Mundo de ficçãoIniciar sessãoJúlia Cavalcante sempre foi uma sobrevivente. Órfã e sozinha, ela acreditou ter encontrado um porto seguro nos braços de Logan, até descobrir da forma mais cruel que o "amor" dele não passava de piedade disfarçada. Humilhada e traída, ela decide, por uma única noite, deixar de ser a menina grata para ser a mulher dona de seus desejos. O que ela não esperava era que o desconhecido magnético que conheceu no bar, o homem que a fez esquecer o próprio nome seria, na manhã seguinte, o seu novo chefe. Lian Bianchi é uma máquina. Frio, calculista e com relações conflitantes com a sua própria família, ele governa seu império com punho de ferro e não tolera erros. Júlia se torna sua secretária e seu maior desafio: uma profissional impecável que ele deseja e detesta na mesma medida. Três meses depois, o passado e o presente colidem. Entre enjoos escondidos e relatórios complexos, Júlia descobre que está grávida. Agora, ela está presa em uma teia de mentiras que começam com a descoberta do bebê. O pai é o homem que a tratou como lixo ou o chefe que jura que nunca poderia ter um filho? Em um jogo de poder e sedução, a verdade pode ser a sua salvação ou a sua ruína definitiva.
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Eu entrei em casa sentindo que o mundo, pela primeira vez em anos, estava voltando a ser colorido. O cartão de visitas da empresa ainda estava quente na palma da minha mão. Eu queria gritar, pular no pescoço do Logan e dizer que finalmente eu não seria mais um "fardo". Que eu iria ajudar com as contas, que a fase ruim tinha acabado finalmente. Mas o silêncio do corredor foi interrompido pela voz dele. Uma voz que eu não reconheci ser do homem que me jurou o mundo. Não era o tom carinhoso que ele usava quando eu tinha pesadelos com o acidente dos meus pais, longe disso. Era uma voz fria, afiada, cheia de um desprezo que me fez parar no lugar. — Relaxa, ela não vai descobrir — ele riu, e aquele som me deu náuseas. — E se descobrir, vai fazer o quê? Para onde a Júlia vai? Ela não tem ninguém, é uma órfã encostada. Sem emprego, sem família... ela depende de mim até para respirar. É uma idiota, acredita em qualquer palavra que eu digo desde que o carro dos pais dela virou sucata. – Ele parou de falar. – Não estou sendo duro, somente realista. Você sabe que eu só estou com ela por pena, só isso... O mundo não parou. Ele desmoronou naquele exato momento que suas palavras atravessaram o meu coração. Ali, parada com a maçaneta encostada nas costas, eu percebi que o homem que me "resgatou" dos destroços há anos, na verdade, estava apenas limpando o sangue para poder me trancar em uma nova cela. Ele não me amava; ele amava o controle que a minha tragédia deu a ele. Longa não me ajudou a curar; ele manteve a ferida aberta para que eu nunca parasse de precisar do seu curativo. Da sua presença e sua compaixão. - Eu não consigo nem gozar com ela... - Eu acabei tampando a boca para abafar um grito. - Evito ela ao máximo que eu posso, Clara. Ontem foi uma das piores noites da minha vida! Transamos, mas eu continuei sem me satisfazer, e ainda tive que fingir ter gostado. - Ele parou para escutar. - Porque não sinto nem mais desejo por aquela chorona. Quando transamos é uma tortura! Ela é tão... tão tímida e recatada. Você sabe que eu não suporto isso. Eu juro que queria morrer naquele exato momento. Tínhamos passado a noite passado juntos, ele me fez juras de amor, e agora... Eu era tão repugnante assim? Não aguentava mais ficar ali, precisava respirar. Olhei para o cartão da entrevista na minha mão. O papel estava amassado pelo meu aperto e desespero. Ele achava que eu era um resto de nada, uma sombra dependente. Que eu não era nem uma mulher de verdade, que ele se via obrigado até em transar. - Como eu fui burra. - Sussurrei limpando uma lágrima teimosa. - Eu preciso tomar vergonha na minha cara. Fiquei ali sem saber o que fazer. Me lembrei da entrevista. Aquele emprego... aquele emprego era a minha primeira chance em anos de ser além da mulher medíocre que ele acabara de citar. Ele continuava falando no quarto, marcando o horário para encontrá-la. Uma mulher que eu nunca ouvi falar, mas que tinha sua atenção e a versão que eu jamais imaginei que existia. Eu senti uma lágrima quente descer, mas não era de tristeza, era de raiva de mim mesma. Pela primeira vez desde o acidente, eu não me senti órfã. Eu me senti vazia, como se tivesse perdido até a minha identidade mais uma vez. Olhei para o cartão mais uma vez. Somente aquele cartão era meu salva vidas para não cair no abismo mais uma vez. (...) O ar gelado da noite de Porto Alegre cortava meu rosto, mas eu mal sentia. Meus pés se moviam no automático. Eu não levei malas, não levei roupas; levei apenas o cartão da entrevista e o ódio e tristeza que queimava no meu peito, substituindo o oxigênio. Logan achava que eu não tinha ninguém. E, tecnicamente, ele estava certo. Mas ele esqueceu que quem não tem nada, não tem nada a perder. A fachada de neon da boate brilhava como uma ferida aberta na calçada. Era um lugar onde o luxo e o perigo dançavam juntos, um mundo que Logan sempre me proibiu de frequentar, dizendo que era "perigoso demais para uma menina frágil como eu". — Júlia? — O segurança na porta franziu o cenho, surpreso ao me ver sozinha e com aquele olhar de quem tinha acabado de atravessar o inferno. — A Sabrina não chegou para o turno dela ainda. — Eu espero lá dentro — minha voz saiu rouca, estranha aos meus próprios ouvidos. - Eu posso esperar ela no bar? - Claro, Júlia. Amaro me deixou passar sem mais perguntas, fugi muito para cá atrás da minha melhor e única amiga. Sabrina era a única que eu poderia pedir ajuda depois de tudo que escutei da boca de Logan. Olho em volta, o ambiente estava na penumbra, o cheiro de perfume caro e álcool pairando no ar antes do movimento começar de verdade. Eu caminhei até o bar, mas parei antes de chegar. Do outro lado da mesa pequena e redonda, tinha um homem que era a imagem da perfeição. Ele estava com a gravata afrouxada. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando veias fortes e o relógio de platina que brilhava sob a luz baixa. Eu o observava pelo reflexo do vidro que nos separava, éramos nós dois naquele bar, somente nós dois. O cartão da empresa, aquele pedaço de papel que deveria ser meu troféu, agora estava úmido de suor e amassado entre meus dedos trêmulos. Eu me sentei no banco alto do bar, sentindo o couro frio sob minhas coxas. O som da música baixa, um jazz sensual que preenchia as paredes de veludo da boate, parecia zombar da batida desordenada do meu coração. — Um uísque. Puro. — Minha voz não parecia minha. Era mais firme, carregada de um veneno que eu não sabia que guardava. O barman me olhou de soslaio, talvez reconhecendo a amiga da Sabrina, mas apenas acenou e serviu o líquido âmbar. O primeiro gole queimou. Desceu rasgando minha garganta como se quisesse cauterizar as palavras de Logan. “Órfã encostada”. “Uma idiota”. “Tortura transar com ela”. Cada frase dele era um prego no caixão da Júlia frágil. E, conforme o segundo copo descia, o luto pela mulher que eu fui estava se transformando em algo... elétrico. Eu não estava mais chorando. A tristeza é pesada, mas a raiva? A raiva é combustível. Eu sentia minhas bochechas esquentarem, não apenas pelo álcool, mas pela percepção tardia de que eu tinha sido a arquiteta da minha própria prisão. Eu permiti que ele me moldar como barro, mas o barro secou e agora estava quebrando. Pelo canto do olho, eu o vi. O homem da mesa de canto não tinha desviado o olhar um segundo sequer. Ele era uma presença magnética, algo que você acaba sentindo na pele antes mesmo de processar com os olhos. Ele girava lentamente um copo de cristal, a luz do neon azul da boate refletindo no aço do seu relógio e na intensidade de suas pupilas escuras. Havia algo de predador ali, mas, pela primeira vez na vida, eu não queria fugir. Eu queria ser caçada. — Mais um — pedi, batendo o copo vazio no balcão. O mundo começou a girar de um jeito diferente. As cores ficaram mais vibrantes, o som mais nítido. A insegurança que Logan plantou em mim estava sendo afogada em uísque barato e audácia. Recatada? Tímida? A risada que escapou dos meus lábios foi amarga. A música mudou. O ritmo acelerou, uma batida de baixo profunda que vibrava no meu estômago. Eu me levantei. Meus pés estavam um pouco leves demais, e a sala deu uma leve inclinação para a esquerda, mas eu não me importei. Eu queria movimento. Eu precisava expulsar o toque de Logan da minha pele, substituindo o nojo pela euforia. Caminhei em direção ao pequeno espaço de dança perto do bar. Eu me sentia viva, uma versão distorcida e poderosa de mim mesma. Fechei os olhos e deixei meus braços subirem, sentindo o ar condicionado gelado contra o calor do meu corpo. Comecei a balançar os quadris, ignorando o mundo, focada apenas na sensação de ser dona do meu próprio espaço. Mas o álcool é um mestre enganoso. Em um giro mais brusco, o chão pareceu sumir. Meu salto da entrevista falhou, e a gravidade decidiu cobrar a conta das três doses de uísque. Eu não atingi o chão. Em vez disso, mãos grandes e firmes envolveram minha cintura com uma precisão cirúrgica. O impacto do meu corpo contra o dele foi como um choque elétrico. Ele era sólido, quente, e cheirava a sândalo e poder. — Cuidado — a voz dele era um barítono profundo, vibrando diretamente contra o meu pescoço. — Seria um desperdício ver você se quebrar no chão depois de um espetáculo desses. Eu apoiei as mãos nos ombros dele para me equilibrar, sentindo a textura fina da sua camisa de linho. Olhei para cima, encontrando olhos que pareciam ler minha alma e decidi que ele era interessante. — Eu não me quebro fácil — murmurei, o hálito quente de álcool denunciando minha condição. Minha mão subiu, subconscientemente, para o pescoço dele, meus dedos roçando a pele acima do colarinho. Ele soltou um riso baixo, um som que me fez arrepiar inteira. Ele não me soltou. Pelo contrário, apertou um pouco mais o aperto na minha cintura, me mantendo colada a ele. — Você é linda demais para estar bebendo desse jeito sozinha. — Sorriu de forma linda. — Mas talvez devesse parar por aqui. O uísque já fez o trabalho dele. — Você não sabe nada sobre o que eu preciso — eu disse, colando meu rosto ao dele, minhas bochechas roçando em sua barba por fazer. A raiva de Logan se transformou em um desejo urgente de ser desejada. De ser vista como mulher, não como um fardo. — Eu não quero parar. Eu me joguei nos braços dele, não por fraqueza, mas por uma entrega deliberada. Minha boca parou a milímetros da dele, sentindo sua respiração acelerar. O flerte era um incêndio fora de controle. Ele hesitou por uma fração de segundo, o conflito entre o cavalheirismo e o instinto visível em seu maxilar travado. O instinto venceu. — Você não tem ideia do fogo que está brincando — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa sombria. Ele me puxou para mais perto, e naquele momento, sob as luzes de Porto Alegre, Júlia Cavalcante morreu para que outra pessoa pudesse nascer. - Eu não quero fazer ideia de nada! Eu somente quero esquecer que sou uma mulher indesejada uma vez na vida. - Disse decidida. - Eu só quero uma noite para esquecer quem eu sou, somente uma noite. O desconhecido riu. - Então eu vou te ajudar com isso... - Ele se separou de mim e pegou a minha mão. - Se quiser parar, é só falar. Mas eu não quero parar, eu quero ir até o fim.Letícia Bianchi O ar no aeroporto de Charles de Gaulle tinha aquele cheiro característico de despedidas e recomeços — um misto de combustível de aviação, café forte e a eletricidade estática de mil vidas cruzando caminhos. Leonardo estava de pé, à porta do portão de embarque, com uma mala pequena e a postura contida que, agora eu sabia, era apenas um escudo.Ao vê-lo, senti uma pontada no peito. Tinha sido uma semana intensa, reveladora. Leonardo não tinha vindo a Paris apenas para "resolver problemas"; ele tinha vindo para reencontrar um pedaço de si mesmo que a nossa família tentara apagar. E, olhando para ele agora, parecia que ele tinha conseguido. Ele não era mais apenas o gêmeo silencioso; havia uma leveza no seu olhar, uma aceitação que tornava o seu rosto menos austero.Julian estava logo atrás de mim, uma presença sólida e constante. A sua mão na minha cintura era um lembrete silencioso de que eu não estava mais enfrentando a vida sozinha. O homem que me protegera na cozinh
Julian Cedric O buquê de rosas vermelhas estava sobre a mesa da sala, ocupando um espaço que parecia grande demais para o que representavam. Eram flores de uma perfeição artificial, impecáveis, sem um único espinho aparente, como se o Charles tivesse se preocupado em polir cada pétala antes de enviá-las. Ao lado, o cartão com a caligrafia que eu reconhecia de longe — fria, elegante e calculada.Letícia estava na cozinha, preparando o chá, e eu observava as flores com um nó no estômago que eu não sabia se era de alívio ou de uma possessividade inútil. Leonardo, que estivera conosco durante o café da manhã, tinha acabado de sair. Ele me confirmara, com aquela expressão imperturbável, que Charles estava de partida para o Brasil. A última tentativa, a última cartada.— Ele diz que não vai mais correr atrás — comentei, sem tirar os olhos do buquê, quando Letícia entrou na sala.Ela parou, olhou para as rosas e depois para mim. Não havia brilho nos seus olhos ao ver o presente; havia apen
Letícia Bianchi A porta do Le Petit Refuge fechou-se atrás de mim, bloqueando o barulho das ruas de Paris e me trazendo para o ambiente que, em tão pouco tempo, tornou-se o meu verdadeiro santuário. Julian estava na bancada, finalizando um prato, a concentração absoluta em seus olhos. Mas, no momento em que os nossos olhares se cruzaram, aquela armadura de chef profissional caiu. Ele viu. Ele sempre via. Ele não esperou. Largou a espátula, limpou as mãos no avental com um movimento ágil e veio ao meu encontro. O restaurante estava num momento de calmaria antes do serviço da noite, e a equipe, respeitando o espaço que parecia se criar ao nosso redor, manteve uma distância prudente. — Você está pálida — ele disse, sua voz uma mistura de preocupação e aquela segurança que me envolvia como um abraço. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, examinando-me como se eu fosse a coisa mais frágil do mundo. — O que aconteceu? Ela te machucou? Contei tudo. Contei sobre o salão de chá, sobre a
Letícia Bianchi Mesmo após o jantar desastroso, minha mãe não se cansou de tentar me manipular a qualquer custo. Ela sempre me alcançava de alguma forma, era como se esse casamento fosse algo mais importante que tudo que ela já tenha desejado. Um novo encontro foi marcado em um salão de chá que exalava uma aristocracia empoeirada, o tipo de lugar onde minha mãe se sentia no seu elemento: entre porcelanas caras e olhares julgadores. Eu estava lá por um compromisso profissional, uma reunião com fornecedores, e o fato de ela ter surgido, como um espectro vindo da Itália, sem aviso, não foi uma surpresa. Ela nunca precisou de convites. Ela apenas tomava o espaço. Na verdade, não era um encontro, foi mais uma armadilha feita por motivos que somente ela se importava. Sentei-me à mesa, ajustando a postura. Ela me observou com aquela lente implacável, buscando resquícios da "Letícia de estimação" que ela moldou por duas décadas. Eu via o esforço dela em tentar resgatar aquela versão de mi










Último capítulo