Mundo de ficçãoIniciar sessão— Eu mandei tirar esse vestido, Cristina. Por que nunca faz o que eu mando? — Porque eu não sou sua. E você não manda em mim. Nova Iorque, 1950. Lewis Stinson é a lei no submundo. Frio, arrogante e absolutamente implacável, o “Homem de Aço” não ama, não perdoa e não aceita ser desafiado. Na sua mansão, todos obedecem. Exceto ela. Cristina Sousa fugiu da Espanha carregando traumas, fome e desespero. Aceitar o emprego de babá para a filha do homem mais perigoso de Nova Iorque era arriscado… mas necessário. Ela só precisava ser invisível. Só precisava sobreviver. Mas Cristina não abaixa a cabeça. Ela responde. Ela enfrenta. Ela provoca. E isso é um erro. Porque Lewis Stinson não tolera desobediência. Ele domina. Ele controla. Ele possui. O que começa como confronto vira tensão. O que era ódio… vira obsessão. Agora, no meio de guerras de máfia, segredos e poder, Cristina se torna a única fraqueza de um homem que nunca teve uma. E Lewis? Ele não divide o que é dele.
Ler maisPOV: Cristina Sousa
Corra. O comando não vinha da mente, mas do chicote de adrenalina que golpeava as minhas vértebras. Meus pés descalços martelavam o cascalho úmido das ruelas de Sevilha, e cada impacto enviava farpas de dor que subiam pelas minhas canelas até os joelhos. O ar da madrugada era uma navalha invisível, retalhando a pele exposta do meu rosto e dos meus braços, mas eu não sentia o frio. Eu sentia o incêndio. Meus pulmões eram duas bolsas de brasa viva, chiando a cada inspiração rasa e desesperada. O gosto de ferro — o gosto do meu próprio sangue — inundava a minha boca, metálico e quente. Minhas mãos, com as unhas quebradas e as palmas esfoladas pela terra, apertavam freneticamente os restos do meu vestido de algodão contra o peito. O tecido estava rasgado no ombro, pendendo como uma pele morta, revelando a nudez que ainda ardia, que ainda latejava sob as marcas roxas que começavam a florescer na minha carne. — ¡Detente, maldita perra! O grito dele rasgou o silêncio da noite, vindo de algum lugar atrás das sombras das tabernas. O som de botas pesadas batendo no chão de pedra ecoava, rítmico, implacável. Ele estava perto. Eu podia quase sentir o hálito de vinho azedo e tabaco podre soprando na minha nuca. Virei uma esquina estreita, meus dedos raspando na parede de cal áspera, arrancando lascas de pedra e pele. Minha visão oscilava. O mundo era um borrão de luzes amarelas de lampiões e sombras que pareciam mãos tentando me puxar de volta para o chão de terra batida daquela taberna. Eu ainda sentia o peso dele. O estômago dele pressionando o meu, o cheiro de suor rançoso sufocando os meus gritos, o impacto seco do meu crânio contra a madeira enquanto ele me partia ao meio. Eu não era mais Cristina. Eu era uma presa. E a caçada era o esporte dele. Apertei o pequeno saco de moedas escondido no meu seio, sentindo o metal frio contra o meu mamilo dolorido. O preço da minha alma. O roubo que me daria o mar ou a cova. O cenário mudou subitamente. O cheiro de poeira e jasmim morreu, substituído pelo odor pungente de óleo diesel, peixe podre e o salitre pesado do rio. O Porto de Sevilha se abriu diante de mim como a boca de um monstro marinho. Holofotes gigantescos cortavam a neblina, revelando o casco negro e colossal do navio transatlântico. O apito soou. Um estrondo gutural que fez o meu esqueleto vibrar de pânico. As correntes da prancha de embarque gemeram, subindo lentamente, separando o mundo dos vivos do mundo dos mortos. — ¡Allí está! — outro grito, agora de mais de uma voz. O medo paralisou as minhas articulações por um milissegundo. Meus joelhos cederam e eu desabei no concreto áspero do cais. O impacto arrancou o pouco ar que me restava. Olhei para as minhas mãos: elas tremiam tanto que pareciam ter vida própria, manchadas com a lama da fuga e o sangue que escorria da minha testa. Levantei o rosto. Ele estava saindo das sombras, a apenas dez metros de distância. A luz do porto refletiu na lâmina curta que ele segurava. O brilho do aço era um espelho da maldade nos seus olhos pequenos e injetados. — Ninguém quer mercadoria estragada, Cristina — ele sibilou, limpando a boca com as costas da mão suja. — Vou te deixar aqui para os cães. Mercadoria estragada. Aquelas palavras foram a faísca no barril de pólvora do meu desespero. Com um gemido que rasgou a minha garganta, eu me lancei para a frente. Meus pés sangravam, deixando rastros vermelhos no cimento, mas eu não parei. Corri os últimos metros, sentindo o abismo de água negra e oleosa se abrir entre o cais e o navio que partia. Eu pulei. Por um segundo eterno, a gravidade deixou de existir. O som do mundo desapareceu. Eu vi a lua, branca e indiferente, e senti o vazio gelado no estômago. Eu esperava o choque da água fria, esperava o abraço do rio que me levaria para o fundo, mas o que encontrei foi o toque áspero e doloroso de uma rede de carga suspensa no casco. Minhas mãos agarraram as cordas de cânhamo com a força de quem se recusa a cair no inferno. O navio se moveu. O solavanco quase arrancou os meus braços dos ombros. Fiquei balançando no vazio, as águas escuras rugindo abaixo de mim, enquanto a Espanha diminuía até se tornar apenas uma linha de luzes distantes e cruéis. Escalei a rede, cada centímetro sendo uma batalha contra o esgotamento. Quando minhas mãos finalmente tocaram o aço gelado do convés, eu rolei para dentro, colidindo com o metal úmido. Fiquei ali, encolhida em posição fetal, abraçando as minhas pernas contra o peito para tentar parar o tremor que sacudia a minha alma. O navio rugia abaixo de mim, as máquinas vibrando sob a minha carne ferida. Levei a mão à coxa. Senti a umidade pegajosa, o calor do sangue que não parava de escorrer entre as minhas pernas, manchando o tecido do vestido que antes era branco. A dor era um lembrete físico, rítmico e cruel de que eu não era mais a mesma garota que acordara naquela manhã. Eu estava indo para Nova York. Sem malas. Sem família. Sem um nome que não estivesse manchado pela vergonha. Eu só tinha o sal do mar nas minhas feridas e o ódio crescendo no lugar onde meu coração costumava bater. Olhei para as minhas unhas pretas de terra e sangue e fiz o meu primeiro juramento: ninguém nunca mais encostaria na minha pele sem que eu permitisse. Eu preferiria ser a própria morte a ser vítima outra vez. Eu estava fugindo de um estuprador para encontrar a liberdade, mas o Atlântico era vasto, e no final dele, um império de gelo e aço chamado Lewis Stinson estava à espera da próxima alma para devorar.POV: Cristina Sousa O som do clique da chave girando pelo lado de fora da fechadura era o sinal de que a noite tinha terminado. Fiquei estática, deitada na escuridão do meu quarto, encarando o teto sombrio enquanto o silêncio da mansão se restabelecia como um lençol pesado. O meu corpo ainda ardia, pulsando com a invasão recente, marcado pelo peso esmagador de Lewis. O cheiro dele — aquela mistura opressora de uísque caro, tabaco e o suor da nossa luxúria — flutuava no ar, impregnado nos lençóis de algodão e na minha própria pele. Dentro de mim, o sêmen dele ainda estava quente, escorrendo lentamente pelas minhas coxas, uma prova líquida e viscosa de que, por algumas horas, eu havia sido o seu único foco de destruição. Levei a mão trêmula ao ventre. Seis meses. A minha barriga estava redonda, firme, abrigando o herdeiro de um império construído sobre cadáveres. Na penumbra, senti um leve movimento interno. Um chute tímido, como se o
POV: Lewis Stinson Três meses. Noventa dias excruciantes se arrastaram desde que aquela noite de insanidade na Suíte Master destruiu a última barreira de gelo que eu ainda tentava manter erguida. Noventa dias em que eu me tornei um estranho dentro da minha própria pele, vivendo uma farsa esquizofrênica que alimentava a minha alma faminta durante a madrugada e me enojava assim que o primeiro raio de sol rasgava o horizonte. O inverno rigoroso de Nova York estava em seu auge. Lá fora, a neve cobria as ruas do Brooklyn com um manto branco e espesso, congelando o sangue derramado nas calçadas pelas disputas de território. Mas, por mais que a cidade estivesse congelada, o verdadeiro inferno de gelo morava dentro dos muros da Mansão Stinson. O clima sob o meu teto era de um deserto árido e silencioso. Os guardas andavam na ponta dos pés. Os empregados evitavam cruzar o meu caminho. E eu... eu governava o meu império de sombras sentado num
POV: Cristina Sousa O cheiro de sândalo e fumaça de charuto foi a primeira coisa que invadiu os meus sentidos. Não havia o frio cortante do meu quarto de babá, nem o tecido áspero do meu cobertor de lã. Embaixo de mim, o colchão era macio como uma nuvem, e os lençóis que cobriam o meu corpo eram de uma seda escura e gelada. Pisquei devagar, os meus olhos se ajustando à penumbra. O quarto era imenso. As cortinas pesadas deixavam apenas um feixe da luz prateada da lua entrar, iluminando os móveis de carvalho maciço. A Suíte Master. O quarto de Lewis. A respiração dele soou baixa e próxima. Girei o rosto no travesseiro. Lewis estava sentado na beirada da cama, a postura curvada, o rosto mergulhado nas sombras. Mas a mão dele... a mão calejada, quente e imensa do "Homem de Aço" continuava exatamente onde ele a havia colocado antes de eu apagar. Espalmada com firmeza e proteção sobre o meu ventre.
POV: Lewis Stinson A porta de madeira bateu nas minhas costas com um estrondo. A chave de latão ainda estava presa na fechadura, esmagada entre os meus dedos com tanta força que o metal ameaçava entortar. Fiquei parado no corredor escuro do segundo andar. O ar da minha própria casa de repente parecia rarefeito, pesado demais para os meus pulmões puxarem. «Eu fui estuprada em Sevilha.» As palavras dela não foram um grito. Foram um sussurro. Um sussurro que atravessou a porta trancada, rasgou a minha camisa preta e afundou direto no meu peito como uma lâmina enferrujada. Soltei a chave. Cambaleei um passo para trás, encostando as costas na parede fria do corredor. Fechei os olhos, mas a escuridão só piorou as coisas. A imagem do rosto dela banhado em lágrimas, o desespero manso, a forma como ela prendeu a minha mão contra o ventre dela... «Você sabe que esse bebê é seu... do mesmo jeito que sabe que eu...» A confissão não dita. O amor que ela me entregou de bandeja, mesmo





Último capítulo