Capítulo 05: O Choro no Escuro

POV: Cristina Sousa

Os meus sapatos velhos mal faziam barulho no tapete espesso que cobria a escadaria dupla de mármore. Eu seguia Leo em silêncio. A cada degrau que subíamos, o ar parecia ficar mais rarefeito, como se a mansão inteira prendesse a respiração sob o peso do homem que havíamos deixado no escritório.

O corredor do segundo andar era vasto, ladeado por quadros com molduras de ouro envelhecido e portas de carvalho fechadas. Era um labirinto projetado para isolar.

Leo parou diante de uma porta no final do corredor, longe da escadaria principal. Ele girou a maçaneta e empurrou a madeira, revelando um quarto de tons neutros, impecavelmente limpo, com uma cama de solteiro, uma cômoda simples e uma porta menor que devia levar a um banheiro.

— É aqui — Leo disse, a voz baixa, encostando-se no batente. Ele não me olhou nos olhos.

Passei por ele, apertando o sobretudo em volta do meu corpo ferido. O quarto cheirava a lavanda e cera nova. Era frio, mas tinha um teto. Tinha paredes grossas que o meu agressor de Sevilha nunca conseguiria derrubar.

— Você me traiu — sussurrei, quebrando o silêncio. Minha voz não tinha raiva, apenas a exaustão de uma constatação dolorosa.

Leo soltou um suspiro pesado, cruzando os braços. A postura relaxada dele contrastava com a tensão nos músculos do seu maxilar.

— Eu salvei a sua vida, espanhola. Duas vezes — ele rebateu, o tom endurecendo. — Se eu não contasse ao Lewis que você estava no navio, os cães dele teriam achado o seu cheiro no porto e atirado na sua cabeça antes de você pisar no asfalto. O Don sabe de tudo o que acontece na cidade dele. Achar que você podia enganá-lo era a verdadeira sentença de morte.

Ele apontou com o queixo para a cômoda.

— Tem uniformes limpos ali. Tire esse casaco imundo, jogue tudo no cesto de metal no banheiro que eu mandarei queimar. Há toalhas quentes e sabonete. Limpe esse sangue. O Don perdoou a sua invasão porque você serviu ao propósito dele, mas a paciência de Lewis Stinson é menor do que o pavio de uma dinamite.

Ele virou as costas para sair, mas parou, olhando por cima do ombro.

— O quarto da menina é a próxima porta à direita. Quando estiver apresentável, vá até lá. Ela está chorando há três horas e a última babá pediu demissão ontem porque não aguentava mais os gritos. Não estrague a sua única chance, Cristina.

A porta se fechou. O clique da trava me deixou sozinha.

Meus ombros caíram. A adrenalina que me manteve de pé diante de Lewis Stinson evaporou, deixando apenas a ruína física. Caminhei até o banheiro, liguei a torneira da banheira de porcelana e deixei a água quente correr.

Despir-me foi uma tortura. O sobretudo grosso caiu no chão. Depois, com as mãos trêmulas, puxei o vestido rasgado por cima da cabeça. O tecido grudou no sangue seco das minhas coxas, e puxá-lo fez a minha pele arder em agonia.

Olhei para o espelho acima da pia. A garota que me encarava de volta tinha olhos fundos, assombrados, emoldurados por um rosto sujo de fuligem e uma mancha roxa na maçã do rosto. Meu corpo era um mapa de violência. Marcas de dedos escuros na minha cintura e nos meus ombros. O baixo ventre latejava com uma cólica surda e contínua.

Entrei na água quente. O ardor das feridas abertas me fez morder o nó do dedo para não gritar. Esfreguei a minha pele com o sabonete grosso até ela ficar vermelha, tentando lavar o cheiro de suor rançoso, o toque áspero da taberna, o óleo do navio e o olhar dissecador de Lewis Stinson.

Eu queria esfregar até arrancar a própria pele, mas o choro distante e agudo que atravessou a parede me fez parar.

Era um choro quebrado. Rouco. O som de um desespero puro que rasgava a garganta.

Saí da banheira às pressas, secando-me de qualquer jeito. Vesti o uniforme cinza que estava na cômoda. O algodão engomado era duro e abotoava até o pescoço, mas escondia perfeitamente os hematomas. Prendi o meu cabelo úmido em um coque rígido no alto da cabeça.

Saí do quarto e caminhei até a porta ao lado. O choro estava mais alto.

Empurrei a porta do berçário.

O quarto era imenso, decorado em tons pastéis de rosa e branco, cheio de brinquedos caros de madeira e ursos de pelúcia maiores do que eu. Mas o luxo não aquecia o ambiente. Era um quarto frio, solitário.

No centro do cômodo, em um berço de mogno entalhado, estava ela.

Isabel.

Ela tinha pouco mais de um ano. Estava de pé no berço, agarrada às grades de madeira com as mãozinhas gordinhas, o rosto completamente vermelho e banhado em lágrimas. Os cachos loiros colavam na testa suada. Ela soluçava com tanta força que o corpinho inteiro tremia.

O meu coração, que eu achava ter se transformado em pedra no porto de Sevilha, rachou no meio.

Aproximei-me devagar. O instinto tomou conta das minhas pernas. Eu conhecia aquela dor. Eu conhecia o terror de estar sozinha no escuro, esperando que alguém visse que eu estava quebrando por dentro.

— Hola, chiquita... — sussurrei. A minha voz soou rouca, o espanhol escapando sem que eu pensasse.

Isabel parou de chorar por um milissegundo. Os grandes olhos castanhos, assustadoramente parecidos com os meus, focaram no meu rosto. Ela não recuou. Ela não sentiu o cheiro da fuligem ou da morte em mim; ela sentiu apenas que eu era um corpo quente no meio daquela mansão de gelo.

Ela esticou os dois bracinhos curtos na minha direção. Um pedido mudo. Um grito de socorro.

Ignorei a dor aguda na minha pélvis e me inclinei sobre a grade, enfiando os braços por baixo das axilas dela. Levantei-a. O peso da criança contra o meu peito foi um choque elétrico. Ela imediatamente afundou o rosto molhado na curva do meu pescoço, os dedinhos minúsculos agarrando o colarinho duro do meu uniforme cinza como se eu fosse a única coisa impedindo que ela caísse em um abismo.

O cheiro dela era de leite e talco. Um cheiro de inocência que não pertencia à casa de Lewis Stinson.

Apoiei a bochecha nos cachos úmidos dela e comecei a balançar o meu corpo lentamente de um lado para o outro. Minha mão calejada acariciou as costas pequenas dela em um ritmo suave e ancestral.

— Shhh... ya está, mi niña. Ya pasó — murmurei, os meus próprios olhos enchendo de lágrimas que eu não derramei por mim mesma. — Eu estou aqui. A mamãe foi embora, mas eu não vou deixar o escuro te pegar. Eu juro. Ninguém vai te machucar.

Isabel soluçou pesadamente mais duas vezes, o corpinho tenso começando a relaxar, derretendo contra o meu peito. A respiração dela foi se acalmando, sincronizando-se com a minha.

Enquanto eu a segurava, sentindo o calor daquela vida frágil se ancorar na minha, a dor do abuso, do frio e da fome pareceu recuar para as sombras da minha mente. Lewis Stinson podia ser o dono do mundo lá fora. Ele podia ser o diabo de terno que achava ter comprado uma escrava.

Mas abraçando Isabel no meio daquele berçário silencioso, eu soube que acabei de encontrar o meu escudo e a minha espada. Eu lutaria por ela.

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