Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: Cristina Sousa
O som dos meus próprios passos ecoava abafado contra o cimento das calçadas do Upper East Side. Eu havia gasto quase todas as moedas que roubei do meu agressor em Sevilha. O dinheiro espanhol valeu uma ninharia nas mãos de um cambista de rua, mas foi o suficiente para comprar um sobretudo de lã grossa e de segunda mão em um beco do porto, além de um par de sapatos de couro que apertavam os meus calcanhares esfolados. O casaco escondia o vestido rasgado, o sangue seco nas minhas coxas e as marcas roxas daquela taberna, mas não escondia o pavor nos meus olhos. Parei diante dos enormes portões de ferro forjado na Rua 72. A Mansão Stinson era uma fortaleza erguida no meio de Nova York. Paredes de pedra escura, janelas altas como fendas de observação e homens de terno escuro vigiando o perímetro. A minha pélvis latejou em protesto, uma dor surda e contínua, enquanto eu engolia a seco e apertava o botão do interfone. — O que você quer? — a voz masculina soou metálica e ríspida pelo alto-falante. — O anúncio — minha voz saiu trêmula, o sotaque espanhol carregando cada sílaba do meu inglês precário. — Para a babá. O portão pesado destravou com um zumbido elétrico. Fui recebida por um mordomo grisalho e rígido que me mediu de cima a baixo com nojo, antes de me guiar pelos corredores da mansão. O silêncio ali era opressivo. Não havia som de crianças brincando. O piso de mármore refletia os lustres de cristal, mas o ar cheirava a cera, mogno e um perigo silencioso. O mordomo abriu duas portas pesadas no fim do corredor e fez um gesto para que eu entrasse. O escritório era uma caverna escura. As cortinas de veludo bloqueavam o sol, deixando a iluminação por conta da lareira crepitante. O som da porta se fechando atrás de mim soou como a tampa de um caixão. Fiquei paralisada no centro do tapete persa. Havia dois homens na sala. O primeiro estava de costas, servindo uísque em um copo de cristal. O segundo estava recostado perto da janela, as mãos nos bolsos da calça. Quando a luz do fogo iluminou o rosto do homem na janela, o meu coração parou de bater. Todo o ar sumiu dos meus pulmões. Era Leo. O marinheiro que me encontrou no porão. O soldado que eu achei que havia me salvado. Ele me olhou, e a expressão dele era uma mistura de aviso e resignação. Ele não esboçou um único sorriso. Foi então que o outro homem se virou. Lewis Stinson. O Homem de Aço tinha olhos de obsidiana — escuros, desprovidos de qualquer calor. Ele não vestia o sobretudo do porto, mas um colete bem cortado sobre uma camisa branca impecável. Ele era a escultura do próprio diabo: ângulos duros, um maxilar serrado e uma postura que irradiava um controle letal. Ele deu um gole no uísque, os olhos negros cravados em mim. — Então, é essa a ratazana que sujou o aço do meu navio com sangue espanhol. A frase dele cortou o ar como um chicote. Minhas pernas vacilaram. O chão pareceu se abrir sob os meus pés. A ilusão de que eu era uma sombra invisível, de que eu estava enganando a máfia, virou pó no mesmo instante. — Leo é o meu braço direito, Cristina Sousa — Lewis continuou, a voz baixa, aveludada, mas afiada como uma lâmina de barbear. Ele caminhou lentamente na minha direção, como um predador encurralando a presa. — Você realmente achou que ele esconderia uma clandestina do próprio Don? Eu soube que você estava nas entranhas do meu navio antes mesmo de cruzarmos a metade do Atlântico. Olhei para Leo, a traição queimando no meu peito, mas voltei os olhos imediatamente para o monstro que estava a menos de um metro de mim. O cheiro de cedro e uísque de Lewis apagou o oxigênio do quarto. — Se o senhor sabia... — minha voz saiu como um fio áspero, os meus músculos repuxando as feridas cruas sob o casaco enquanto eu recuava meio passo. — Se sabia que eu estava lá... por que não me jogou no mar? Lewis parou. Ele era tão alto que a sombra dele engoliu o meu corpo inteiro. Os olhos negros dele desceram do meu rosto pálido para a gola do meu casaco, dissecando a minha miséria. — Leo me contou a sua história patética no porão. Ele me contou por que você pulou — Lewis murmurou, a frieza na voz dele arrepiando cada pelo do meu corpo. — Ele me contou sobre a taberna. Sobre o animal que te quebrou e te usou no chão de terra em Sevilha. Fechei os olhos por um segundo. A humilhação me engoliu. O homem mais perigoso de Nova York não estava especulando sobre o meu trauma; ele sabia de cada detalhe sujo. Ele sabia que eu era, nas palavras do meu agressor, uma "mercadoria estragada". — Você veio pedir o emprego do jornal achando que estava se escondendo debaixo do meu nariz — Lewis sibilou, inclinando-se levemente, o rosto a centímetros do meu. — Mas eu deixei o jornal lá fora, Cristina. Eu deixei você vir até a minha porta. Eu queria ver a cara da garota que preferiu o escuro do mar a morrer na lama. O meu estômago despencou. A armadilha. A vaga de babá. Ele não estava apenas me avaliando; ele estava brincando comigo. O sangue ferveu nas minhas veias. A imagem da taberna, do peso esmagador sobre mim e da dor alucinante que ainda irradiava na minha pélvis rasgaram a minha máscara de terror. A leoa espanhola, ferida, esfolada e acuada, rosnou de volta para o Homem de Aço. Ergui o queixo, cravando os meus olhos castanhos no fundo da escuridão dele. — Então o senhor já sabe tudo. Sabe que eu fui quebrada — eu disparei, o sotaque espanhol soando exótico e desafiador na penumbra. — O anúncio exigia discrição absoluta. Você acha que uma garota rica de Nova York manteria a boca fechada sobre os seus negócios? Eu não tenho família. Não tenho amigos. Não tenho passado. E não tenho mais honra para defender. Quem não tem nada, Señor Stinson, guarda com a própria vida os segredos de quem lhe dá um teto. O silêncio desabou sobre o escritório. Leo se mexeu levemente perto da janela, claramente tenso, esperando que o Don sacasse a arma e atirasse em mim por levantar a voz. Mas Lewis Stinson não piscou. O olhar dele escureceu ainda mais, fixo na teimosia e na fúria contida na minha postura. A submissão cega e o choro que ele normalmente arrancava de suas vítimas não estavam ali. Havia apenas uma sobrevivente. E, por algum motivo sombrio, aquilo acionou uma fechadura na mente do mafioso. Ele recuou um passo, terminando o uísque em um único gole. O copo de cristal bateu na mesa de mogno com um clique seco. — A minha filha, Isabel, tem pouco mais de um ano. Ela perdeu a mãe e acorda gritando à noite — Lewis decretou, a voz voltando ao tom frio e calculista. Ele colocou as mãos nos bolsos do colete. — Você vai morar no andar de cima. Você não trará ninguém para dentro destes portões. Você não fará perguntas. Você não vê nada e não ouve nada que não seja relacionado à criança. Se você me trair, Cristina, o homem da taberna de Sevilha vai parecer um santo comparado ao que eu farei com você. Apertei os lábios, a dor no meu ventre pulsando no ritmo do meu alívio. Eu estava contratada. O meu esconderijo estava garantido. — Sí, Señor Stinson. Entendido. — Leo — Lewis chamou, sem desviar os olhos dos meus. — Leve-a para o quarto dela e providencie um uniforme. E mande-a queimar esse trapo imundo no fogo. Ela cheira a medo e a beco, e eu detesto sujeira na minha casa. Leo assentiu, caminhando em minha direção. Girei para sair, mas quando a minha mão tocou a maçaneta gelada, a voz de Lewis deslizou pelas minhas costas como uma corrente invisível. — Bem-vinda à Mansão Stinson, garota. A porta está trancada por dentro. Apertei os olhos, sentindo um arrepio gélido. Saí do escritório e segui Leo pelo corredor. Eu havia ganhado um teto, mas tinha acabado de entregar a minha alma ao próprio diabo.






