Capítulo 02: O Ventre da Besta

POV: Cristina Sousa

O som não era humano. Era o pulsar rítmico, grave e ensurdecedor de um coração de ferro. As turbinas do navio vibravam através do convés de aço, subindo pelas minhas solas e sacudindo cada osso do meu corpo exausto. Eu estava encolhida em um canto escuro, atrás de uma pilha de caixas de carvalho que cheiravam a resina e mofo. A escuridão era o meu único cobertor, mas ela era úmida e fria.

Minha mão desceu novamente para a coxa. O tecido do vestido estava empapado, uma mancha fria e pegajosa que grudava na minha pele. O sangue já não era mais quente; era um lembrete viscoso da vida que eu estava deixando para trás. Cada vez que o navio cortava uma onda mais forte, o meu útero se contraía, uma pontada aguda que me fazia morder o lábio até sentir o gosto de cobre.

Eu estava no porão. O ar aqui embaixo era espesso, saturado com o cheiro de óleo diesel e maresia estagnada. Eu tentava não respirar muito fundo para não vomitar o nada que havia no meu estômago.

De repente, um feixe de luz branca cortou as sombras.

Eu congelei. Meus pulmões travaram. A luz dançou pelas caixas, saltando sobre as vigas de metal, aproximando-se do meu esconderijo com uma precisão predatória. O som de botas de sola de borracha contra o metal — clic, clic, clic — era o som da morte vindo me buscar.

— Eu sei que você está aí. — A voz era jovem, mas carregada de uma aspereza que não condizia com o tom. Era baixa, um sussurro que parecia carregar o peso do oceano.

Encolhi-me mais contra o carvalho, minhas unhas arranhando a madeira até que as pontas dos dedos ardessem. A luz parou exatamente sobre os meus pés. Eu vi a poça de sangue escuro no metal brilhando sob o reflexo do holofote manual.

— Maldição... — o homem murmurou.

A luz subiu, ofuscando-me. Coloquei o braço na frente do rosto, os olhos ardendo. Ouvi o clique de uma trava de segurança. O cano de uma pistola surgiu no meu campo de visão, frio e circular, apontado diretamente para a minha testa.

— Levante. Agora. Sem gracinhas ou eu te jogo pela amurada antes mesmo de você explicar como subiu aqui.

Eu tremi. Meus dentes batiam uns nos outros, um som rítmico que eu não conseguia controlar. Lentamente, apoiei as mãos no chão — sentindo o lodo escorregadio — e forcei as minhas pernas a obedecerem. Quando fiquei de pé, o mundo girou. Tive que me apoiar na caixa. Meu vestido rasgado revelava as marcas roxas nos meus ombros, as digitais de um monstro que ainda pareciam queimar a minha pele.

O homem baixou um pouco a lanterna, mas não a arma. Ele era alto, de ombros largos, vestindo uma camisa de marinheiro suja de graxa. O rosto era bonito de uma forma perigosa, com olhos que já tinham visto coisas demais para alguém da sua idade.

— Quem é você? — ele perguntou, o olhar descendo para o sangue entre as minhas pernas e voltando para o meu rosto pálido. — Uma prostituta que tentou dar um golpe em Sevilha?

A palavra prostituta me atingiu como um tapa físico. Minha espinha estalou.

— Eu... eu não sou isso — minha voz saiu como um chiado, as cordas vocais arranhadas pelo sal e pelo choro seco. — Eu sou Cristina Sousa… eu só precisava sair. Ele ia me matar.

— "Ele" quem? — O homem deu um passo à frente, invadindo o meu espaço. O cheiro de tabaco e sabão de barba emanava dele. — Você tem ideia de onde você se meteu, garota?

Ele guardou a lanterna no cinto, mas manteve a arma firme, o dedo indicador acariciando o gatilho com uma familiaridade que me fez suar frio.

— Esse navio não é de passageiros. Esse navio é do Don. — Ele sibilou o título com um respeito que beirava o pavor. — Lewis Stinson. Já ouviu o nome? Não, é claro que não. Você é só uma menina espanhola de vilarejo que acha que a América é feita de ouro.

— Eu não quero ouro — sussurrei, sentindo as lágrimas quentes finalmente transbordarem. — Eu só quero o silêncio. Eu estava noiva... mas meus pais moram e me deixaram dívidas então meu “noivo” passou as dívidas mas em troca… me arrastou para a taberna onde meu tio me vendeu por duas garrafas de vinho. Ele me jogou no chão. Eu senti a terra na minha boca. Eu senti... eu senti o cheiro de podridão dele. Ele me quebrou, senhor. Ele me usou e depois disse que eu era uma mercadoria sem valor. Eu peguei o dinheiro dele. Eu corri. Eu pulei no navio porque prefiro que os peixes me comam do que ele me toque de novo.

As palavras saíram em um jato desesperado, cru, sem filtros. Contei sobre a lâmina no porto, sobre o salto no vazio, sobre a rede de carga que quase arrancou os meus braços. Contei a verdade que nenhuma mulher na Espanha de 52 ousaria dizer em voz alta.

O homem, não se moveu. A expressão dele, antes agressiva, transformou-se em uma máscara de choque frio. Ele olhou para as minhas mãos manchadas de sangue e terra. Ele olhou para o meu olhar vazio.

Então, o rosto dele endureceu de novo. Ele deu mais um passo, prensando-me contra as caixas de carvalho. O cano da arma agora pressionava a minha jugular, o metal gelado fazendo o meu pulso acelerar.

— Você é idiota? — ele sibilou perto do meu ouvido. — Você está me dizendo que você, uma civil, uma ninguém, entrou clandestinamente no navio da família Stinson?

— Eu não sabia…

— Cala a boca! — Ele apertou o cano contra a minha pele. — Você é a única mulher neste navio. Todos aqui, desde o cozinheiro até o capitão, pertencem ao Lewis. Se eu te levar para cima, o Don vai achar que você é uma espiã de Chicago ou da família russa. Ele não vai te fazer perguntas. Ele vai te abrir da garganta ao umbigo para ver o que você escondeu no estômago e depois vai te jogar para os tubarões.

Meus joelhos cederam, mas ele me segurou pelo braço, um aperto de ferro que deixou novas marcas.

— Eu deveria te jogar ao mar agora mesmo — ele disse, olhando para a escotilha redonda no fim do corredor de metal. — Seria um favor para você. Uma morte rápida na água é melhor do que dez minutos em uma sala de interrogatório com o Lewis Stinson.

— Então me jogue — respondi.

Eu não pisquei. Eu não implorei. Olhei no fundo dos olhos dele com a coragem de quem já conheceu o inferno pessoalmente e descobriu que o fogo não queima mais quem já virou cinzas.

— Se o seu Don é pior do que o homem que me estuprou no chão de Sevilha, então me jogue na água agora. Mas não me peça para ter medo. O medo morreu lá atrás, quando o meu próprio sangue sujou o meu vestido.

O homem paralisou. O dedo dele hesitou no gatilho. Eu podia ver o conflito nas pupilas dele. Ele era um soldado da máfia, treinado para eliminar ameaças, mas diante dele não havia uma espiã. Havia uma ruína.

Ele soltou o meu maxilar com um empurrão brusco. Guardou a pistola no coldre sob a camisa com um movimento rápido e praguejou em voz baixa, chutando uma das caixas. O som metálico ecoou pelo porão.

— Droga... droga! — Ele passou a mão pelo cabelo, olhando para todos os lados. — Se alguém descobrir que eu te vi e não te matei, eu sou o próximo a ir para a água.

Ele me encarou novamente. O olhar dele não era de pena, era de uma cumplicidade amaldiçoada.

— Você vai ficar aqui. Escondida. Se você fizer um som, se um rato te assustar e você gritar, eu mesmo corto a sua garganta. Entendeu?

Assenti, tremendo.

— Vou trazer panos e água. Limpe esse sangue. Se o cheiro chegar ao sistema de ventilação, os cães vão te achar em cinco minutos.

Ele se virou para sair, mas parou na penumbra.

— Reze. Reze para que o Don Lewis Stinson nunca saiba que existe uma garota espanhola respirando o oxigênio dele. Porque se ele descobrir, nem Deus vai conseguir te tirar viva desta travessia.

Ele subiu a escada de metal, e o som da escotilha se fechando foi o som de uma tumba sendo selada. Eu deslizei de volta para o chão de metal, abraçando a minha barriga, sentindo o navio mergulhar nas águas profundas do Atlântico.

Eu estava no ventre da besta. E o meu salvador era apenas um homem que ainda não tinha coragem suficiente para ser um assassino.

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