Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV: Cristina Sousa
Corra. O comando não vinha da mente, mas do chicote de adrenalina que golpeava as minhas vértebras. Meus pés descalços martelavam o cascalho úmido das ruelas de Sevilha, e cada impacto enviava farpas de dor que subiam pelas minhas canelas até os joelhos. O ar da madrugada era uma navalha invisível, retalhando a pele exposta do meu rosto e dos meus braços, mas eu não sentia o frio. Eu sentia o incêndio. Meus pulmões eram duas bolsas de brasa viva, chiando a cada inspiração rasa e desesperada. O gosto de ferro — o gosto do meu próprio sangue — inundava a minha boca, metálico e quente. Minhas mãos, com as unhas quebradas e as palmas esfoladas pela terra, apertavam freneticamente os restos do meu vestido de algodão contra o peito. O tecido estava rasgado no ombro, pendendo como uma pele morta, revelando a nudez que ainda ardia, que ainda latejava sob as marcas roxas que começavam a florescer na minha carne. — ¡Detente, maldita perra! O grito dele rasgou o silêncio da noite, vindo de algum lugar atrás das sombras das tabernas. O som de botas pesadas batendo no chão de pedra ecoava, rítmico, implacável. Ele estava perto. Eu podia quase sentir o hálito de vinho azedo e tabaco podre soprando na minha nuca. Virei uma esquina estreita, meus dedos raspando na parede de cal áspera, arrancando lascas de pedra e pele. Minha visão oscilava. O mundo era um borrão de luzes amarelas de lampiões e sombras que pareciam mãos tentando me puxar de volta para o chão de terra batida daquela taberna. Eu ainda sentia o peso dele. O estômago dele pressionando o meu, o cheiro de suor rançoso sufocando os meus gritos, o impacto seco do meu crânio contra a madeira enquanto ele me partia ao meio. Eu não era mais Cristina. Eu era uma presa. E a caçada era o esporte dele. Apertei o pequeno saco de moedas escondido no meu seio, sentindo o metal frio contra o meu mamilo dolorido. O preço da minha alma. O roubo que me daria o mar ou a cova. O cenário mudou subitamente. O cheiro de poeira e jasmim morreu, substituído pelo odor pungente de óleo diesel, peixe podre e o salitre pesado do rio. O Porto de Sevilha se abriu diante de mim como a boca de um monstro marinho. Holofotes gigantescos cortavam a neblina, revelando o casco negro e colossal do navio transatlântico. O apito soou. Um estrondo gutural que fez o meu esqueleto vibrar de pânico. As correntes da prancha de embarque gemeram, subindo lentamente, separando o mundo dos vivos do mundo dos mortos. — ¡Allí está! — outro grito, agora de mais de uma voz. O medo paralisou as minhas articulações por um milissegundo. Meus joelhos cederam e eu desabei no concreto áspero do cais. O impacto arrancou o pouco ar que me restava. Olhei para as minhas mãos: elas tremiam tanto que pareciam ter vida própria, manchadas com a lama da fuga e o sangue que escorria da minha testa. Levantei o rosto. Ele estava saindo das sombras, a apenas dez metros de distância. A luz do porto refletiu na lâmina curta que ele segurava. O brilho do aço era um espelho da maldade nos seus olhos pequenos e injetados. — Ninguém quer mercadoria estragada, Cristina — ele sibilou, limpando a boca com as costas da mão suja. — Vou te deixar aqui para os cães. Mercadoria estragada. Aquelas palavras foram a faísca no barril de pólvora do meu desespero. Com um gemido que rasgou a minha garganta, eu me lancei para a frente. Meus pés sangravam, deixando rastros vermelhos no cimento, mas eu não parei. Corri os últimos metros, sentindo o abismo de água negra e oleosa se abrir entre o cais e o navio que partia. Eu pulei. Por um segundo eterno, a gravidade deixou de existir. O som do mundo desapareceu. Eu vi a lua, branca e indiferente, e senti o vazio gelado no estômago. Eu esperava o choque da água fria, esperava o abraço do rio que me levaria para o fundo, mas o que encontrei foi o toque áspero e doloroso de uma rede de carga suspensa no casco. Minhas mãos agarraram as cordas de cânhamo com a força de quem se recusa a cair no inferno. O navio se moveu. O solavanco quase arrancou os meus braços dos ombros. Fiquei balançando no vazio, as águas escuras rugindo abaixo de mim, enquanto a Espanha diminuía até se tornar apenas uma linha de luzes distantes e cruéis. Escalei a rede, cada centímetro sendo uma batalha contra o esgotamento. Quando minhas mãos finalmente tocaram o aço gelado do convés, eu rolei para dentro, colidindo com o metal úmido. Fiquei ali, encolhida em posição fetal, abraçando as minhas pernas contra o peito para tentar parar o tremor que sacudia a minha alma. O navio rugia abaixo de mim, as máquinas vibrando sob a minha carne ferida. Levei a mão à coxa. Senti a umidade pegajosa, o calor do sangue que não parava de escorrer entre as minhas pernas, manchando o tecido do vestido que antes era branco. A dor era um lembrete físico, rítmico e cruel de que eu não era mais a mesma garota que acordara naquela manhã. Eu estava indo para Nova York. Sem malas. Sem família. Sem um nome que não estivesse manchado pela vergonha. Eu só tinha o sal do mar nas minhas feridas e o ódio crescendo no lugar onde meu coração costumava bater. Olhei para as minhas unhas pretas de terra e sangue e fiz o meu primeiro juramento: ninguém nunca mais encostaria na minha pele sem que eu permitisse. Eu preferiria ser a própria morte a ser vítima outra vez. Eu estava fugindo de um estuprador para encontrar a liberdade, mas o Atlântico era vasto, e no final dele, um império de gelo e aço chamado Lewis Stinson estava à espera da próxima alma para devorar.






