Mundo de ficçãoIniciar sessãoLian Bianchi
O gelo estalou no meu copo de uísque, um som seco que acompanhava o ritmo da minha paciência. Eu detesto perder tempo, mas naquela noite, na penumbra daquela boate em Porto Alegre, eu estava disposto a investir alguns minutos apenas observando. Eu a reconheci no instante em que ela cruzou a entrada. Júlia Cavalcante. Eu havia passado a tarde analisando o dossiê dela. O currículo era impecável, a trajetória acadêmica brilhante, mas as referências recentes eram vagas, quase como se ela estivesse escondida sob a sombra de alguém. Ela era a favorita para a vaga de minha secretária executiva, a fase final seria na manhã seguinte. Eu esperava encontrar uma mulher contida, de terninho e postura rígida. Mas a mulher que vi no bar era uma ferida aberta. Ela estava sentada no balcão, segurando um copo como se fosse uma boia de salvação. Os ombros, que nas fotos de perfil pareciam carregar o mundo, estavam caídos sob o peso de uma dor que eu conhecia bem: a traição. Eu a vi virar a primeira dose, depois a segunda. O barman a servia com uma familiaridade que me irritou por um segundo — eu não gosto de dividir o que considero meu, e aquela mulher, por contrato ou por destino, já estava marcada para ser minha funcionária. Isso seria resolvido amanhã sem falta. Eu poderia ter levantado, caminhado até ela e me apresentado. Poderia ter dito: "Srta. Cavalcante, guarde o álcool, temos uma reunião às nove". Mas havia algo no modo como ela limpou uma lágrima teimosa, uma raiva silenciosa queimando naquelas pupilas claras, que me impediu. Eu queria ver até onde aquela chama ia. Quando ela se levantou e começou a dançar, o mundo ao redor dela desapareceu para mim. Ela não dançava para seduzir os outros; ela dançava para exorcizar um demônio. E cada movimento de seus quadris, cada vez que ela jogava a cabeça para trás, era um grito de liberdade. Eu sabia que ela não me reconheceria, ela provavelmente nem sabia que seria o seu chefe, não quando eu não falasse o meu nome. Eu sou o tipo de homem que mantém a face pública em revistas de economia, mas que se mistura às sombras quando quer caçar. Quando ela tropeçou, meu corpo reagiu antes da minha mente. Eu a segurei. E, no momento em que a pele dela tocou a minha, o jogo mudou. Ela cheirava a desespero e uísque, mas por baixo disso, havia um perfume floral doce, algo que remetia à inocência que alguém tinha tentado esmagar. — Você disse que não se quebra fácil — eu sussurrei contra o ouvido dela. Eu senti o arrepio dela. Senti o coração dela martelando contra o meu peito. Ela estava vulnerável, mas também perigosa. Ela queria se perder, e eu? Eu sempre fui um mestre em encontrar o que os outros jogam fora. Eu não disse quem eu era. Por que estragar a diversão? Eu queria a Júlia sem filtros, a mulher que não estaria tentando me impressionar com planilhas e agendas. Eu queria a mulher que me olhava com uma fome que não vinha do estômago, mas da alma. A noite na suíte foi uma revelação. Eu já tive muitas mulheres, mas nenhuma se entregou com aquela mistura de fúria e entrega total. Ela usou o meu corpo como um instrumento para silenciar a voz de um tal "Logan", o nome que ela sussurrou quando estava dormindo ao meu lado. Eu a possuí com uma intensidade que me surpreendeu. Eu queria marcar cada centímetro daquela pele para que, quando ela sentasse à minha frente na empresa, ela ainda pudesse sentir o meu peso sobre ela. O sexo oral foi um pacto silencioso. Eu a devorei porque queria saber qual era o gosto da rebeldia dela. E, quando ela atingiu o ápice, gritando no meu ouvido, eu soube que não conseguiria deixar ir tão facilmente. Pela manhã, eu fingi que dormia. Eu a senti levantar, a pressa em suas mãos, o pânico silencioso de quem percebe que cruzou uma linha sem volta. Eu ouvi a porta se fechar e sorri contra o travesseiro. “Fugir não vai adiantar, Júlia”, pensei. “Você está correndo direto para a minha toca.” Duas horas depois, eu estava no meu escritório. A vista de Porto Alegre do 42º andar era magnífica, mas eu só conseguia pensar na expressão que ela faria quando a porta se abrisse. Eu estava impecável: camisa branca, abotoaduras de ônix, o poder emanando de cada fibra do meu ser. O "estranho" da noite passada agora era o "Sr. Bianchi". Quando a secretária anunciou o nome dela, eu me virei para o vidro. Eu queria que ela visse primeiro a minha silhueta, o poder que eu exercia antes mesmo de mostrar o rosto. A porta abriu. Eu senti a hesitação dela no ar. O cheiro de sândalo da sala, o meu cheiro, deve ter batido nela como um nocaute. Virei-me lentamente. A palidez que tomou conta do rosto dela foi satisfatória. Ver o currículo tremer em suas mãos, ver aqueles olhos — que horas antes estavam dilatados de prazer — agora arregalados de puro terror, foi a melhor parte do meu dia. — Ora, ora... — minha voz saiu mais profunda do que o habitual, carregada com o segredo que compartilhamos. — Então a mulher que foge ao amanhecer resolveu aparecer para trabalhar? Eu me aproximei, caminhando como um predador que encurrala a presa, mas sem pressa. Eu não ia demiti-la. Oh, não. Ter Júlia Cavalcante como a minha secretária seria interessante. O silêncio na sala era absoluto, mas eu quase podia ouvir o tamborilar frenético do coração dela. Júlia estava ali, a poucos passos, tentando desesperadamente sustentar a fachada do profissionalismo enquanto o terror a corroía por dentro. Eu deixei que o silêncio se estendesse; o desconforto dela era um tempero que eu pretendia saborear. Sustentei um meio sorriso, aquele que eu sabia que a desarmava, lendo em seus olhos cada lampejo da noite anterior que ainda a assombrava. Ela parecia prestes a desmoronar. A pasta em suas mãos tremia levemente. Era divertido ver a mulher impetuosa e selvagem que eu conhecera no hotel ser substituída por essa versão acuada, vestindo um blazer que tentava esconder as curvas que eu já conhecia de cor. — Sr. Bianchi... eu... — A voz dela falhou. Um deleite para os meus ouvidos. — O que foi, Júlia? Perdeu a audição junto com a pressa de fugir do meu quarto? — Dei um passo à frente. O perfume dela me atingiu — o mesmo cheiro de gardênias e desejo. Reduzi o espaço entre nós até sentir o calor dela, o mesmo calor que ela buscou tão avidamente quando as mãos de Logan não foram suficientes. — Eu não sabia... eu juro que não sabia quem o senhor era — ela gaguejou, forçando uma coragem que não tinha. — Por favor, eu preciso desse emprego. Eu sou qualificada... Não me mande embora por causa de um erro. De uma noite de insensatez. Dei uma risada baixa. "Erro"? O que tivemos não foi um erro; foi uma colisão. Caminhei até minha mesa de carvalho, me sentando com a calma de quem dita as regras do mundo. Abri a pasta dela. As notas eram perfeitas, as referências impecáveis. Júlia Cavalcante era um diamante bruto em termos técnicos. — Mandar você embora? — Arqueei a sobrancelha, prendendo o olhar dela no meu. — O seu currículo é impecável, Júlia. Você é, tecnicamente, a melhor candidata que passou por essa porta há anos. Vi o brilho de esperança nos olhos dela. Tão ingênua. Eu não ia facilitar as coisas. — No entanto — fechei a pasta, o estalo ecoando como um veredito —, agora temos um complicador. Eu sei exatamente do que você é capaz sob pressão. Eu vi a sua entrega, a sua falta de limites. Inclinei para frente, observando como um falcão. — Eu não vou te demitir. Seria um desperdício de talento. Mas se quer o cargo, vai ter que provar que está à altura dele tanto quanto provou, entre aqueles lençóis, que é excepcional. Quero o mesmo fogo, a mesma dedicação... e a mesma obediência. O rubor que subiu ao rosto dela foi instantâneo. Uma mistura de vergonha e aquela raiva latente que eu tanto admirava. — Isso é... isso é assédio! — Ela disparou. Adorável. — O senhor está me chantageando porque transamos? Eu sou uma profissional! Recostei na cadeira, achando graça da sua resistência. Ela não tinha ideia do poder que eu detinha. — Chantageando? Não. Estou estabelecendo padrões. Se não consegue lidar com o fato de que eu conheço a mulher por baixo desse blazer, sintam-se à vontade para sair. Eu sabia que ela não sairia. O orgulho dela estava ferido, mas a necessidade era maior. Eu sabia que ele tinha brigado feio com alguém, provavelmente um namorado. O medo de ser vista novamente como um fardo. Eu era o bilhete de saída dela, e nós dois sabíamos disso. Ela respirou fundo, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a bolsa. A postura dela mudou; a fragilidade deu lugar a uma armadura de gelo. — Quando eu começo? — A voz dela agora era aço puro. Sorri. Dessa vez, não era um sorriso de deboche, mas de satisfação. Eu tinha onde queria. — Agora mesmo, Júlia. Vá até a recepção. E um aviso... — Fiz uma pausa proposital, deixando meus olhos percorrerem cada centímetro dela antes de voltar ao seu rosto. — Use aquele perfume de ontem. Eu gosto de lembrar do cheiro que você deixou grudado em mim. Ela saiu sem dizer uma palavra, as costas rígidas de indignação, e eu fiquei ali parado, olhando a porta se fechar. Eu tinha armado tudo isso, desde que a vi na boate. Não vou mentir para mim mesmo e dizer que não queria ver tudo que vi nos olhos dela, a questão é que o nosso jogo mudou. Júlia agora está sob o meu controle, eu dito todas as regras e ela terá que manter o controle como afirmou ter. Vamos ver até onde a minha nova secretaria vai aguentar.






