Mundo ficciónIniciar sesiónEla precisava de um emprego. Ele queria controle. Nenhum dos dois esperava desejo. Emília Sánchez deixou a Argentina carregando perdas demais para uma vida só. Órfã de pai, marcada pela depressão da mãe e traída pelo homem em quem confiava, ela está Irlanda com um visto prestes a expirar e zero margem para errar. Deportação não é uma ameaça distante, é um relógio correndo contra ela. Declan Quinn é tudo o que Emília deveria evitar. Bilionário. Irlandês. Arrogante. Devasso. Um homem acostumado a conquistar, usar e descartar. Pai solteiro de gêmeos e herdeiro de um império empresarial, ele transforma desejo em regra e poder em arma. Nada escapa ao seu controle, muito menos a nova babá que salvou seu filho quando ninguém mais conseguiu alcançá-lo. Quando Emília descobre que o homem do bar, aquele beijo errado, aquela proposta indecente, é também seu possível empregador, ela tenta fugir. Mas Declan não aceita recusas. E faz uma oferta impossível de ignorar: proteção, estabilidade… e uma cláusula proibida que muda tudo. Entre contratos perigosos, jogos de dominação, atração incendiária e limites constantemente testados, Emília precisará decidir até onde vai para sobreviver e o que está disposta a perder quando desejo e poder se confundem. Porque, nesse jogo, ninguém sai ileso. E o bilionário devasso não estava preparado para ser conquistado.
Leer másPOV EMÍLIA
Eu sempre achei que o amor fosse uma coisa simples. Daquelas que a gente alimenta com paciência, rotina, cuidado. Nada demais, nada espetacular. Só presença.
Talvez por isso eu nunca tenha percebido o momento exato em que Juan deixou de estar comigo, mesmo dormindo na mesma cama todas as noites.
Ou talvez eu soubesse. E só não queria aceitar.
Eu cheguei no apartamento com um bolo ridículo nas mãos, um bolo barato, comprado no mercado, com aquelas velas que soltam faíscas, porque eu não tinha dinheiro pra mais nada. Era nosso “aniversário de namoro”, quatro anos. Quatro anos que eu acreditava que significavam alguma coisa.
Eu estava sorrindo. Sorriso bobo, de quem ainda acha que o mundo tem espaço pra coisas pequenas.
Eu abri a porta.
E tudo que eu sabia sobre estabilidade, sobre confiança, sobre segurança… fez um barulho seco dentro de mim, tipo vidro quebrando.
Juan estava com outra mulher.
Não apenas beijando ou flertando.Transando.A calcinha dela pendurada na maçaneta, a blusa no chão, os gemidos ainda ecoando pela sala.
Eu fiquei parada na porta como uma completa idiota, com o bolo idiota e a vela idiota, enquanto eles continuavam, como se eu fosse invisível.
Foi ela quem me viu primeiro. Uma garota bonita, magra, um sorriso envenenado.
— Ai — ela riu, puxando o lençol pra cima — é ela?
É ela.
A namorada.
A trouxa.A coadjuvante da própria vida.Juan não parou imediatamente.
Ele desacelerou.Virou a cabeça.Fez uma expressão de incômodo.— Emília… — ele disse como se eu tivesse chegado cedo demais a alguma coisa — você podia ter avisado que viria.
— Avisado? — minha voz saiu fina, trêmula. — Hoje é nosso aniversário de namoro.
Ele riu.
— É sério isso? Emília… você é tão… tão… — ele gesticulou vagamente, como se buscasse a palavra mais cruel — conservadora. Ingênua. Você ainda acha que datas importam?
A outra riu também.
Eu queria morrer.
— Você não serve pra isso — Juan continuou, dando de ombros. — Você é limitada. Fraca. Não sabe satisfazer um homem. Nem tenta. E, honestamente… — ele me olhou de cima a baixo — pobre, sem graça, básica. A gente cresce, Emília. Você não acompanhou.
Eu ouvi.
Eu fiquei ouvindo.Cada sílaba entrando na minha pele como faca quente.Ele vestiu a camisa enquanto continuava:
— Olha, a gente estava indo pra esse fim mesmo. Eu só não queria estragar as coisas pra você, já é difícil o suficiente alguém como você manter um relacionamento aqui. Você devia agradecer.
— Agradecer? — engasguei.
— É. Antes que vire um escândalo… e chamem a polícia.
— Polícia? — eu repeti, sem entender.
E ele sorriu. Um sorriso lento, venenoso, satisfeito.
— Seu visto está atrasado, Emília. Você sabe disso. E se você surtasse, sei lá, fizesse alguma coisa irracional… — ele ergueu os ombros — eu teria que me proteger, né?
Eu juro por tudo que existe que naquele momento o chão sumiu.
— Você denunciou o meu visto? — minha voz se fragmentou.
— Ah, Emília. Não dramatiza. Só disse o que era verdade. Eles devem bater na sua porta amanhã ou depois.
Você que lute.A mulher ao lado dele riu de novo.
Algo quebrou dentro de mim. Algo profundo, talvez irrecuperável. Eu deixei o bolo cair no chão. A vela acesa apagou. Eu virei as costas e saí. Eu não chorei. Ainda não.
A dor veio depois, como um tsunami silencioso que atravessa a cidade inteira sem fazer barulho, mas arranca tudo do caminho.
***
No meu quartinho, se é que três paredes mofadas e um colchão fino podem ser chamados de “quarto”, eu finalmente desmoronei.
A notificação do governo tinha chegado antes de mim.
Um e-mail. Direto, impessoal, devastador: Vocês tem 30 dias para regularizar o status. Caso contrário, deportação.
Era real.
Juan realmente tinha me denunciado.
Eu não tinha dinheiro para renovar o visto.
Eu não tinha nenhum diploma válido ali.Eu não tinha família na Irlanda.Eu não tinha ninguém.Eu não tinha nem casa, tecnicamente, porque o aluguel venceria em poucos dias e o café onde eu trabalhava pagava quase nada.
Eu sentei no chão e chorei até a garganta arder.
E quando acabou, quando não tinha mais lágrima nenhuma, só aquele cansaço de quem perdeu algo irreversível… minha amiga Camila apareceu batendo na porta.
“Vamo beber.”
E eu, pela primeira vez em meses, não tive forças pra recusar.
***
O pub estava quente, cheio, barulhento, aquela confusão típica irlandesa de voz alta, música triste, cerveja forte e gente que esquece rápido da própria dor.
A luz âmbar das lâmpadas refletia no metal da guinness. O chão cheirava a madeira molhada. O mundo parecia meio torto, meio girando devagar. Talvez eu estivesse girando por dentro também.
— Ele te denunciou, Emília! — Camila repetia pela décima vez. — Que tipo de filho da puta faz isso?!
— Um que eu namorei quatro anos — eu murmurei, bebendo um gole grande.
— É por isso que eu sou solteira — ela respondeu. — Homem só presta pra duas coisas: te ferrar ou ferrar você.
— Não ajuda — suspirei.
— Óbvio que ajuda. — Ela ergueu o queixo na direção da pista de dança. — Olha ali. A gente vai te dar um motivo pra esquecer aquele imbecil.
E então eu vi.
Ele.
O homem mais inacreditavelmente bonito que eu já tinha visto na vida. Não de um jeito plástico.De um jeito… perigoso.
Cabelos escuros, bagunçados com perfeição. Um casaco preto pesado. O copo de whisky entre os dedos longos. O olhar de quem enxerga tudo. E naquele instante, ele me viu.
Meu coração perdeu o ritmo. Uma batida errada. Uma batida a mais. Um calor idiota na barriga.
Camila assoviou.
— Puta merda.
— Vamos embora — murmurei, já arrepiada com a própria reação.
— Vamos nada, mulher! Você viu como esse homem te olhou?
Vi. E esse foi o problema.
Ele atravessou o bar sem desviar o olhar. Com uma calma que deixava todo mundo no caminho invisível. Ele parou na minha frente. Alto. Sério. Assombrosamente seguro de si.
— Você está tentando esquecer alguém — ele disse, em inglês, mas com aquela voz grave que vibrava no osso — ou tentando ser lembrada?
Minha espinha derreteu.
— Tô tentando beber — respondi, irritada comigo mesma por tremer.
Ele sorriu, um sorriso lento, perigoso, quase cruel.
— Então deixa eu ajudar.
Ele pegou minha mão. Não pediu. Só pegou. E eu deixei. Eu… deixei. Me odiei um pouco por isso. Mas deixei.
Ele me puxou pra pista de dança. O pub inteiro pareceu recuar. As luzes ficaram mais quentes. A música virou um grave que vibrava no ar.
O homem encostou uma mão na minha cintura, firme, quente. E puxou. O corpo dele se alinhou no meu como se já nos conhecêssemos.Os dedos dele subiram pelas minhas costas, devagar. Eu senti tudo... a presença dele, a força, o perfume caro, a respiração perto demais.
Era íntimo demais pra dois desconhecidos. E era exatamente por isso que eu não conseguia me soltar. Ele se inclinou levemente, roçando os lábios perto da minha orelha.
— Me diga pra parar, se você quiser.
Eu não disse. Eu não consegui dizer.
E então ele me beijou.
Um beijo quente, urgente, profundo, nada parecido com o que eu tinha vivido antes. Era o tipo de beijo que faz a gente esquecer o nome, o endereço, o mês, a vida inteira.
Me perdi.
Um pouco.Talvez muito.As mãos dele apertaram minha cintura, me guiando, me segurando, me consumindo.
E quando ele afastou o rosto, ainda com a boca perto demais da minha, disse baixinho:
— Se você vier comigo agora… eu prometo que faz o seu ex virar pó.
Eu recobrei a consciência como um tapa.
Juan.
Humilhação.Dor.Trauma.Eu empurrei ele com força.
— Eu não preciso de outro lixo igual ao que eu já tive.
— Lixo? — ele arqueou a sobrancelha, intrigado. — É isso que você acha que eu sou?
— Um homem que beija desconhecidas e as chama pro hotel como se fossem fast-food?
— Eu não vejo problema — ele respondeu. — Desde que as duas partes queiram.
— Pois eu não quero.
— Sua boca disse outra coisa — ele rebateu, calmo, provocador.
Meu rosto queimou de raiva e vergonha, porque ele não estava totalmente errado.
Eu dei um passo pra trás.
— Fique longe de mim.
E saí do pub antes que o coração escapasse pela boca.
POV EmíliaA secretária fechou a pasta com cuidado demais, como quem sabe quando deve desaparecer.— Senhor Quinn, se precisar de algo… — ela começou.— Não vou — ele interrompeu, sem sequer olhar para ela. — Pode sair.Não houve discussão. Só obediência.A porta se fechou, e o silêncio caiu como um golpe calculado.Declan Quinn permaneceu de pé por mais alguns segundos, olhando pela janela, como se eu não estivesse ali. Aquilo não era descaso — era domínio. Ele fazia isso de propósito. Homens como ele sabiam exatamente como deixar alguém desconfortável.— Sente-se — ele disse, finalmente.Não era um pedido.— Prefiro ficar em pé — respondi.Um canto da boca dele se curvou.— Gosto de mulheres que fingem resistência — comentou, casual. — Mas geralmente sentam quando percebem que não estão no controle.Meu estômago revirou.— Isso não é uma entrevista — eu disse. — Mandar a secretária embora deixou isso claro.— Ótimo — ele respondeu, virando-se. — Odeio fingimentos.Ele se aproximou l
POV EmíliaO café foi esvaziando aos poucos. As mesas foram ficando vazias, as cadeiras empilhadas, o cheiro de café queimado substituído pelo de detergente barato. Isla cantava baixinho enquanto limpava o balcão, completamente alheia ao caos que girava dentro de mim.Eu dobrava guardanapos com força demais. Limpava o mesmo pedaço do balcão três vezes. Estava esperando o idiota o Juan que sempre vinha me buscar no fim do turno e não quis acreditar que realmente tudo aquilo aconteceu. — Você tá esperando alguém? — Isla perguntou, observando meu nervosismo.— Não — menti rápido demais. — Só… distraída.Ela arqueou a sobrancelha.— Distraída depois de salvar uma criança de ser atropelada? Normal.Eu fechei os olhos por um segundo.Salvar Téo.O “obrigado” sussurrado.O olhar de pai, carregado de algo que eu não soube nomear.E agora… nada.Talvez eu tivesse imaginado tudo.Talvez aquele olhar não significasse nada.Talvez homens como ele simplesmente seg
POV EmíliaEu levei alguns segundos a mais do que o necessário para preparar o cappuccino. Não porque fosse difícil. Mas porque minhas mãos tremiam.Atrás do balcão, Isla me lançou um olhar curioso.— Quem é o gostosão da mesa três? — murmurou, inclinando-se para ver melhor. — Ele parece… perigoso.Perigoso.Se ela soubesse.— Cliente — respondi curto. — Só isso.Mas quando voltei com a bandeja, vi que o universo não pretendia me dar trégua.Ele não estava mais olhando para mim. Estava olhando para Fiona, uma das garçonetes do turno da manhã. Ruiva, sorridente, do tipo que nunca parece cansada. Ela estava inclinada demais sobre a mesa dele. Rindo.Rindo.— Então você trabalha aqui todos os dias? — ele perguntou, a voz baixa, perfeitamente audível. — Deve ser cansativo… ser tão bonita logo cedo.Meu estômago afundou.Fiona corou.Claro que corou.— Ah, depende do cliente — ela respondeu, jogando o cabelo para trás.Thomas observava a cena com tédio infantil, enquanto Téo permanecia qui
POV EmíliaEu dormi duas horas. Talvez três. Ou nenhuma, quem sabe. Meu corpo parecia uma casa invadida por ladrões, tudo remexido, tudo fora do lugar.Quando acordei, ainda sentia o gosto dele na boca. O beijo. A raiva. A vergonha. A sensação de ter perdido algo que eu nem sabia que tinha.Meu estômago embrulhou.Eu enxuguei o rosto, prendi o cabelo de qualquer jeito e vesti o uniforme bege que eu odiava. O avental amarrotado parecia refletir a minha alma amassada. Saí correndo para o turno no café, atrasada, cansada e com o peito cheio daquela culpa idiota que acompanha a gente quando a vida implode rápido demais.O sol da manhã bateu no meu rosto, mas não aqueceu nada. Nem pele, nem pensamento.Eu entrei no café e o cheiro de pão fresco preencheu minhas narinas. Barulho de pratos, de gente conversando, de vida que segue. Só a minha que não seguia.John, o dono do café, um homem gordinho, gentil até demais, me olhou do balcão e franziu as sobrancelhas.— Emília… está tudo bem?Eu qu
POV EMÍLIAEu sempre achei que o amor fosse uma coisa simples. Daquelas que a gente alimenta com paciência, rotina, cuidado. Nada demais, nada espetacular. Só presença.Talvez por isso eu nunca tenha percebido o momento exato em que Juan deixou de estar comigo, mesmo dormindo na mesma cama todas as noites.Ou talvez eu soubesse. E só não queria aceitar.Eu cheguei no apartamento com um bolo ridículo nas mãos, um bolo barato, comprado no mercado, com aquelas velas que soltam faíscas, porque eu não tinha dinheiro pra mais nada. Era nosso “aniversário de namoro”, quatro anos. Quatro anos que eu acreditava que significavam alguma coisa.Eu estava sorrindo. Sorriso bobo, de quem ainda acha que o mundo tem espaço pra coisas pequenas.Eu abri a porta.E tudo que eu sabia sobre estabilidade, sobre confiança, sobre segurança… fez um barulho seco dentro de mim, tipo vidro quebrando.Juan estava com outra mulher.Não apenas beijando ou flertando.Transando.A calcinha dela pendurada na maçaneta,
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