Mundo de ficçãoIniciar sessãoJúlia Cavalcante
A palavra pesava toneladas. Eu tinha acabado de conseguir o emprego dos meus sonhos, a vaga que o Logan jurou que eu nunca iria ser escolhida. Eu estava, finalmente, limpando os escombros da destruição que ele deixou na minha vida. E agora, o destino jogava essa âncora no meu pescoço. — Júlia Cavalcante, se você não abrir essa porta em três segundos, eu vou arrombar! — O tom de Sabrina mudou de brincalhão para se preocupar. Abri a porta e a minha amiga estava ali. Sabrina estava parada, com os braços cruzados, mas sua expressão ficou tensa no instante em que viu meus olhos vermelhos. — Amiga... o que foi? — Ela entrou e fechou a porta atrás de si. — Você está branca como um papel. O resultado... — Sabrina... — Minha voz falhou. — Eu estou ferrada. Ela não precisou de muitas explicações. O olhar dela caiu para o teste que ela mesma pediu e depois voltou para o meu ventre. O silêncio que se seguiu foi denso. — O teste? — ela sussurrou. - Jeová... Eu apenas assenti, sentindo as lágrimas finalmente vencerem a barreira dos meus cílios. — Oh, meu Deus. — Ela me puxou para um abraço apertado. — Calma. Vai ficar tudo bem. A gente resolve, a gente... Ela estava entrando em modo de me acalmar. — Resolve como, Sabrina? — Eu me afastei, o desespero tomando conta. — É do Logan. Tem que ser dele. Aquela última noite antes de eu sair de casa ao ouvir aquela conversa nojenta, antes de ouvir aquilo tudo que ele falou para aquela mulher. Na noite anterior... Eu tinha feito amor com ele... pelo menos da minha parte foi amor. Já para ele foi mais um momento sem graça e de pena da parte dele. - Vocês se protegeram? - Neguei. - A minha médica tinha pedido para parar o anticoncepcional, porque eu estava ficando com muitos efeitos negativos da marca que estava utilizando... Eu tinha que transar com camisinha, eu falei pro Logan, mas ele não ligou. Eu lembro que ele não usou naquele dia, foi a última vez que até nos falamos. Fechei os olhos me lembrando daquela noite, como eu tinha me iludido tanto... Como!? Caminhei de um lado para o outro no espaço apertado do banheiro, sentindo as paredes me comprimindo. — Se o meu chefe descobrir, ele me demite no ato. Você conhece o Lian Bianchi. Ele é uma máquina, Sabrina. Ele não tolera erros, não tolera atrasos e, com certeza, não vai tolerar uma secretária que desmaia em reuniões e precisa de licença-maternidade daqui a alguns meses. Ele vai me mandar de volta para aquele abismo de onde eu acabei de sair. — Ei, olha para mim! — Sabrina segurou meus ombros com força. — O Lian é um carrasco, mas ele preza pela sua competência. Você é a melhor que ele já teve. Você já ouviu isso da boca dele. Era verdade, ele tinha falado uma gracinha, me deixado sem graça, mas reconheceu que eu era uma das melhores secretárias que esteve na empresa. Mas eu sabia que tudo isso era passageiro se eu estivesse realmente grávida. — Ele preza por resultados, não por seres humanos — rebati, limpando o rosto com as costas das mãos. — Eu finalmente estava esquecendo o Logan, finalmente parando de me sentir um "resto de nada". E agora eu vou carregar um pedaço dele dentro de mim para sempre? Um lembrete diário de que eu fui dependente e idiota? Recostei-me na pia, sentindo o frio do mármore. Eu me senti vazia e cheia ao mesmo tempo. O medo do futuro agora tinha um nome, e o fantasma do Logan, que eu achei ter deixado naquela calçada de Porto Alegre, acabara de se tornar um passageiro permanente da minha vida. — Eu não posso perder esse emprego, Sabrina — sussurrei para o espelho, vendo uma Júlia que eu mal reconhecia. — Eu prefiro morrer a ter que pedir ajuda para o Logan de novo. O ar do banheiro parecia ter acabado. Eu me apoiei na pia, sentindo o mundo oscilar mais uma vez, mas não era a pressão baixa — era a realidade se estilhaçando. — O Logan... — eu repetia, como um mantra de proteção. — Tem que ser dele. Se for dele, eu dou um jeito. Eu sumo, eu troco de cidade, eu... Sabrina, que estava em silêncio me observando, descruzou os braços lentamente. Ela deu um passo à frente, e a expressão no rosto dela não era de pena, era de choque. Um choque que fez meu sangue congelar nas veias. — Ju... — ela começou, a voz baixa e cautelosa. — Você tem certeza do que está dizendo? - Olhei para ela incrédula. — Claro que tenho! — explodi, à beira de um ataque de nervos. — Na noite anterior, eu estava animada com a entrevista. Logan não queria me ouvir pela milésima vez que daria tudo de mim na entrevista, então ele disse que estava com saudades... - Faço uma careta, porque agora eu sei que era uma manipulação da parte dele. Ele simplesmente não aguentava mais me ouvir, então me foder era o jeito dele de me calar. - Transamos..., eu nem tinha gozado, mas ele obteve o seu próprio prazer e dormiu me deixando lá sozinha. - Não gostava de lembrar disso. - No dia seguinte fui até a empresa fazer a primeira parte da minha entrevista. Voltei para casa animada. Eu saí de casa logo depois daquela conversa horrível. Os prazos batem, Sabrina. A conta fecha. Sabrina soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconfortável. — Não, Júlia. Os prazos não batem. — Sabrina me encarou seriamente, a voz firme como quem precisa dar um choque de realidade em um paciente em choque. — Você está esquecendo de uma noite específica. E de um homem específico. Meu coração falhou uma batida. O ar parecia ter se transformado em chumbo. — Do que você está falando, Sabrina? Eu já disse, o Logan e eu... — Esquece o Logan por um segundo! — Ela me cortou, segurando minhas mãos que tremiam descontroladamente. — Faz pouco mais de três meses. Lembra daquela noite no bar da boate onde eu trabalho? A noite em que você descobriu a traição, bebeu como se o mundo fosse acabar e acabou nos braços daquele estranho do relógio brilhante? As imagens, antes bloqueadas por um mecanismo de defesa do meu cérebro, começaram a vazar como uma represa rompida. O cheiro de sândalo. O toque de uma mão firme na minha cintura para eu não cair. O calor de um corpo que, hoje, eu sei que me olha todos os dias como um desafio... Um corpo mais alto, mais forte, mais... imponente. — Deus! — O som saiu como um engasgo, um grito sufocado. — Como eu pude... — Você não apenas transou com ele, Júlia. Você se entregou para o homem que, poucas horas depois, seria o seu chefe. Se o Logan estava no páreo por causa daquela tentativa patética de silêncio, o Lian Bianchi entrou na disputa com força total naquela suíte de hotel. Você se lembra dele ter usado camisinha? Deus, eu não lembro... Senti minhas pernas cederem. Sentei-me no chão gelado do banheiro, as costas batendo contra o armário da pia. A lembrança agora vinha com força total, perfurando a negação. O beijo dele, com gosto de uísque e autoridade. A maneira como ele me guiou, a respiração dele no meu ouvido dizendo que eu estava sendo uma "garota muito imprudente". — Não... — balbuciei, balançando a cabeça. — Não pode ser dele. O Lian... Ele é o meu chefe! Você sabe que eu somente estou lá porque eu preciso desse emprego. Sabe que nós primeiros dias trabalhando para ele... - Gemo em angústia - Não pode ser, Sabrina. Eu estava começando a ficar louca com tudo isso. — Tem duas possibilidades, Júlia. Você não se protegeu da noite com Logan, e tenho certeza que não se protegeu na noite com Lian. — ela rebateu com uma franqueza que me atingiu como um tapa. — Você dormiu com os dois num intervalo de menos de vinte e quatro horas. Se você quer ser realista, admita: se o Logan tem possibilidade de ser o pai, o Lian Bianchi está exatamente no mesmo páreo. Ou você lembra de ter se protegido com Lian? - Nego. O desespero que eu sentia antes era uma brisa perto do furacão que me atingiu agora. — Meu Deus... — enterrei o rosto nas mãos, sentindo o frio do chão subir pelos meus ossos. — Se for dele, eu estou morta. Ele vai achar que foi um golpe planejado. Ele é o Lian Bianchi, ele destrói impérios antes do almoço! O que ele vai fazer com uma secretária que carrega um filho dele... um filho que ele nem vai acreditar ser dele? Olhei para o teste no lixo. As duas linhas azuis não eram mais apenas um susto; eram uma sentença. Eu não estava apenas carregando um bebê; eu estava carregando uma bomba relógio que envolvia o homem que eu mais temia e o homem que eu mais odiava. — Eu preciso trabalhar amanhã — sussurrei, meus olhos arregalados, fixos no vazio. — Eu tenho que olhar para o Lian, organizar a agenda dele, servir o café dele... sabendo que "possivelmente" eu posso estar crescendo aqui dentro um bebê dele. E para piorar, eu não tenho certeza, porque tem também a possibilidade desse bebê ser da assombração do meu ex. - E agora, o que eu faço?






