A voz de Malcon endurece. — Ele confiou em você pra dirigir isso tudo enquanto tá fora. Agora faz o teste. Eu vou botar ela pra trabalhar hoje. Se você não aprovar, pago só a diária dela e vida que segue. A ligação cai. Fico parado, encarando a cidade como se ela pudesse me dar alguma resposta. Merda. Disco o número do Kauan. — Fala Oliver. ele atende, direto. — Preciso da tua posição numa coisa... digo. — Problemas no Pub? — Uma garota apareceu ontem no bar. Tinha um cara atrás dela. O Malcon deu trabalho pra ela. — Você acha que ela tá sendo perseguida por ex? ele pergunta, atento. — Não sei. Passo a mão na nuca. ...






